Farmar Aura no futebol brasileiro
Esporte

Farmar Aura: A Construção de Imagem da Cartolagem

07/08/2026 1 views 5 min de leitura

Como os Interesses Secundários Degradam o Futebol Nacional

Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte

Por Marcelo Mesquita, 07/08/2026

Há uma expressão nova circulando entre os adolescentes — “farmar aura” — que eu, homem de mais de cinquenta anos, só vim a conhecer outro dia, com o espanto de quem descobre que o mundo criou um idioma novo sem lhe mandar convite. Farmar aura, explicaram-me, é cultivar imagem, carisma, respeito, presença — tudo aquilo que antigamente se chamava, com menos pudor, de “fama”. E o mais curioso, meus amigos, é que essa palavra, nascida no TikTok, nascida para descrever adolescente de óculos escuros à meia-noite fingindo mistério numa esquina, serve — com precisão quase cirúrgica — para descrever o futebol brasileiro inteiro. Não apenas os jogadores. Sobretudo os dirigentes.

Porque houve um tempo, e não finjamos que foi há tanto assim, em que a aura se farmava do único jeito honesto que existe: jogando. Pelé não precisava anunciar que era o Rei — o mundo anunciava por ele, a cada domingo, a cada jogada genial, a cada gol impossível. Garrincha não gravava vídeo nenhum para provar espontaneidade; a espontaneidade escapava dele mesmo quando ele tentava escondê-la. Zico não precisava de bastidor editado — o talento dele era o próprio bastidor, exposto sem filtro, sob o sol de qualquer gramado, notadamente, o Maracanã, do qual é artilheiro máximo. A aura, naquele tempo, era subproduto do mérito. Hoje, virou produto principal, e o mérito, esse, virou o subproduto — quando aparece.

E se essa inversão já seria grave num jogador de dezoito anos ainda formando o próprio caráter, imaginem a gravidade multiplicada quando ela se instala no gabinete de quem deveria zelar pelo projeto esportivo de um país inteiro. Porque o jogador que farma aura em vez de gol, no limite, prejudica a própria carreira — é ele quem paga o preço, é o corpo dele que envelhece mal, é o nome dele que a história vai cobrar depois. Mas o dirigente que farma aura em vez de competência prejudica outra coisa, muito maior e muito mais alheia a ele: prejudica todos nós, que só temos essa seleção, esse escudo, essa esperança renovada a cada quatro anos — e nenhuma outra.

Quantos presidentes de federação, pergunto eu, com a insolência que a ocasião exige, passam mais tempo diante da câmera do que diante da planilha de metas reais? Quantos executivos do nosso futebol viraram personagem maior que o próprio clube, protagonizando treta de rede social com o mesmo entusiasmo com que deveriam protagonizar planejamento de base? Antigamente, dirigente aparecia na imprensa porque o time tinha conquistado alguma coisa. Hoje, ele aparece independentemente disso — porque a exposição, descobriram eles, virou ativo próprio, moeda que circula sozinha, sem precisar mais do lastro antigo, chato, difícil de produzir, chamado resultado.

Segue-se a mesma lógica da trajetória de Carlos Kaiser, contudo sem a veia cômica que o redimia. O homem que colecionava contratos sem nunca atuar profissionalmente tinha, pelo menos, a hombridade de agir por conta própria. Ele colocou em risco apenas a própria carreira — e a própria vida —, como no episódio em que Castor de Andrade, patrono do Bangu e figura do jogo do bicho, armado, historicamente cobrou sua entrada em campo. O dirigente que farma aura administrando a própria popularidade em vez de administrar departamento de futebol arrisca, no lugar do corpo dele, o corpo inteiro da instituição — e ainda tem a ousadia de sorrir para a câmera enquanto o time cai nas oitavas, como se o sorriso, sozinho, bastasse para segurar o cargo.

Porque aqui está o núcleo mais desconfortável de toda essa reflexão, e convido o leitor a sentar-se antes de lê-la: o algoritmo recompensa quem gera engajamento, mas o campeonato, esse teimoso, ainda insiste em premiar outra coisa completamente diferente — competência. E é justamente nessa fresta, nesse desencontro de critérios, que o Brasil vem tropeçando repetidamente: confundimos visibilidade com liderança, confundimos alcance de seguidor com capacidade de gestão, confundimos aplauso de comentário com resultado dentro de campo. Um dirigente pode farmar aura durante uma gestão inteira, entrevista após entrevista, podcast após podcast, e mesmo assim entregar, ao final do mandato, exatamente o mesmo vazio de sempre — só que mais bem filmado.

Fica, então, a provocação que interessa de verdade — e que faço questão de dirigir não ao adolescente do TikTok, que ainda está aprendendo a viver, mas ao homem de terno que já deveria saber: será que alguns dos nossos dirigentes administram, de fato, clubes de futebol e federações — ou administram, apenas, a própria imagem, usando o cargo como palco e o escudo como adereço de cenário? Porque há uma pergunta que nenhum algoritmo do mundo consegue responder, e que só o placar, implacável e surdo a qualquer engajamento, tem autoridade para julgar: quem, entre eles, está de fato jogando para vencer — e quem está apenas jogando para continuar parecendo importante enquanto o campeonato de verdade, esse que não aceita curtida como gol, segue sendo perdido, ano após ano, diante dos nossos olhos cada vez mais cansados de aplaudir aparência.

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