Uma manifestação contra a comunidade acadêmica gerou forte reação de entidades profissionais e educacionais no Acre. O Sindicato dos Médicos do Estado do Acre (Sindmed-AC) veio a público exigir providências legais contra João Paulo Bittar, dirigente regional do Partido Liberal (PL) e filho do senador Márcio Bittar, após o político desferir ataques verbais a discentes da Universidade Federal do Acre (Ufac).
Sindmed cobra retratação e acionamento da Justiça
O episódio que motivou a manifestação ocorreu durante um evento eleitoral em Rio Branco. Na ocasião, o representante partidário disparou contra a instituição de ensino: “Pessoal da Ufac, vocês são tudo um bando de vagabundo”.
Em resposta veiculada no sábado (17), a diretoria do Sindmed-AC classificou o comportamento como degradante e enfatizou os danos causados à imagem da ciência e do ensino superior no país. A representação médica destacou que a ofensa transborda os limites do campus e atinge profissionais formados em todo o território nacional.
“É lamentável que um ex-candidato a deputado federal, derrotado nas eleições deste ano e que almeja se promover como político, tenha utilizado como pauta a generalização e o desmerecimento da vida acadêmica e científica”, declarou o sindicato em comunicado.
A entidade ressaltou que a produção científica é um pilar estruturante para o avanço da sociedade: “O peso da afirmação deve causar revolta a toda a sociedade, atacada no maior elemento garantidor do crescimento da nação: o progresso por meio do conhecimento científico, educacional, socioeconômico e em saúde”.
Passagem por instituição pública é lembrada
O sindicato dos médicos também relembrou a atuação anterior de João na Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac) para pontuar a incoerência das declarações: “João Paulo Bittar, que já atuou na Fundação de Tecnologia do Estado do Acre, parece demonstrar profundo desrespeito pelo órgão público onde esteve lotado – uma instituição científica de destaque, integrada por especialistas formados em universidades públicas e privadas”.
Com base nisso, os médicos exigiram uma postura imediata do político e atuação dos órgãos competentes: “Diante da gravidade da declaração, os representantes do Sindmed-AC reivindicam um pedido público de desculpas, além de uma apuração formal por parte das autoridades para a devida responsabilização pelo ato.”
Pronunciamento em vídeo mantém ofensas a grupos estudantis
Logo após o posicionamento das entidades, João Paulo Bittar gravou uma nova mensagem em vídeo. Ele admitiu que sua fala soou generalista, mas restringiu seu pedido de desculpas a um segmento específico da comunidade universitária.
“Gravei um vídeo chamando alunos de vagabundos e sei que isso pode ter soado como uma generalização. Por isso, peço desculpas aos professores e alunos sérios, especialmente aqui na UFAC, que acordam cedo, estudam e trabalham com honestidade. Vocês não são o alvo da minha crítica”, justificou.
Entretanto, o líder político reiterou as hostilidades contra ativistas do meio universitário, alegando que sua intenção original era fazer um protesto direcionado. “Esse vídeo é uma denúncia aos grupos de militantes vagabundos instalados dentro das universidades federais em todo o Brasil”, afirmou, acrescentando que seu foco são “militantes que se organizam para a violência”.
Comunidade acadêmica articula resposta conjunta
A reação do sindicato médico somou-se a uma onda de manifestações iniciada pelo próprio meio universitário. Previamente, a administração da Ufac, em conjunto com a Associação de Docentes da Ufac (Adufac), a Seção Sindical do Andes/SN, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Terceiro Grau do Acre (Sintest-AC) e o Diretório Central dos Estudantes (DCE), já havia rechaçado as agressões verbais, adjetivadas como “inaceitável, mentirosa e ofensiva”.
Em nota unificada, os coletivos acadêmicos defenderam o papel da universidade pública: “A Ufac não é um lugar de vagabundagem. É lugar de aula, de pesquisa, de extensão. É lugar de quem trabalha e estuda para construir o Acre”. Entidades ligadas ao Instituto Federal do Acre (Ifac), como o Sinasefe/Acre e o DCE daquela autarquia, igualmente emitiram mensagens de solidariedade.
O caso ganhou novos contornos políticos após o senador Márcio Bittar divulgar uma gravação em que usou a expressão “meliantes da universidade” para se referir a manifestantes que queimaram um boneco com a figura de Flávio Bolsonaro durante um protesto recente.
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