
Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte
Por Marcelo Mesquita, 05/11/2026
Meus amigos, no Rio de Janeiro o mar nunca está longe, e quem nasce com a água salgada batendo na porta aprende cedo uma lição que Nelson Rodrigues já sabia de cor: a maré tem vontade própria. Ela sobe quando quer, desce quando quer, e quem tenta mandar nela termina de bermuda molhada na areia. Pois bem. Eu, que sou flamenguista de carteirinha e de coração, informo com a responsabilidade de quem leu a tábua de marés da vida: neste fim de campeonato, a maré está toda a favor do Mengão Malvadão.
E o carioca conhece o seu Malvadão. Sabe que ele é o time que judia do adversário com um sorriso, que dá volta olímpica em dia de chuva e que faz da pressão uma espécie de fantasia de gala. Mas deixe a maré para depois, que antes eu quero falar de magia, a magia do futebol arte, e dos dois artistas que a fizeram na noite de quarta-feira no Maracanã.
Arrascaeta. Em tempo de dúvida, ele aparece. Contra o Grêmio, aos dezenove minutos, ele pega a bola, levanta a cabeça como quem lê uma carta antiga, e lança o Samuel Lino por cima da defesa. Um lançamento daqueles que o Nelson chamaria de “pincelada”, se ele não tivesse a maldade de preferir “bisturi”. O Lino domina, chuta, o goleiro defende, e no rebote a bola entra. Gol do Lino? Gol do Lino. Mas a alma do gol é do uruguaio, que há tempos não vinha com o seu melhor e que, de repente, devolve o futebol ao lugar de onde nunca devia ter saído: o pé, a cabeça, o capricho.
E então vem Carrascal. Aos vinte e sete minutos, Carrascal, o gringo que tantas vezes foi execrado, dá um chapéu no marcador, a bola passa por cima da cabeça do pobre rapaz como quem passa por cima de uma poça, e ele, depois de girar, ainda tem lucidez para tocar para o Pedro como quem joga futsal. O Pedro, que passou semanas olhando para o gol como quem procura um amigo que sumiu, toca por baixo do goleiro. Estopa (como diria o saudoso comentarista Apolinho). Dois a zero. Eu fiquei de pé, eu gritei, o vizinho ouviu e eu não me arrependo.
Se Arrascaeta é o gesto que antecipa a jogada, Carrascal é o gesto que a conclui. E aí eu proponho, com a licença dos dicionários: temos aqui o ArrasCal. Ou, se preferirem, o CarrasCaeta. Duas metades de uma mesma bola, dois craques que, quando se encontram na magia do futebol arte, fazem do Maracanã um salão de baile e do adversário um bom camarada convidado para dançar sem saber a coreografia. Um escreve o verso, o outro assina a rima. E o torcedor, como um pinto no lixo, só pode agradecer.
Mas, meus caros, a maré. Olhem a tabela do Flamengo: Athletico, Chapecoense, Coritiba, e, claro, o Palmeiras, no confronto direto. É um calendário que eu chamaria de generoso, ainda que o carioca desconfie sempre dos presentes. O Mengão joga numa frente só, a do Brasileirão, e isso muda tudo. Cada semana de descanso, cada treino de ritmo, cada rodízio de jogador é um aliado discreto que o título ganha sem pedir.
E o Palmeiras? Ah, o Palmeiras corre em três frentes, a nado, em mar aberto, com o vento pelo ombro: o Brasileirão, a Copa do Brasil e uma final de Libertadores, com a possibilidade do Mundial no horizonte. Como se não bastasse, na volta da Data Fifa, a pedreira: jogar contra o Cruzeiro, lá em Minas Gerais, num dia em que alguns convocados podem nem estar por aqui. Quem corre atrás de tudo corre o risco de não alcançar nada. É a lei do mar: quem tenta nadar para todos os lados acaba pegando o mesmo caldo.
Eu, que não sou ingênuo, não compro faixa antes da hora. Eu já aprendi, nesta vida, que a bola tem humor próprio e que Flamengo e Palmeiras ainda têm um confronto direto em São Paulo, onde tudo pode acontecer. O Flamengo é favorito, o Flamengo é o líder, o Flamengo tem a vantagem no bolso. Mas favorito, meus caros, é aquele que ainda não ganhou. A hora do champanhe é depois do apito.
Porém, que ninguém me proíba de olhar para o mar e sentir, nos ossos, que a maré está a nosso favor. Tem Arrascaeta lançando, tem Carrascal driblando, tem ArrasCael inventando, tem o Pedro voltando a fazer gol, tem o Mengão Malvadão inteiro de camisa suada e de sorriso cínico. Que o torcedor adversário reclame, que o corneteiro resmungue, que o analista de gabinete faça conta de calculadora. A maré, meus amigos, está subindo. E eu estou de pé na areia, com o pé na água, rindo de tudo.
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