Pelé, Garrincha e Ronaldo Fenômeno, vitoriosos em contraste com Neymar e Vini Jr, eliminados
Copa do Mundo

A Arte de Ludibriar o Adversário — e a Arte, Ainda Maior, de o Brasil Ludibriar a Si Mesmo

22/07/2026 7 views 5 min de leitura
Pelé, Garrincha e Ronaldo Fenômeno, vitoriosos em contraste com Neymar e Vini Jr, eliminados
A arte de ludibriar o adversário

Por Marcelo Mesquita, 22/07/2026

Futebol, dizem os que entendem, é a arte de ludibriar o adversário. Bela definição, precisa, quase teológica na sua economia de palavras. O problema é que o Brasil, nos últimos anos, descobriu uma variante ainda mais sofisticada da mesma arte: a de ludibriar a si mesmo. Convenceu-se de que ainda é o país do drible, quando já não sabe mais nem driblar direito. Convenceu-se de que despreza a tática europeia por excesso de alma, quando na verdade nunca teve estrutura para copiá-la com competência. Ludibriar o adversário é arte. Ludibriar-se sozinho, torcendo para que a mentira vire saudade e a saudade vire desculpa, é apenas uma forma elaborada de autoengano nacional — e o Brasil, nisso, tornou-se mestre incontestável.

Houve um tempo — e não finjamos que foi há tanto assim — em que o drible brasileiro era, de fato, arma de guerra. Pelé desmontava defesas com um giro de cintura antes que o zagueiro terminasse de pensar. Garrincha levava a bola para a direita, todo mundo sabia, e mesmo assim ninguém conseguia impedir — porque genialidade, quando é genialidade de verdade, não precisa de surpresa, precisa apenas de execução impossível de replicar. Rivelino inventou o elástico com a cara-de-pau de quem desafia a própria biomecânica humana. Isso era ludíbrio no seu estado mais puro: engano como poesia, poesia como resultado.

A Europa, enquanto isso, foi aprendendo outra forma da mesma arte. Cruyff e Michels descobriram que o espaço, bem ocupado, engana tanto quanto qualquer perna de pau finalizando embaixo da bola. A pressão coletiva virou drible sem toque. O posicionamento virou blefe sem cara de pôquer. E o mundo, enquanto o Brasil ainda ria da própria genialidade, foi transformando inteligência coletiva em arma tão letal quanto qualquer indivíduo talentoso. Hoje, essa escola tem nome, tem endereço e tem taça: chama-se Espanha, e acabou de provar, numa final decidida na prorrogação, que sistema bem treinado também sabe ludibriar — só que ludibria em coro, não em solo.

E é aqui que a ferida precisa ser cutucada sem anestesia, porque anestesia é exatamente o que o futebol brasileiro andou tomando enquanto o mundo evoluía. Messi é a prova viva de que a escolha entre drible e tática é um dilema para gente preguiçosa demais para resolver os dois problemas ao mesmo tempo. Raiz sul-americana, formação europeia, síntese perfeita: aprendeu, na Masia, quando driblar e, sobretudo, quando não driblar — porque às vezes o maior drible é um passe, e às vezes o movimento sem bola engana mais adversário do que dez fintas seguidas. O Brasil, que inventou o drible como identidade, não conseguiu ensinar ao próprio jogador a segunda metade dessa sabedoria: a de saber quando guardar o talento no bolso e confiar no companheiro.

Porque o que aconteceu ao futebol brasileiro nos últimos anos não foi apenas perda de identidade — foi pior, foi uma imitação malfeita de identidade alheia. Copiamos formação europeia sem adaptar à própria cultura, e o resultado foi a pior combinação possível: perdemos espontaneidade sem ganhar organização nenhuma em troca. Não sobrou nem o caos genial de antigamente, nem a doutrina sólida de agora. Sobrou um meio-termo burocrático, gerido por dirigentes que trocam de técnico com a mesma pressa com que trocam de discurso em reunião de balanço, sem nunca perguntar a si mesmos se o problema é o técnico ou a ausência completa de um projeto que sobreviva a ele.

Há, ainda assim, uma luz — e é bom que se diga, porque cutucar ferida não significa negar cicatrização possível. Vinícius Júnior é, hoje, o retrato mais próximo que o Brasil tem dessa síntese que Messi representou para a Argentina: decide tanto pela explosão individual quanto pela maturidade tática que só o futebol europeu, ironicamente, conseguiu lhe ensinar. Ele é a prova de que o talento brasileiro, quando exposto ao ambiente certo, ainda floresce sem perder a raiz. A pergunta que fica, e que nenhum dirigente parece disposto a responder, é: por que precisamos exportar o menino para a Europa para que ele aprenda o que a própria CBF deveria ensinar em casa?

Porque, convenhamos, o drible nunca foi o problema. O problema é achar que só ele resolve, quando o mundo já mostrou, com taça erguida bem diante dos nossos olhos, que ludibriar sozinho é truque de rua — bonito, aplaudido, mas insuficiente contra quem aprendeu a ludibriar em equipe. Talento sem sistema é fogo de artifício: ilumina o céu por três segundos e depois escurece de novo, deixando a torcida na mesma penumbra de sempre.

Fica, então, o convite — e que ele chegue, nem que seja por acidente, à mesa de algum dirigente entediado numa reunião de metas sem sentido: parem de escolher entre alma e método, porque essa escolha nunca existiu de verdade. Escolham, isso sim, deixar de ludibriar a si mesmos com a fantasia confortável de que um dia isso vai se resolver sozinho, porque “o Brasil é o país do futebol”. Não é, já não é, faz tempo que não é — a não ser que se decida, com coragem e sem mais discurso vazio, voltar a ser.

O adversário, esse, sempre vai continuar aceitando ser ludibriado. A dúvida, cada vez mais urgente, é se o Brasil ainda tem a humildade de parar de ludibriar-se primeiro.

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas

Gerar Post/Story

Arraste elementos para posicionar • Segure Shift + arraste para mover o fundo
Texto
Tamanho
Cor
Imagem
Zoom
Escurecer
Cor
Categoria
Fundo
Texto
Logo
Tamanho
Legenda