
“O que tem de ser tem muita força, tem uma força enorme”, Guimarães Rosa
Para enriquecer esta reflexão e ilustrar essa força que move o mundo, olho diariamente para mulheres que me inspiram e que deixo como sugestão para leitura, pesquisa científica e profunda meditação.
O legado contra a miséria, o preconceito e a doença
Na trincheira contra a privação da liberdade e o preconceito humano, erguem-se gigantes como Harriet Tubman, que liderou centenas de escravizados rumo à libertação, e Rosa Parks, a costureira cujo ato de resistência no banco de um ônibus acendeu um dos maiores movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos. No Brasil, essa mesma seiva corre nas veias da história por meio de Dandara dos Palmares e Maria da Penha, símbolos de resistência contra o racismo estrutural e a violência de gênero. No combate à miséria e ao desamparo, Irmã Dulce dedicou sua vida inteira a construir redes de assistência onde o Estado falhava, alimentando não apenas corpos, mas também a esperança por meio de ações de solidariedade.
Contra a ignorância, a luta pelo acesso à educação formal permanece como uma das grandes bandeiras das mulheres. Desde Nísia Floresta, pioneira do feminismo e da defesa da educação feminina no Brasil do século XIX, até Malala Yousafzai, que arriscou a própria vida pelo direito das meninas de frequentarem a escola, o progresso intelectual da humanidade deve muito a elas.
Na saúde e na ciência, as mulheres revolucionaram o cuidado e a cura. Florence Nightingale estruturou as bases da enfermagem moderna; Marie Curie rompeu barreiras acadêmicas e revolucionou a física e a química com seus estudos sobre a radioatividade; e a médica brasileira Nise da Silveira transformou o tratamento psiquiátrico, humanizando o cuidado com os pacientes.
Mais recentemente, a ciência nacional voltou a despertar atenção com as pesquisas sobre a polilaminina, substância estudada por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob a liderança da professora Tatiana Coelho de Sampaio, em parceria com o laboratório Cristália, por seu potencial na regeneração de tecidos.
São tantas referências que a grandiosidade de suas trajetórias não cabe em um só artigo.

A história dessas mulheres nos ensina que nenhuma conquista acontece isoladamente. Cada avanço abre caminhos, mas também nos lembra que a igualdade de direitos e de oportunidades exige continuidade, compromisso e coragem para enfrentar as barreiras que ainda persistem.
Da invisibilidade à escalada insana
Diante de tantas referências, este momento me convida a refletir sobre a importância da história que estamos escrevendo, com impactos diretos na vida de mais de um milhão de habitantes e de todos os seres que aqui habitam. Ao longo da minha trajetória, enfrentei muitosmedos. Entre eles, o medo daquela força oculta que tenta nos empurrar para o canto do ringue,obrigando-nos a lutar contra o improvável e contra a invisibilidade.
Em todos os ambientes, seja no seio familiar, no mercado de trabalho ou na vida profissional, sempre há uma brincadeira disfarçada, um comentário velado para nos diminuir: “Você não é capaz de fazer ou realizar”, “você é fraquinha”, “você não tem forças”. Dizem-nos que precisamos de muito mais do que um sonho no coração para vencer.
A minha própria jornada de superação, desde o ponto de partida até onde cheguei, certamente daria uma boa e intensa leitura para um fim de semana. Há de tudo um pouco: derrotas impostas pelo percurso da vida, preconceitos superados, lágrimas, sorrisos, família e amigos.
Mas o sonho mais esperado, a montanha mais íngreme de uma escalada insana, finalmente foi conquistado neste dia 25 de outubro de 2026. Esta vitória não é isolada. O sentimento que vivi ecoa em outros cantos do país, acompanhando trajetórias de mulheres que ocupam espaços de liderança, como Raquel Lyra, em Pernambuco, Celina Leão, no Distrito Federal, e, de forma muito especial, a trajetória da nossa governadora Mailza Assis, no Acre.
Por trás de cada mulher que ocupa um espaço de decisão, existe uma trajetória que nem sempre é conhecida por inteiro. Há renúncias, responsabilidades, desafios pessoais e a necessidade constante de demonstrar uma capacidade que, tantas vezes, é questionada antes mesmo que se tenha a oportunidade de agir.
O cenário acreano: avanços históricos e contrastes críticos
Aqui no Acre, vivemos um momento profundamente histórico. Ocupamos espaços de destaque na governança do Estado, na vice-governança, no Senado Federal e na Câmara dos Deputados.
No entanto, a realidade nos impõe um contraste crítico e um alerta urgente: a Assembleia Legislativa do Acre não elegeu nenhuma deputada para a próxima legislatura. A ausência de representatividade feminina no parlamento estadual nos lembra que os espaços de poder ainda são de difícil acesso para as mulheres e exigem uma luta constante.
No decorrer desta campanha, vivemos na pele a rejeição, o descrédito e a dor. Sentimos a dor da mulher que é mãe, da dona de casa, da mulher cristã e da profissional resiliente. Uma mulher que resistiu bravamente às imposições e aos ataques dos adversários, até o momento em que a dignidade exigiu libertar o brado mais marcante do debate eleitoral televisivo no Acre, em 29 de setembro: “Exijo respeito com a minha profissão!”. Essa expressão não foi apenas uma exigência protocolar. Foi um clamor vindo do fundo da nossa alma para que nos permitam seguir nossa caminhada de sonhos, vontades e liberdade, para sermos exatamente quem desejarmos ser.
Respeitar uma mulher é reconhecer sua história, sua formação, sua competência e seu direito de exercer a profissão com dignidade. Nenhuma divergência deve justificar a desqualificação pessoal, assim como nenhum debate deveria perder de vista o respeito que sustenta a convivência democrática.
Nós somos perfeitamente capazes de nascer, florescer e gerar frutos para a continuidade da vida. Somos agentes da transformação da sociedade, da revolução econômica, social e histórica.
O que construímos hoje não são apenas mandatos ou vitórias eleitorais; são legados, exemplos e caminhos abertos para as gerações que virão depois de nós.
Que este momento também nos convide a refletir sobre as mulheres que ainda não conseguiram chegar a esses espaços, não por falta de capacidade ou preparo, mas porque as oportunidades nem sempre são distribuídas de maneira igualitária. Ampliar a representatividade significa permitir que mais histórias, experiências e perspectivas participem das decisões que afetam a sociedade.
A força do que tem de ser já começou.
Francinete Barros
Diretora em Saúde, SESACRE
Pós-graduada em Saúde e Segurança no Trabalho
Gestão por Competência
Especialista em Acolhimento e Humanização Hospitalar
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