Pintou o campeão
Brasileirão

O Flamengo de Jardim e a Sinfonia da Liderança

09/09/2026 1 views 5 min de leitura
Pintou o campeão
Pintou o campeão

Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte

Por Marcelo Mesquita, 09/09/2026

Meus amigos, peguem a visão: parece que já temos campeão brasileiro à vista, e olha que não é força de torcedor apaixonado falando alto demais. Antes que me acusem de parcialidade por ser flamenguista roxo, garanto de peito aberto: isto aqui é análise fria, sem paixão atravessada no meio do raciocínio. Futebol de elite é organismo complexo — exige equilíbrio entre tática, técnica, gestão de elenco e o desgaste físico de quem disputa múltiplas frentes ao mesmo tempo, sem desfazer o ritmo. E, nesse tabuleiro inteiro, o Flamengo hoje atende a noventa por cento dessas valências, enquanto a balança pesa contra o Palmeiras, seu grande rival na briga pelo topo.

No último fim de semana, o Rubro-Negro amassou como campeão de verdade amassa — mesmo debaixo de chuva encharcando campo lá pelo Norte, castigando a bola, limitando a criatividade de quem tentava jogar bonito. Venceu por um a zero, e o brilho da tarde foi Samuel Lino, autor de gol à la Romário ou Ronaldinho Fenômeno — toque de bico, genialidade pura brotando no meio de um jogo truncado, sem aviso prévio. Do outro lado, porém, o goleiro do Remo, meu xará, Marcelo Rangel, também mereceu reverência: depois de cruzamento cirúrgico de Ayrton Lucas, Pedro cabeceou à queima-roupa, e o arqueiro operou milagre digno de Gordon Banks em 1970, aquele tipo de defesa que vira lenda antes mesmo do apito final.

E aqui, vale a pausa reflexiva: cena de dois protagonistas cristãos, unidos pela mesma fé, em lados opostos do lance. Pedro buscando resposta nos céus depois de ver a bola voltar; o goleiro agradecendo pela intervenção divina, mantendo aquela humildade de quem trocaria brilho pessoal por resultado melhor pro próprio time. Entre os dois, a vitória ficou com o Flamengo — mas a defesa, essa, já entrou pra história do campeonato.

Voltando ao Brasileirão: o Flamengo assume a ponta, enquanto o Palmeiras, sob olhar atento de Ancelotti, não fez bom jogo aqui no Rio. Aliás, se aquele confronto servisse de régua pra convocação de Seleção, pouco nome sobreviveria à peneira. O Botafogo, que outrora encantou o país inteiro, hoje vive de caricatura, refém das turbulências da SAF de John Textor — 0800 de expectativa, cobrança cara demais de entregar. Já o Palmeiras parece atuar engessado, tenso, sem a fluidez que sempre foi sua marca registrada.

E é bem aqui, paizão, que o mérito de Leonardo Jardim precisa ser dito sem meia palavra. O treinador soube consertar a rota depois da turbulência de um mês atrás — ouviu o próprio elenco, percebeu que o grupo se sentia mais à vontade com modelo de pressão alta e posse de bola, marca registrada das eras de Jorge Jesus e Filipe Luís. Não era corpo mole de quem já ganhou o suficiente. Era busca de identidade perdida, e ele achou o caminho de volta. O Flamengo hoje joga leve, solto, consciente do que é e do que quer. O Palmeiras, mesmo com nome tarimbado e experiência europeia no currículo, segue refém de esquema que simplesmente não flui — brota chance, mas não amassa quando precisa.

O Fator Mental e a Reta Final

Falta ao Palmeiras justamente esse elemento disruptivo — aquele jogador com irreverência de Romário ou genialidade lúdica de Ronaldinho Gaúcho, capaz de quebrar protocolo e oxigenar modelo hoje engessado demais pra respirar sozinho. Quando resultado não acompanha, a tensão vira perrengue cíclico: peso na perna aumenta, confiança despenca, e o time entra em campo já carregando bagagem que não devia.

Some a isso a logística implacável: disputar três frentes em país de dimensão continental cobra preço físico altíssimo, sem desconto, sem trégua. É humanamente impossível manter intensidade máxima em toda competição ao mesmo tempo. Nesse cenário, prognóstico fica mais claro do que sinaleira de trânsito parado: o Flamengo chega à reta final mais inteiro, mais organizado, e, acima de tudo, mais leve. Faltando doze rodadas pro fim do Brasileiro e a dois jogos da decisão continental, o Rubro-Negro parece ter finalmente marcado um dez pra respirar e achar o próprio ponto de equilíbrio, bem na hora certa.

Minha aposta, então, sem medo de errar feio: o Flamengo caminha a passos largos rumo ao título brasileiro e a uma final de Libertadores. Já o Palmeiras, diante do desgaste acumulado, pode acabar sacrificando o Nacional pra focar no que parece ser seu porto seguro nesta temporada: a Copa do Brasil. O clima na Gávea é de otimismo, torcedor já fazendo plano de festa, enquanto na Academia de Futebol o desafio é reverter momento que, nesta altura do campeonato, fica cada vez mais difícil de contornar. O futebol, ainda: como sempre foi e sempre será, é quem dá a palavra final.

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