
Crônica de um carioca apaixonado por futebol e indignado com a Seleção Brasileira
Por Marcelo Mesquita, 20/07/2026
A Espanha ganhou a Copa do Mundo de um jeito quase ofensivo: sendo ela mesma. Não inventou nada de última hora, não contratou personalidade emprestada, não terceirizou a própria alma para um consultor estrangeiro. Foi à final, sofreu noventa minutos inteiros, contra uma Argentina que se escondeu atrás do próprio escudo, e resolveu na prorrogação, com um gol de Ferran Torres, do jeito mais espanhol possível: sem pressa, sem drama, com a convicção tranquila de quem já sabia, antes de a bola rolar, exatamente quem era. Um a zero. Modesto no placar, indecente na coerência. Porque há vitórias que envergonham o adversário pelo escore, e há vitórias, mais raras e mais devastadoras, que envergonham o adversário pela clareza do projeto. Esta foi da segunda espécie — e o Brasil, infelizmente, tem estado do lado errado dessa comparação com uma regularidade que já deixou de ser coincidência para virar diagnóstico.
Porque a Espanha nem precisou de um Lamine Yamal, não venceu com um craque emprestado por um dia de inspiração. Venceu com um sistema tão coerente que o jogador que sobe da base já sabe, antes de vestir a camisa principal, exatamente que time vai encontrar. Não há surpresa, não há adaptação, não há aquele período de luto tático que costuma acometer o jogador brasileiro quando troca de seleção para clube ou de técnico para técnico, tentando adivinhar, a cada convocação, qual Brasil vai encontrar dessa vez. Um se ergue sobre uma ideia. O outro se ergue sobre a esperança de que alguém, lá na frente, tenha uma ideia.
E aqui, meus amigos, é que a ironia se torna quase insuportável de tão precisa: o Brasil nem sempre teve doutrina, é verdade — mas tinha, ao menos, uma anarquia própria, orgulhosamente sua, cultivada em campo de terra, em bola de meia, em pé descalço que driblava por instinto porque não tinha professor para atrapalhar. Era um caos, sim, mas um caos autoral, um caos com sotaque, um caos que o mundo inteiro reconhecia de longe e chamava de jogo bonito. Pois bem: perdemos até isso. Não é mais o caos genial de outrora. É um caos burocrático, administrado por dirigentes que trocam de técnico com a mesma pressa com que trocam de terno para reunião de balanço, e que, nove dias depois de o time cair diante da Noruega, reuniram-se todos em uma confortável sala na Barra da Tijuca, devidamente protegidos pelo ar-condicionado regulado em uma temperatura agradável, com a nobre missão de anunciar as metas para 2030 — enquanto, do lado de fora, uma crise política em torno da própria presidência da entidade disputava atenção com o planejamento esportivo, cada um puxando a manta para o seu lado. Não perdemos apenas a identidade artística. Perdemos até o direito de sermos aleatórios com estilo.
Vejam a delicadeza cruel do contraste: vinte e três dos vinte e seis convocados brasileiros para esta Copa vieram das próprias categorias de base da CBF. Isso deveria ser motivo de orgulho, e em qualquer outro país, como na Espanha e França, seria manchete de primeira página, prova de que a fábrica ainda funciona. Mas de que adianta fábrica que produz peça sem manual? Formamos o jogador, sim — formamos com fartura, com talento de sobra, com o mesmo dom antigo que sempre nos definiu — e depois o entregamos a uma seleção que muda de sistema a cada nova gestão, como se cada treinador precisasse reinventar a roda para justificar o próprio salário. A Espanha ensina o sistema à criança. O Brasil ensina o sistema ao adulto, às pressas, num período de preparação de poucas semanas antes da Copa, e ainda se surpreende quando o edifício racha na primeira pressão internacional.
Há algo de comovente, quase trágico no bom sentido, em observar como a Argentina — outra seleção que também não tem federação exemplar, também convive com desorganização interna — ainda assim conseguiu, sob um único técnico desde 2018, construir aquilo que o dinheiro sozinho nunca compra: um time que sabe o que é ser Argentina mesmo quando perde. E perdeu, veja bem, com dignidade suficiente para que ninguém, nem o espanhol mais orgulhoso, ousasse zombar da queda. Isso também é identidade: a capacidade de perder sendo fiel a si mesmo, em vez de se dissolver na primeira dificuldade.
O Brasil, esse, não tem mais nem a vitória gloriosa, nem a derrota digna. Tem apenas a intermitência de quem não sabe, de um ciclo para outro, se vai jogar bonito ou vai jogar feio, se vai ter meio-campo criativo ou vai sacrificar mais um armador na lateral só para facilitar a venda ao futebol europeu. É a pátria da indecisão crônica, vestida de camisa amarela, torcendo para que o talento individual resolva o que a falta de projeto coletivo jamais vai resolver.
E o mais irônico de tudo — detalhe que o jornalista José Trajano, a quem muito admiro, certamente sublinharia com aquele prazer quase perverso pelas contradições humanas — é que a Espanha de hoje foi, durante décadas, acusada exatamente do pecado que atribuíamos a nós mesmos com orgulho: o de jogar bonito demais, de encantar sem resolver, de ser “arte sem eficácia”. Pois bem: ela aprendeu a converter arte em eficácia sem trair a arte. Nós, que sempre fomos acusados do excesso oposto — eficácia sem alma —, conseguimos, através de puro desleixo institucional, perder as duas coisas ao mesmo tempo. Não temos mais a arte. E ainda não temos a eficácia. Ficamos exatamente no meio do caminho, que é, convenhamos, o único lugar onde nenhum torcedor deveria querer estar.
A Espanha foi campeã sendo Espanha. A Argentina perdeu sendo Argentina. E o Brasil, mais uma vez, caiu sendo apenas a promessa distraída daquilo que um dia, com muito mais talento do que juízo, soube ser.
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