O consumidor brasileiro não é tão conservador quanto as indústrias imaginam. É verdade que muita gente “desconfia” quando uma novidade chega ao mercado e demora um pouco para experimentar ou até espera pra ver se “deu tudo certo com o do vizinho”. Mas, ao mesmo tempo, quando percebe que a novidade facilita sua vida, muda de ideia rapidamente.
Não faltam exemplos de tecnologias que hoje fazem parte da nossa rotina. Foi assim com o WhatsApp. Quando lançado, lembro de especialistas céticos em relação à sua adoção em um País com limitações na alfabetização e no letramento digital. Em pouco tempo, uma tecnologia que no início parecia “coisa de quem entende de tecnologia” virou espaço de conversa das famílias populares, ferramenta de trabalho, canal de vendas, e até protagonista de uma virada eleitoral inédita, com uma mobilização massiva que impressionou inclusive forças políticas de países desenvolvidos, que apesar de contarem com devices e infraestrutura digital mais avançada, nunca conseguiram botar de pé algo similar ao que ocorreu no Brasil. E foi assim também com o Pix. No seu lançamento vi muitos duvidarem do ritmo de sua adoção. Hoje, ninguém precisa explicar por que é melhor receber um pagamento na hora do que esperar pela compensação de um boleto que pode levar dias, principalmente em finais de semana e feriados.
E isso reforça exatamente o que eu disse acima: o brasileiro não precisou ser convencido de que essas tecnologias eram modernas. Precisou perceber que eram úteis e que faziam sentido em sua vida.
Alguns poderiam questionar: será que essa abertura à mudança ocorreria com categorias de alto desembolso, como carros? A resposta é sim. Com os carros elétricos, estamos vendo o mesmo movimento.
Em pesquisa recente do Instituto Locomotiva vimos que 87% dos motoristas brasileiros hoje dizem que considerariam comprar um veículo elétrico. O número contraria a ideia de que o consumidor brasileiro é conservador e refratário a mudanças. Grande parte dessa disposição pode ser explicada por uma razão bastante conhecida de quem vai ao posto de combustível: economia.
Isso porque, para 78% dos entrevistados, gastar menos com combustível influencia a decisão de considerar um carro elétrico. Outros 76% acreditam que a compra compensa no longo prazo, mesmo quando o preço inicial é mais alto.
Não é difícil entender. Quem trabalha com o carro, leva os filhos à escola, enfrenta trânsito todos os dias e precisa abastecer sabe o peso dessa despesa no orçamento. E para a grande maioria das famílias o gasto com combustível não é um detalhe, mas uma conta que chega toda semana.
Esse aumento na quantidade de carros elétricos circulando pelas ruas é o reflexo do consumidor brasileiro fazendo o que sempre fez: comparando, calculando e procurando uma saída melhor para o próprio bolso. O brasileiro é atento aos preços: entre quem ainda não tem um elétrico, oito em cada dez dizem que a aproximação do preço do etanol com o da gasolina também aumentaria o interesse por essa alternativa.
Quem trata a eletrificação da frota como uma discussão distante, restrita a consumidores de maior renda, interessados em tecnologia ou preocupados com questões ambientais, precisa perceber que a mudança muitas vezes começa por uma necessidade simples e geral: gastar menos para se deslocar.
Isso não quer dizer que o brasileiro também não tenha algumas preocupações. O preço de aquisição alto ainda pesa, a infraestrutura de recarga precisa avançar e a autonomia continua sendo uma preocupação para quem percorre grandes distâncias. Mas há uma diferença entre o consumidor não querer uma tecnologia e não conseguir comprá-la. Confundir as duas coisas é um erro que pode custar caro à indústria.
Se a eletrificação vai transformar o transporte, precisa chegar também a quem mais precisa. A barreira não é o consumidor. O brasileiro, inclusive o das classes CDE, já mostrou que sabe incorporar inovações tecnológicas rapidamente à sua vida. Adotou o Pix, colocou o WhatsApp no centro da vida profissional e aprendeu a resolver pelo celular tarefas que antes exigiam deslocamentos, filas e tempo. E não foi por falta de apego aos velhos hábitos que fez isso, mas porque encontrou vantagens. O brasileiro é muito mais aberto à inovação e à mudança do que muitos CEOs globais nos países ricos imaginam.
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