Jogador do Vasco é investigado
Copa do Brasil

O Gesto Que Não Era Comemoração: Que País Estamos Ensaiando Para os Nossos Filhos

04/09/2026 9 views 5 min de leitura
Jogador do Vasco é investigado
Jogador do Vasco é investigado

Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte

Por Marcelo Mesquita, 04/09/2026

Há textos que se escrevem com prazer, e há textos que se escrevem por dever — este pertence à segunda categoria, e peço ao leitor que me acompanhe sem esperar, desta vez, a picardia costumeira desta coluna. Antes de qualquer palavra minha, faço questão de dar o crédito que a informação exige: a charge que circulou pela internet, com o Vitória representado por uma caveira fugindo de foice em punho, traz marca d’água do perfil Vasco Zoeiro, autor da montagem. E os detalhes mais graves do caso — as mensagens, os diálogos, a reconstrução da investigação — vêm de matéria assinada pela colega jornalista Andressa Antunes, publicada no g1 Espírito Santo. Registro os créditos porque informação séria se constrói citando quem a apurou, não escondendo a fonte atrás de anonimato conveniente.

Dito isso, meu caro leitor, vamos ao que interessa — e o que interessa, desta vez, não é resultado de jogo nenhum.

O atacante David Corrêa, o “DVD”, do Vasco, é hoje alvo de investigação por suspeita de financiar tráfico de drogas e armas no Espírito Santo, com mensagens atribuídas a ele em que comemora, por escrito, uma tentativa de homicídio contra uma vítima real — “ele mereceu tomar uns tiros mesmo” — e reage à foto de uma pistola com “tem que matar um pra ver de qual é”. Dias depois de tornar-se alvo de mandado de busca e apreensão, ele entrou em campo, decidiu classificação de Copa do Brasil contra o próprio Vitória, clube que o revelou, e foi recebido pela torcida vascaína com coro entoando seu apelido. Em resposta, fez, com as mãos, o gesto de quem está atirando, apontado para a arquibancada que o aplaudia. Consta que parte da torcida já vinha, havia dias, cantando versos que flertavam perigosamente com o teor do que se apurava — apologia disfarçada de brincadeira, hino disfarçado de provocação. Não sei precisar cada palavra dessa canção com o rigor que gostaria; sei, com certeza documentada, que o gesto aconteceu, que foi filmado, que viralizou, e que aconteceu depois — não antes — de a gravidade do caso já ser pública.

E é aqui, leitor, que a coluna de hoje deixa de ser sobre futebol e passa a ser sobre nós.

Porque a pergunta que me corrói, escrevendo estas linhas, não é sobre a culpa ou inocência de David Corrêa — isso cabe à Justiça, com toda a presunção de inocência que qualquer cidadão merece até prova em contrário, princípio que não abro mão de defender nem no calor da indignação. A pergunta que me corrói é outra, mais funda, mais incômoda: que sociedade estamos ensaiando, hoje, nas arquibancadas, para os nossos filhos daqui a dez anos? Porque uma criança de oito anos que estava naquele estádio, ou que viu o vídeo circular no celular do pai, do irmão mais velho, do primo, aprendeu uma lição que nenhuma escola vai conseguir desensinar com facilidade: que gesto de arma, feito por homem investigado por financiar violência de verdade, pode virar motivo de festa coletiva, desde que o time tenha vencido.

Essa é a banalização mais perigosa de todas — não a que acontece escondida, na sombra, mas a que acontece em praça pública, sob aplauso, transformada em pertencimento tribal. Porque quando o filho pergunta ao pai por que a torcida estava tão feliz com aquele gesto, e o pai não sabe — ou pior, não quer — explicar com honestidade a gravidade do que estava por trás daquela cena, alguma coisa se rompe silenciosamente na educação moral de uma geração inteira. Não é exagero de cronista assustado. É observação de quem já viu, ao longo de décadas, como o futebol funciona como espelho ampliado da sociedade que o cerca — e o espelho, dessa vez, devolveu uma imagem que deveria envergonhar qualquer um de nós, não entreter.

Não escrevo isto para condenar o torcedor comum, que muitas vezes canta sem saber exatamente o que está cantando, levado pela emoção coletiva do momento — emoção que o futebol sempre soube provocar, para o bem e, infelizmente, também para o mal. Escrevo para nomear o mecanismo: quando a alegria de vencer passa a justificar qualquer gesto, qualquer letra, qualquer comemoração, mesmo às custas de naturalizar linguagem de extermínio, estamos ensinando às próximas gerações que resultado esportivo compra perdão moral. E resultado esportivo, meus caros, nunca deveria comprar perdão nenhum — muito menos perdão para algo que ainda está sob investigação de tentativa de homicídio e financiamento de organização criminosa.

Que fique registrado, então, não como sentença — que não me cabe — mas como advertência que talvez ainda tenhamos tempo de ouvir: o limite ético de uma torcida não deveria ser definido pelo placar do jogo. Se não aprendermos isso agora, com a gravidade que o caso exige, a pergunta que farei daqui a dez anos não será mais sobre times, escudos ou taças. Será sobre que tipo de adulto formamos, torcendo, cantando e aplaudindo, enquanto fingíamos que era só futebol.

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