Torcida brasileira e a Copa de 2026
Copa do Mundo

Fomos Eliminados e Ainda Assim Fomos Felizes — Alguém Precisa Explicar Isso

21/07/2026 7 views 6 min de leitura
Torcida brasileira e a Copa de 2026
Fomos eliminados e ainda assim fomos felizes

Vozinha, Haaland e o vice de Messi: A Copa que o Brasil assistiu de fora, rindo

Por Marcelo Mesquita, 21/07/2026

Havia uma Copa do Mundo acontecendo, mas para muita gente no Brasil ela parecia outra coisa: um calendário de ansiedade, um catálogo de decepções antecipadas, um feriado prolongado de nervosismo. Caímos cedo, caímos feio, caímos do jeito que já vínhamos avisando no “Semear Notícias” há semanas que cairíamos — sem processo, sem identidade, sem aquele fio que amarra uma geração à outra. E, no entanto, aconteceu uma coisa curiosa, quase indecente de tão inesperada: o brasileiro se divertiu. Se divertiu muito. Porque existe uma diferença enorme entre um povo triste e um povo que, mesmo eliminado, ainda sabe rir — e o Brasil, meus amigos, continua sendo, apesar de tudo, o segundo tipo.

Apareceu Cabo Verde. E, com Cabo Verde, apareceu Vozinha.

Foi naquele tipo de jogo que o torcedor brasileiro reconhece antes mesmo de explicar: o jogo que prende, o jogo que faz a casa silenciar, o jogo em que a bola parece ter peso moral. Argentina e Cabo Verde fizeram um duelo de faca nos dentes, com cara de filme antigo e coração de internet moderna. O time africano foi para cima sem pedir licença, resistiu como quem sabe que está ali por merecimento, e só cedeu na prorrogação, por 3 a 2, depois de segurar os atuais campeões do mundo com uma dignidade que muita seleção rica por aí gostaria de ter em currículo. No meio disso tudo, um goleiro de quarenta anos, cabeludo, sorridente, com nome de avó carinhosa, parecendo um baiano raiz, fez o que os grandes fazem: não apenas defendeu, deu sentido ao sufoco. Chegou a tentar driblar o próprio Messi dentro da área — e o torcedor, entre gargalhadas, decidiu que aquilo também era heroísmo, mesmo quando dava errado.

Eu me lembro de uma conversa com meu amigo Levi Salvador, carioca da gema que mora nos Estados Unidos. Ele me disse: “Cara, há muito tempo um jogo de futebol não me prendia tanto. Estava na casa de um amigo e assisti o jogo até o final, vibrando… Esse foi um grande presente dessa Copa do Mundo”. E não vibrava pela Argentina, nem contra ela. Vibrava por Cabo Verde, por Vozinha, pela alegria desarmada de um país de seiscentos mil habitantes jogando de igual para igual contra o mundo. Foi assim, aliás, para boa parte do Brasil inteiro: adotamos o azarão porque, no fundo, sempre fomos o azarão de nós mesmos. Foi Davi contra Golias e quase deu o menor contra o maior.

Os personagens que ficaram

O que marcou os brasileiros nesta Copa, no fundo, não foi apenas a vitória de uns ou a derrota de outros — foi a chance de se emocionar com gente que não vinha pronta do pódio. Vozinha virou nome de manchete e de afeto, subindo de quarenta e oito mil para quase vinte milhões de seguidores em poucos dias, superando, olha a ironia, a própria seleção argentina no Instagram. Haaland, o carrasco que nos eliminou com dois gols frios de quem resolve palavra cruzada em silêncio, chamou atenção pela educação, carisma e por uma espécie de honestidade esportiva que sempre surpreende quem está acostumado a vilão caricato — o norueguês não comemorou feito quem humilha, comemorou feito quem trabalhou.

E depois veio a final, e com ela o Brasil reencontrou aquela vocação genuína, quase artesanal, de transformar a dor alheia em alívio compartilhado: a Argentina, tricampeã, parou na Espanha por 1 a 0, na prorrogação, e ficou — segurem o riso — apenas com o vice. Os memes nasceram antes mesmo de o apito final soar. Mexeram, claro, com o número que todo argentino faz questão de esquecer nas madrugadas de bar: Messi, gênio inquestionável, generoso a ponto de dar duas assistências históricas contra a Inglaterra sem precisar do próprio nome no placar, segue com duas Copas do Mundo a menos que Pelé. O internauta brasileiro, mestre em encontrar humor até na própria desgraça, não perdoou: encontrou tempo de rir do vizinho antes mesmo de terminar de chorar de si mesmo.

A alegria que falta

Talvez o mais bonito desta Copa tenha sido lembrar ao brasileiro que o futebol pode voltar a ser prazeroso sem precisar ser solene. Pode ser arte sem virar sacrifício. Pode ser emoção sem virar neurose. Pode ser drible, invenção e risco, sem que isso precise ser guerra de identidade nem boletim de metas de reunião de federação.

E é justamente aí que mora a provocação final, a única que interessa: o povo brasileiro, em sua maioria, é alegre, sensível e apaixonado — e quer reviver essa alegria no próprio futebol, não emprestada do vizinho, não terceirizada num goleiro de Cabo Verde ou num artilheiro norueguês. Quer o espanto do drible de Garrincha, a genialidade luminosa de Pelé, as bruxarias de Ronaldinho Gaúcho, as arrancadas de Ronaldo Fenômeno, a frieza dentro da área de Romário, a liberdade de jogar como quem dança, e a beleza coletiva daquele time de 1982, treinado por Telê Santana, que nem foi campeão e que amamos, até hoje, mais do que amamos muito campeão.

Que fique registrado, então, para quem de direito quiser ler — e que algum dirigente, alguma vez, tropece nesta crônica antes de marcar mais uma reunião inútil sobre metas: o Brasil pode até se contentar com cinco taças. Mas o coração brasileiro, quando fala a verdade, ainda quer mesmo é futebol arte como identidade. Que essa luz, pequena e teimosa, ilumine o caminho até 2030. Porque rir do vizinho é fácil. Difícil mesmo — e urgente — é rir de novo, com orgulho, da própria seleção.

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