Fla e Vasco vencem
Brasileirão

A Ressaca Que Virou Festa: Flamengo e Vasco Ressuscitam no Mesmo Placar

28/10/2026 3 views 5 min de leitura
Fla e Vasco vencem
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Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte

Por Marcelo Mesquita, 28/10/2026

Meus amigos, há coincidências que só o Rio de Janeiro consegue produzir, e que Nelson Rodrigues, se vivo estivesse, assinaria sem mudar uma vírgula. Em uma mesma semana, o Flamengo e o Vasco, duas camisas gigantes, duas torcidas que se estranham desde a fundação da cidade, foram à lona em suas copas. Um caiu nos pênaltis, dentro do Maracanã, na Libertadores. O outro caiu no Maracanã também, na Sul-Americana, depois de ter calado a Bombonera. E o que fazem os dois? Entram em campo, no fim de semana, e vencem pelo mesmo placar: três a dois. De virada. Os dois. Pergunte ao acaso se ele sabe contar piada melhor do que isso.

E eu digo, com a mão no peito e a boca ainda seca de tanto gritar, que quem torceu para o afundamento dos dois deve estar, neste instante, mastigando o próprio boné.

Vamos por partes, que a crônica merece respeito. Não tem coisa mais difícil no futebol do que jogar depois de uma eliminação traumática. O corpo está no vestiário, a cabeça ainda está no pênalti perdido. O torcedor, ferido, grita pedindo cabeça. A imprensa abre a gaveta da tragédia. O rival secador já deixou pronta a piada. É a ressaca de bebida barata, e quem já passou por uma sabe: no dia seguinte, levantar da cama é o ato mais heroico que um ser humano pode praticar.

O Flamengo levantou. E levantou no sufoco, que é como o Flamengo gosta de levantar, ao que parece. Bernard, de contra-ataque, abriu o placar aos seis minutos, um susto que podia ter virado funeral. Aí a bola de Plata, que veio como cruzamento e bateu no pé da trave, resolveu entrar, e eu chamo isso de sobrenatural de Almeida, aquele personagem que o Nelson batizou e que aparece sempre que a lógica vai tomar café. Arrascaeta, de volta, tocou o segundo. Depois o jogo desandou, o Atlético-MG empatou, o time perdeu a mão, e quando o Maracanã já respirava aflito, veio o pênalti nos acréscimos, a bola na marca, e todo o mundo olhando para o chão, para o lado, para cima, qualquer lugar que não fosse a bola. Quem foi? O gringo Carrascal, aquele que andou criticado, o homem que tantas vezes foi execrado e que, naquele instante, pegou a bola com a calma de quem sabe que o destino vai gostar dele. Bateu no canto, bateu bonito, e o Flamengo manteve a liderança do Brasileirão, setenta pontos, um à frente do Palmeiras. Na unha, ninguém negue. Mas na unha também se ganha campeonato.

E o Vasco? Ah, o Vasco! O gigante da Colina foi ao Maracanã favoritaço, depois de calar a Bombonera, e caiu de forma que fez a cidade chorar. A torcida cruzmaltina, que tem alma de poeta e estômago de pedra, passou os dias seguintes ouvindo que o time estava no abismo, que ia se afundar na zona de rebaixamento, que não valia um tostão. E o que acontece? O Vasco recebe o Corinthians em São Januário, na estreia de Seedorf no banco adversário, abre o placar com Puma Rodríguez, sofre a virada logo no início do segundo tempo e parece, parece mesmo, que vai ser mais uma noite de humilhação. Mas aí, aos quarenta e dois, Marino, que estava havia trinta e três jogos sem marcar, empata. Dois minutos depois, Marino, de novo, vira. Trinta e três jogos de jejum quebrados em três minutos. Se isso não é cinema, meus caros, é porque o cinema não tem coragem.

O Vasco saiu do jogo com trinta e oito pontos, na décima terceira colocação, fora da zona de rebaixamento, e com a torcida dormindo o sono dos justos. E o Corinthians, coitado, ficou com um problema grande para resolver, sem culpa do Vasco, que só fez o que o futebol manda: aproveitar o espaço que o adversário deixa.

Agora, para os corneteiros de plantão, os urubólogos de computador, os que já tinham o caixão pronto para os dois, eu faço uma pergunta carinhosa: como é que está o sabor desse boné? Duas camisas gigantes e pesadas disseram, no mesmo fim de semana, a mesma frase em placar de futebol: estamos vivas. Quem apostou no luto, e não falo de aposta de casa de jogo, falo de torcida cornetera, perdeu o jogo da vida, que é aquele em que o outro lado não se entrega.

E o melhor de tudo, o mais carioca de todos os enredos, o que o Nelson teria escrito de joelhos: o próximo jogo é entre eles. Flamengo e Vasco, quinta-feira, vinte horas, no Nilton Santos. Os dois ressuscitados no mesmo fim de semana, os dois com o mesmo placar na mochila, os dois com a mesma ressaca na alma. O destino, que tem o péssimo hábito de ser roteirista, juntou os dois na mesma noite para ver quem é mais forte: o que renasceu nos acréscimos ou o que virou aos quarenta e cinco do segundo tempo.

Eu sou flamenguista, e digo sem medo de errar: o clássico vai ser de uma verdade dolorosa e deliciosa, porque quem sofreu junto entende o outro. Não tem favorito aqui, tem dois feridos que ainda não terminaram de cicatrizar. E ferido, meus amigos, é o bicho mais perigoso do futebol. Prepara o café, prepara o chocolate, deixa o cardiologista de lado: a quinta-feira vai ter tudo, menos tédio.

E que ninguém ouse me dizer que o futebol carioca está morto. Está ferido, amassado, pálido, cheio de curativos. Mas vivo. Vivíssimo.

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