Oito anos após a morte de Maria Cauane durante uma operação policial no bairro Preventório, em Rio Branco, a família continua buscando justiça. Nesta semana, o Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) analisou um recurso sobre os pedidos de indenização de duas vítimas da mesma ação. A defesa de Raimundo Juan Lacerda, que ficou paraplégico, e de Francisco Victor, atingido por um disparo de fuzil, informou que recorrerá da decisão aos tribunais superiores.
A operação aconteceu no início da noite de 14 de maio de 2018, quando policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) cumpriam uma ação para prender um dos líderes de uma organização criminosa. Entre as vítimas estava Maria Cauane, que morreu após ser atingida por um disparo durante a operação.

O caso voltou ao centro das discussões entre os dias 4 e 8 de dezembro de 2024, quando foi levado ao Tribunal do Júri. Durante o julgamento, acusação e defesa apresentaram versões diferentes sobre a atuação dos policiais. Enquanto os advogados dos militares questionaram a investigação e as perícias, o Ministério Público sustentou que houve abuso na atuação da equipe e pediu a responsabilização dos envolvidos.
Mesmo com o encerramento da ação criminal, familiares e sobreviventes mantiveram os pedidos de reparação na esfera cível. Segundo o advogado das vítimas, a decisão mais recente fixou indenizações para dois sobreviventes, mas os valores serão questionados.
O advogado Wallisson dos Reis informou que a decisão reconheceu a responsabilidade do Estado, mas afirmou que a defesa considera as indenizações insuficientes.
“Hoje, os desembargadores decidiram fixar R$ 40 mil de indenização por danos morais e também danos estéticos para a vítima que ficou com sequela permanente, totalizando R$ 80 mil. Para a outra vítima, foi fixada indenização de R$ 30 mil. Nós respeitamos a decisão, porém levaremos o caso até Brasília.”
Segundo ele, outros processos relacionados à mesma operação continuam em andamento e novas medidas judiciais serão adotadas.
“Nós já estamos com três processos correndo na Justiça. Iremos ingressar com outras ações contra o Estado do Acre. O ponto principal é que hoje os desembargadores reconheceram que há responsabilidade do Estado, que o Estado tem que ser responsabilizado, conforme entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal.”

A mãe de Maria Cauane, Marlene Araújo, afirmou que continua esperando a responsabilização dos envolvidos e relembrou as circunstâncias da morte da filha.
“O que eu espero é que tenha justiça, que essa morte da minha filha não fique impune. Porque ela era só uma criança, ela não merecia ter morrido dessa forma. Da forma que os policiais entraram lá e mataram ela, ela não merecia”.

Ela também criticou a conduta dos policiais durante a operação e afirmou que a função da equipe era preservar vidas.
“É um sentimento de tristeza, porque ele estaria ali também para proteger a vida da minha filha. Como o advogado deles falou, ele estava ali para proteger pessoas que ele nem conhecia. Se eles são policiais, têm que proteger qualquer pessoa, qualquer ser humano. Eles trabalham para o Estado, então poderiam proteger a vida da minha filha. Não era para chegar atirando. O policial que matou a minha filha disse que só do fuzil dele saíram 12 tiros. Agora, imagine, num barranco daquele, ter 12 tiros de fuzil disparados por um policial. Imagine pelos outros”.
Marlene disse que a dor da perda permanece e espera que o caso sirva para evitar que outras famílias passem pela mesma situação.
“Aqueles policiais que estavam naquele dia não têm coração, porque viram o nosso sofrimento e nos humilharam. Por isso eu peço justiça. Eu peço que isso não fique impune, porque eu não quero ver outra família, outra mãe passando pelo que eu estou passando”.

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