
Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte
Por Marcelo Mesquita, 21/09/2026
Em tempos de eleição, meus caros, vivemos inundados de notícia falsa, tanto da extrema esquerda quanto da extrema direita — e por quê? Porque isso gera engajamento, porque o algoritmo só responde ao que viraliza, equação nefasta que faz a mentira correr solta enquanto a verdade, quando finalmente aparece, mal ganha uma notinha perdida em jornal pouco lido. O estrago, esse, já foi feito antes de qualquer correção chegar.
Pois bem, leitores queridos — e hoje escrevo pensando especialmente em vocês, povo acreano, gente sofrida e orgulhosa do extremo norte deste país continental —, não vou lançar a fake news de que o Flamengo amassou o Red Bull Bragantino, venceu por dois a um e com isso abriu vantagem isolada na liderança do Brasileirão. É verdade, sim, aconteceu, mas hoje, mesmo sendo flamenguista roxo como sempre confessei sem vergonha nesta coluna, vou relegar o Mengão ao espaço de notinha de rodapé. Porque quem merece manchete inteira, hoje, é filho da terra: Weverton, goleiro do Grêmio, que brilhou por anos a fio vestindo o verde do Palmeiras e ontem, na Arena gremista, aplicou a lei do ex com a amargura de quem sabe exatamente onde apertar o botão da saudade.
Weverton, o acreano que saiu da comunidade e chegou ao mundo — e digo “comunidade” sem eufemismo, porque foi exatamente assim que ele mesmo sempre fez questão de contar a própria história —, fechou o gol de forma literal ontem pela manhã. O Palmeiras, seu ex-clube, martelou o adversário com nada menos que vinte e nove finalizações, treze delas na direção da meta, setenta e dois por cento de posse de bola, dominando o jogo do primeiro ao último minuto — e mesmo assim saiu de Porto Alegre sem conseguir balançar a rede uma única vez. Nove defesas, muitas delas classificadas por quem estava lá como “milagre” puro e simples. Zero a zero no placar final, mas um a zero para a lenda pessoal de Weverton, que segurou sozinho o que o time inteiro não conseguiu resolver coletivamente.
E aqui, meus amigos, cabe contar — para quem talvez não saiba, ou para quem sabe e nunca cansa de ouvir de novo, porque história bonita se conta e reconta sem perder o brilho — de onde vem esse homem que ontem parou o Palmeiras sozinho. Weverton nasceu e cresceu na Baixada da Sobral, aglomerado de bairros periféricos em Rio Branco, terra que, convenhamos, nunca teve tradição nenhuma de exportar craque pro resto do Brasil — não por falta de talento, ele mesmo já disse isso com todas as letras, mas por falta de oportunidade, que é sempre a desculpa mais cruel que a geografia inventa contra o mérito individual. Queria ser atacante quando garoto. Foi o treinador Illimani Suares quem o convenceu, com certa relutância dele — chegou a faltar treino de tão contrariado —, a experimentar a meta. E foi ali, debaixo das traves, que a explosão e a agilidade do menino encontraram, finalmente, o próprio destino.
Rodou pelo Juventus-AC, chegou à Copinha de 2006, passou por base de Corinthians, Oeste, Botafogo-SP, América-RN, Portuguesa, até florescer de vez no Athletico Paranaense — trezentos e três jogos em seis temporadas, ouro olímpico em 2016 com direito a defesa de pênalti decisiva contra a Alemanha —, e finalmente encontrar no Palmeiras a consagração plena: doze títulos, quatrocentos e cinquenta e quatro jogos, ídolo absoluto entre 2018 e 2025. E agora, aos trinta e oito anos, veste o manto do Grêmio e continua fazendo o que sempre soube fazer desde menino na Baixada da Sobral: aparecer exatamente na hora em que ninguém mais espera.
Curioso, aliás, notar que ontem foi justamente o Palmeiras quem jogou o futebol mais bonito da tarde — não ficou tocando bola aérea a esmo, não apostou no desespero, trabalhou a jogada com paciência, criou chance atrás de chance. Poderia facilmente ter saído de Porto Alegre com um dois a um, um três a dois, qualquer placar que coroasse tanto domínio. Mas encontrou, na sua frente, o próprio paredão que ajudou a construir a própria história de campeão — e o paredão, esse dia, decidiu que não deixaria passar.
Convocado para sua segunda Copa do Mundo, Weverton já havia dito, com a voz embargada, que sua história se torna “muito mais improvável” justamente por vir de um estado sem tradição nenhuma no futebol, onde talento sobra e oportunidade falta. Pois que fique registrado aqui, neste jornal que o povo acreano lê com o orgulho de quem finalmente vê seu nome estampado fora do próprio estado: o menino que cortava bandeirinha de rua em época de Copa, que pintava asfalto de tanto amor ao futebol sem imaginar que um dia estaria dentro dele duas vezes, ontem escreveu mais um capítulo dessa história improvável — e fez isso justamente contra o time que mais amou, com a elegância de quem sabe que gratidão e profissionalismo cabem, sim, dentro da mesma alma.
Que o Acre inteiro aplauda hoje, porque o Flamengo pode até estar na ponta da tabela — mas o protagonista da rodada nasceu na Baixada da Sobral, e isso nenhuma estatística de liderança consegue apagar.
Gerar Post/Story