
Crônica de um carioca apaixonado por futebol
Por Marcelo Mesquita, 31/07/2026
Há frases que não envelhecem porque não foram escritas para um tempo, mas para a condição humana inteira. Afirmou o Senhor Jesus: “A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” é uma delas. Não é evasiva, é bisturi: separa o que pertence a um domínio do que pertence a outro, e recusa a preguiça de misturá-los. Aplico-a hoje a um homem que o Brasil insiste em julgar aos gritos, quando ele merecia ser compreendido em silêncio: Neymar da Silva Santos Júnior.
Os números, primeiro, porque os números não mentem, ainda que costumem calar o que mais importa. Neymar é o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira em jogos oficiais, com setenta e nove gols — mais do que Pelé, segundo o critério que a FIFA reconhece. Em quatro Copas do Mundo, marcou nove vezes. É retrato de talento que poucos homens, em qualquer época, em qualquer país, tiveram o privilégio de carregar nas pernas. Isso é de César, e a César se devolve, sem economia nem ressentimento.
Mas há um dado, dentro desse mesmo levantamento, que dói mais do que qualquer gol perdido: Neymar chegou à sua quarta Copa do Mundo como reserva e em quase todas machucado. Entrou em apenas duas partidas. Aos trinta e quatro anos, o homem que um dia foi o adiamento vivo da aposentadoria de um país inteiro assistiu, do banco, ao Brasil se decidir sem ele em campo. Não há estatística de gols que amortize essa imagem. Um jogador que nasceu para ser o centro do jogo, sentado à margem dele — eis a fotografia mais honesta de toda essa história, e é curioso que tenha sido tão pouco fotografada.
Porque o Brasil prefere a discussão ruidosa à observação silenciosa. Prefere achar um culpado a entender uma causa. E a causa, aqui, não é de ordem moral — é de ordem física, quase mecânica, na sua tristeza. O corpo humano tem memória, e memória de lesão é memória que cobra juros. Trinta e sete lesões ao longo de uma carreira não compõem um azar generoso demais para ser natural; compõem um padrão, e padrão se lê, não se lamenta. O tornozelo que se rompeu numa temporada prepara o terreno para o joelho que cede na seguinte. A carne vai avisando, mas nem sempre alguém escuta.
Há ainda uma dimensão que o torcedor brasileiro trata como rodapé e que a fisiologia trata como fundamento: o sono. É durante o sono profundo que o corpo repara o que o jogo destrói — os músculos, os tecidos, as microfissuras que o esforço abre a cada partida. Um homem que troca a madrugada de recuperação pela madrugada de mesa de jogo não está apenas gastando tempo; está adiando indefinidamente a própria cura. Não é acidente que, poucos dias depois de o Brasil ser eliminado, Neymar tenha sido visto em Las Vegas, disputando um torneio de pôquer. E não é gratuito que um campeão brasileiro da modalidade, Victor Garcia, tenha vindo a público dizer que Neymar joga cartas em nível profissional, e que essa dedicação — os horários que ela exige, as noites que consome — tenha pesado no declínio do jogador de futebol que ele também era. Não é preciso condenar o homem para reconhecer o que o gesto revela: uma vida inteira apostando fichas, e não sendo capaz, ao fim, de distinguir mais qual mesa merecia a aposta mais alta.
Vale, aqui, uma comparação que não humilha, apenas ilumina. Lionel Messi confessou, já adulto, que comia mal — doces, refrigerante, o improviso alimentar de quem cresceu acreditando que o talento bastava. Depois de uma Copa perdida, a de 2014 aqui no Brasil, procurou ajuda de um nutricionista esportivo, mudou de hábito, e chegou aos trinta e nove anos como o maior artilheiro da história de Copas do Mundo. Cristiano Ronaldo, por seu turno, transformou o próprio corpo em disciplina permanente, não em fase de passagem, e segue, aos quarenta e um anos, como o atleta mais bem pago do planeta, com um patrimônio que ultrapassa um bilhão de dólares. Nenhum dos dois tinha mais talento que Neymar. Tinham, isso sim, a lucidez de perceber que o dom, sozinho, tem prazo de validade — e que esse prazo se antecipa a cada noite mal dormida, a cada recuperação incompleta, a cada escolha que privilegia o personagem em detrimento do atleta.
O Brasil, esse, tem o hábito antigo de produzir gênios e desperdiçá-los com a mesma naturalidade com que os produz. Ronaldinho Gaúcho foi o melhor do mundo antes dos vinte e cinco anos e encerrou o auge praticamente antes dos trinta. Adriano Imperador teve o corpo mais completo de sua geração e viu o álcool e a tristeza o levarem embora do topo antes da maturidade plena. Não é maldição, é padrão — e padrão, ao contrário do azar, pode ser corrigido, desde que se tenha a coragem de nomeá-lo sem condescendência e sem crueldade.
Não escrevo isto para julgar o homem. Escrevo para lembrar o país de uma verdade simples e por isso mesmo esquecida: o corpo não negocia com a fama, a fisiologia não negocia com a genialidade e o talento não é conta bancária que se enche sozinha — é conta que se administra, dia após dia, decisão após decisão. Neymar teve, nas pernas, o mesmo dom de Messi e de Cristiano Ronaldo. O que não teve, na mesma medida, foi quem lhe dissesse a tempo que a madrugada custa mais do que parece, e que há mesas, na vida de um atleta, em que é preciso simplesmente não sentar.
Fica a pergunta, então, para o próximo garoto que despontar num campo de terra esburacado, no asfalto, numa quadra de bairro, num projeto social esquecido do interior: quando ele chegar ao topo, terá ao redor quem lhe diga a verdade a tempo? Ou será, como tantos antes dele, cercado apenas de aplauso, do que o futebol pode proporcionar, até o dia em que o corpo, cansado de esperar, apresentar sozinho a conta. E no caso do nosso último gênio do futebol, ela veio salgada.
A César o que é de César. Ao corpo, o que é do corpo. A fisiologia, o que é da fisiologia. E ao Brasil, se ainda quiser aprender, a humildade de olhar para essa história sem precisar escolher entre idolatrar ou condenar — apenas compreender.
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