Farmar Aura
Copa do Mundo

Farmar Aura, mas afinal o que é isso?!

04/08/2026 5 views 5 min de leitura
Farmar Aura
Farmar Aura

Crônica de um carioca apaixonado por futebol

Por Marcelo Mesquita, 04/08/2026

Deparei-me, ainda zonzo do café da manhã, com as autoridades da minha cidade proibindo o primeiro campeonato de “Farmar Aura” em Niterói. Li a notícia duas vezes, achando que era erro de digitação, sonho mal dormido, ou piada de redator entediado. Confesso que já havia visto um vídeo aqui e outro acolá — um rapaz parado numa esquina, de óculos escuros à meia-noite, olhando para o horizonte como se tivesse acabado de vencer uma guerra que só ele soube que existiu — e me pareceram estranhos, quase clínicos, do tipo de estranheza que um homem de mais de cinquenta anos sente diante de um mundo que decidiu, sem consultá-lo, mudar de idioma da noite para o dia. Afinal, o que é Farmar Aura? Fui apurar, com a humildade de quem sabe que ignorância confessada é menos vergonhosa que ignorância disfarçada de desprezo: “farmar” vem dos videogames, onde significa repetir uma ação até acumular recurso ou experiência; “aura”, na boca da juventude, não é mais aquele halo espiritual das enciclopédias antigas — é carisma, presença, respeito, a sombra invisível que uma pessoa projeta ao entrar numa sala. Farmar aura, então, é cultivar, tijolo por tijolo, curtida por curtida, essa sombra — até que ela pese mais do que a pessoa que a projeta.

Pois bem. Convoquei meus filhos e os amigos mais jovens, como de costume, para que a coisa não ficasse só no espanto de velho resmungão. Eles, generosos como sempre, não riram de mim — explicaram. Disseram-me que há, por trás dessa gíria de aparência boba, um fenômeno sério: a validação social sempre foi parte da adolescência, e o cérebro jovem é feito, quase por desenho biológico, para buscar reconhecimento do grupo. O problema, explicaram, não é o desejo antigo de ser admirado — isso é da espécie humana desde que a espécie humana existe. O problema é quando a admiração vira algoritmo, e o algoritmo, esse padre cruel sem batina, só absolve quem produz espanto, indignação ou riso fácil. Um adolescente que estuda, treina, cuida da avó, aparece pouco nesse evangelho digital. Um adolescente que finge ser misterioso numa esquina, e passa vergonha ao tentar, vira viral por horas. A régua, disseram-me, está torta — mas a régua sempre esteve torta, meus caros; só mudou de material.

E foi então, sem que eu precisasse forçar a pergunta, que eles me trouxeram, de bandeja, o nome que eu já esperava: Neymar Jr.. Porque se existe um homem, no Brasil dos últimos vinte anos, que testemunhou a transição inteira — do jornal impresso ao vídeo de quinze segundos, do rádio de domingo à transmissão ao vivo de uma quarta-feira qualquer, sem jogo nenhum, só para mostrar o jantar — esse homem é ele. Pelé existia através de poucos canais, todos filtrados, todos lentos. Ronaldo e Ronaldinho já sentiram o vento da internet, mas ainda respiravam o ar mais escasso da televisão tradicional. Neymar é a primeira estrela brasileira que nasceu, cresceu e envelheceu dentro do próprio algoritmo — não ao lado dele, dentro dele, como quem mora na própria vitrine e esquece, de tanto morar, que existe uma casa por trás do vidro.

Não vou, com a leviandade de quem pisou em campo amadoristicamente, dizer que ele não teve talento. Teria eu a arrogância de negar nove gols em Copas do Mundo, um recorde de artilharia que superou o próprio Pelé nos registros oficiais? Não. Neymar é gênio. A questão, muito mais fina e muito mais dolorosa, é outra: em que momento a proporção se inverteu? Porque houve um tempo em que Neymar “farmava aura” dentro de campo — com o corpo, com o drible, com o gol decisivo — e a fama era apenas o eco natural do talento, justo prêmio de quem merecia. E há, hoje, um homem de trinta e quatro anos, reserva na própria quarta Copa do Mundo, entrando em apenas duas partidas, enquanto sua presença nas redes seguia em ritmo de titular absoluto, publicando, comentando, aparecendo, existindo digitalmente com uma intensidade que seu próprio corpo, em campo, já não conseguia sustentar.

É provocação, sim, e não me esquivo dela: será que Neymar, neste estágio da carreira, não está mais preocupado em farmar aura do que em escrever novas páginas dentro das quatro linhas? Será que o peso da marca não superou, já, o peso do jogador? Não é acusação — é pergunta, e pergunta séria merece resposta séria, não linchamento de comentário de internet nem devoção cega de torcida organizada. Mas fica registrado, com toda a ironia que um homem de mais de cinquenta anos, morador de Niterói, recém-apresentado à palavra “aura” em sua acepção moderna, tem o direito de exercitar: se a geração de hoje aprendeu a farmar aura em vídeo de quinze segundos, talvez tenha aprendido observando, sem saber, o próprio ídolo fazer exatamente isso — só que em alta definição, com patrocínio, e durante anos.

E, cá entre nós, se um dia proibirem também o “campeonato de Farmar Aura da CBF”, eu prometo não estranhar. Afinal, este, ao que tudo indica, já vem sendo disputado há décadas, com medalha de ouro garantida para quem melhor parecer competente sem precisar provar nada.

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