O assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, ocorrido em 22 de dezembro de 1988 em Xapuri, no interior do Acre, teve seu desfecho judicial dois anos depois, em um júri que reuniu trabalhadores rurais, sindicalistas, lideranças políticas, movimentos sociais, familiares e uma presença massiva da imprensa nacional e internacional. Durante quatro dias, a pequena cidade acreana concentrou as atenções do país em torno do processo.
O clima que antecedeu o julgamento foi de tensão. Testemunhas desistiram de participar, algumas por receio e outras por força de ameaças feitas pelos próprios réus. O drama parecia não ter fim até a abertura dos trabalhos no Tribunal do Júri de Xapuri.
À época, o então líder sindical (atual presidente do Brasil) Luiz Inácio Lula da Silva acompanhou o caso e defendeu a punição dos responsáveis. “Nós não queremos que o julgamento do Chico Mendes, dos assassinos do Chico Mendes, seja um julgamento privilegiado. Queremos que ele seja um exemplo de como devem ser todos os julgamentos daqueles que assassinam no campo e permanecem impunes”, afirmou. Para ele, a condenação deveria servir de lição para as autoridades brasileiras e impulsionar uma política de reforma agrária e a proteção das reservas extrativistas.
Uma das peças centrais do processo foi o depoimento de Genésio Ferreira da Silva, apontado como testemunha de acusação. Empregado na fazenda de Darly Alves da Silva, ele confirmou que o fazendeiro foi o mandante do crime. Genésio relatou que decidiu depor contra os ex-patrões ainda quando estava preso, quando chamou o delegado para confessar tudo. Questionado sobre ameaças, respondeu que os antigos patrões chegaram a intimidá-lo, “falando que se algum dia eu contasse alguns fatos deles, eles me matariam”.
Dentro do fórum, Darly tentou provar inocência, mas as evidências apontaram no sentido contrário. Segundo a acusação, Genésio havia sido testemunha de reuniões secretas do fazendeiro com membros da União Democrática Ruralista (UDR), organização que defendia os interesses de fazendeiros na região.
A defesa dos réus ficou a cargo do advogado Pedro Marialva, enquanto o promotor público Elizeu Buchmeier atuou pela acusação. O criminalista Márcio Thomaz Bastos também integrou o caso como advogado assistente da acusação.
Em 15 de dezembro de 1990, o juiz Adair José Longuini proferiu a sentença. O fazendeiro Darly Alves da Silva, apontado como mandante, e seu filho Darci Alves Pereira, executor do crime, foram condenados a 19 anos de prisão cada. Na leitura da sentença, o magistrado fixou a pena definitiva sem circunstâncias que a aumentassem ou diminuíssem para além do reconhecido em favor dos acusados.
Chico Mendes foi morto com um tiro de escopeta no peito quando saía para tomar banho nos fundos de sua casa, em Xapuri. Uma semana antes, o líder seringueiro havia completado 44 anos. Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, ele era reconhecido internacionalmente por sua luta em defesa dos povos da floresta e do meio ambiente, e fundou a primeira reserva extrativista do país.
As imagens que embasam esta reportagem são do vídeo da Rede TVT – “Chico Mendes: o Julgamento”.
Fonte: ac24horas.com
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