Podridão no futebol
Brasileirão

A Podridão Por Trás do Apito: Quando o Crime Entra em Campo e Rouba o Nosso Futebol

03/09/2026 9 views 6 min de leitura
Podridão no futebol
Podridão no futebol

Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte

Por Marcelo Mesquita, 03/09/2026

É preciso coragem para olhar de frente o abismo, meu caro leitor — e eu, que já perdi a conta de quantas vezes escrevi sobre a beleza deste esporte, hoje preciso escrever sobre a lama que se acumulou debaixo dela.

Nesta semana, perambulando pelos corredores da faculdade durante a Semana da Educação Física, trocando ideia com colegas do primeiro período, tive a oportunidade de puxar resenha com dois rapazes que eu já vinha observando, na semana anterior, destruindo numa quadra de futsal. Bola no pé, movimentação refinada, visão de jogo acima da média — a leitura de olheiro não falha, e olha que exerci esse ofício por cinco anos, há duas décadas. Fui checar de perto, e não deu outra: um já tinha rodado pelo profissional dos dezoito aos vinte e dois anos; o outro, cria da base do Flamengo e do Botafogo, dispensado, ainda na luta, dando sangue atrás da sorte grande que talvez nunca chegue.

Sentamos para aquela resenha raiz, sem filtro. E foi ali que a cortina caiu e o esgoto veio à tona. Um deles me contou, com a dor de quem teve o próprio sonho mutilado ainda em formação, como foi vítima direta da podridão das apostas esportivas. Aos dezenove anos, comendo bola, voando fisicamente, trouxe a família de longe para vê-lo jogar. Marcou gol, arrebentou no primeiro tempo. No intervalo, o técnico o tira de campo sob a desculpa esfarrapada de “poupá-lo”. Resultado: o time levou virada inexplicável no segundo tempo e perdeu por três a um. Na semana seguinte, inventaram uma historinha canalha de indisciplina — um mal-entendido de comunicação em que quatro atletas, ele incluído, chegaram cedo, ficaram na lanchonete e foram acusados de atraso ao entrar no vestiário. Punição neles. Sem a molecada que estava voando, o time apanhou cinco a zero. O desfecho, o leitor já imagina: tempos depois, estourou o esquema inteiro. Jogadores cascudos, técnico e diretoria mancomunados para facilitar resultado e faturar em cima das bets.

E não me venha com ingenuidade, leitor — isso não é caso isolado de rodapé de página. É método. É epidemia que se alastrou pelo futebol brasileiro de ponta a ponta.

No fim de semana seguinte a essa conversa, assisti pela televisão a Palmeiras contra Vasco, pelo Brasileirão. Primeiro tempo, o time carioca jogando organizado, deixando o Verdão perdido em campo. No apagar das luzes da primeira etapa, contra-ataque vascaíno: o lateral Paulo Henrique puxa em velocidade, monstro físico, corre mais rápido que notícia ruim se espalha. No meio, os dois zagueiros do Palmeiras correm atabalhoados tentando recompor a linha. E o atacante David, o “DVD”, vem na corrida, com a visão limpa, inteira, da própria posição em relação à defesa. Dava para ver da televisão, da arquibancada, de Marte: ele estava impedido, claramente à frente da linha. Eu berrava para a tela — “atrasa a passada, garoto! Olha a linha, car…” — na verdade xingava um palavrão que a decência desta coluna prefere não reproduzir. Em vão. Ele recebeu em posição irregular, perdeu o gol, a jogada foi anulada. Erro crasso, básico, inaceitável para quem ganha a vida chutando bola. Fiquei indignado. Pensei: esse rapaz merece um chá de banco urgente.

Dois dias depois veio a bomba. O mesmo jogador aparece citado, investigado por envolvimento em esquema cabuloso que ia da venda ilegal de armas a ramificações no submundo do crime organizado. Aí a ficha cai, e o quebra-cabeça se monta sozinho: como é que um atleta vai ter foco para ler uma linha de impedimento se a cabeça dele está mergulhada no submundo da criminalidade? Não existe tática no mundo que funcione quando a ética do vestiário já está podre por dentro.

A verdade nua e crua é que o futebol brasileiro virou campo minado nos últimos anos. De 2021 para cá, assistimos a um festival de operações policiais e CPIs escancarando a promiscuidade entre atletas, dirigentes, intermediários e casas de apostas. A Operação Penalidade Máxima, deflagrada pelo Ministério Público de Goiás, jogou na lama nomes de Série A e B — gente do calibre de Eduardo Bauermann, Alef Manga, Dadá Belmonte, Igor Cariús, entre outros mais de vinte atletas investigados, punidos ou banidos por venderem escanteio, cartão e resultado por uma dinheirama suja.

Instalou-se a CPI da Manipulação no Senado, expondo figuras de bastidor movimentando fortuna enquanto o torcedor trouxa queimava a garganta na arquibancada, sem saber que talvez estivesse torcendo para um roteiro já escrito antes da bola rolar. E o que dizer do escândalo da VaideBet dentro do próprio Corinthians, onde a Polícia Civil indiciou ex-dirigentes por lavagem de dinheiro e associação criminosa em contrato de patrocínio? O vírus da corrupção atacou as duas pontas do mesmo corpo doente: da garotada do futebol de várzea e dos estaduais de menor expressão — como vimos em esquemas desmantelados no Ceará e no Espírito Santo — até a elite do nosso futebol profissional. O crime organizado não quer saber de paixão clubística. Quer lavar dinheiro e aparelhar o esporte como quem aparelha qualquer outro negócio ilícito.

Precisamos parar de ser românticos em excesso com o esporte bretão. Essa ideia de que “o futebol é uma ilha de pureza” é conversa para boi dormir. O esporte brasileiro virou refém da ganância desmedida de quem acha que tecnologia moderna e fiscalização nunca vão alcançar o ilícito. Ilusão barata — e cara demais para quem paga a conta de verdade: o torcedor, o garoto de talento, o sonho mutilado antes mesmo de nascer.

O crime não compensa. A conta sempre chega — seja na forma de camburão da Polícia Civil estacionado no portão do CT, seja na perda irreversível do bem mais precioso que um atleta carrega: a própria dignidade. Trago hoje este texto não apenas como desabafo, mas como manifesto, como ponto de reflexão para todos nós que ainda amamos este esporte apesar dele mesmo.

Prometo acompanhar de perto o desdobramento do caso do atleta “DVD” e de outros episódios que mancham nossa bandeira. Mais do que apontar dedo para culpado, precisamos ir à raiz do problema — debruçar-me sobre esse tema para propor saída real, estrutural, de acolhimento para as famílias dos jovens jogadores. Precisamos de rede de proteção e orientação ética, para que talento como o do garoto que conheci na faculdade não tenha a carreira castrada e ceifada pela ganância alheia. Drama que hoje sangra o futebol, mas que já assombra, lamentavelmente, outras modalidades esportivas do país inteiro.

A bola precisa voltar a rolar limpa. E enquanto eu tiver uma caneta na mão, a podridão não vai ter sossego.

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