Porco Sem Freio
Brasileirão

O Secador Que Não Funcionou

06/11/2026 5 views 6 min de leitura
Porco Sem Freio
Porco Sem Freio

Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte

Por Marcelo Mesquita, 06/11/2026

Meus amigos, a reta final de um campeonato brasileiro faz do torcedor uma criatura curiosíssima. Ele que passou o ano inteiro com a camisa do clube no peito e a dignidade no bolso, de repente, em novembro, vira químico, meteorologista, vidente e, sobretudo, secador. E o secador, vocês sabem, é aquele cidadão que, na quinta-feira à noite, enquanto o próprio time dorme, coloca a mão no coração, fecha os olhos e pede ao universo uma tragédia no quintal do vizinho.

Ontem tinha muito flamenguista secando o Palmeiras. Eu vi. Eu, que sou flamenguista de carteirinha, vi o time inteiro da arquibancada digital soprando para que o Remo, lanterna de bolso e morador do porão, fizesse a proeza de tirar ponto do Palmeiras na casa dele. Seria uma zebra estrondosa, meus caros, daquelas que o Nelson chamaria de “o óbvio ululante às avessas”. E o que eu pensei, com a clareza de quem já viu muita coisa? Palmeiras ganha com sobras. Dois a zero, sem susto, preservando jogador, poupando energia, pensando na Libertadores. Fui para a faculdade com a consciência tranquila.

Saí da facul, olhei o placar e vi: seis a um. Seis a um! Não fiquei surpreso, claro, mas fiquei com pena do secador. Coitado. Passou a noite inteira com o aparelho ligado na tomada, o cabo esticado, a esperança nas alturas, e quando foi ver, o cabelo continuava molhado.

Os fatos, que a ironia não dispensa: Arias abriu o placar aos três minutos, em jogada de roubo de bola no campo de ataque, e o mesmo Arias fez o segundo logo depois, sozinho, livre, com a calma de quem pede um café. Maurício bateu perto do ângulo, Marcelinho, tentando salvar, mandou contra a própria meta, e o VAR, que primeiro viu impedimento, depois viu o gol, como quem acorda e descobre que o sonho era real. No segundo tempo, Flaco López fez o quinto, Felipe Anderson fechou o seis a um. O Remo descontou com Zé Welison, de fora da área, num desvio de Gustavo Gómez nos acréscimos do primeiro tempo. Foi a maior goleada do Brasileirão deste ano, segundo a CNN, e o time que levou está em décimo nono lugar, na zona, com vinte e nove pontos.

Resultado: o Palmeiras tem setenta e três pontos, três atrás do Flamengo. O Palmeiras segue ali, na cola do líder, como sombra fiel. E o secador? O secador fica com a cara que o Nelson descreveria como “a de um cachorro que esperou o ônibus e viu o ônibus passar”.

Agora, os matemáticos, esses seres bem-aventurados, colocam o Flamengo sempre como favorito, e eu concordo com eles, por sentimento e por conta. Mas já disse ontem, e repito hoje, com a mão no peito: a maré está favorável ao Mengão Malvadão. E maré, meus caros, é coisa que vai e vem. Futebol, como dizia o pensador, é caixinha de surpresas, e a caixinha, quando abre, não pede licença. O favorito, no futebol, é apenas aquele que ainda não ganhou. O troféu só se conquista depois do apito.

Olhe o calendário. Vem aí a Data Fifa. Os dois clubes cedem jogadores às suas seleções, mas o Palmeiras cede mais, e ainda pode ter lesão de brinde (de novo os secadores de plantão). No retorno, no dia dezoito, o Palmeiras vai à Belo Horizonte enfrentar o Cruzeiro no Mineirão, uma pedreira, e, de quebra, joga nas três frentes: a final da Libertadores, a Copa do Brasil e o Brasileirão. O Fla, no mesmo dia, recebe o Athletico no Maraca. Uma só frente, uma só missão. O mar do Rio está para peixo. Mas quem confia no mar sem olhar o céu volta só com o anzol para casa.

E por falar em Copa do Brasil, uma palavra sobre o Vasco, que me comove. No primeiro jogo da semifinal, o Palmeiras venceu por um a zero, gol de Maurício, em jogo que teve uma arbitragem que merece comentário. O Daronco não viu um toque de mão do zagueiro Barbosa dentro da área, e o VAR, depois, reconheceu o erro. O Vasco ainda reclamou de outro pênalti no segundo tempo. E, para completar a equação, o zagueiro Saldivia foi expulso. O Vasco jogou o segundo tempo de uma noite difícil com um a menos e a sensação de ser castigado em dobro.

Aqui eu peço licença ao leitor, porque tenho um compromisso com a minha própria consciência. Sou flamenguista, e se eu fosse um sujeito polarizado, desses que perdem a sobriedade, faria piada com a derrota do Vasco. Não faço. Sempre vão ver, no topo dos meus textos: “um carioca amante do futebol arte”. E quando o futebol arte é maltratado, eu fico triste. A justiça, para mim, está acima do futebol e de muita coisa. Então digo sem rodeio: foi uma arbitragem ruim, com erro grave reconhecido, e o Vasco tem razão de reclamar. Cobro explicação da arbitragem e da CBF, que é o que se faz quando o apito erra. Acusar má-fé sem prova é outra conversa, e eu prefiro cobrar o erro a inventar o crime.

O Vasco, aliás, tem sido osso duro de roer. No jogo contra o Athletico pelo Brasileirão, jogando fora, saiu perdendo, teve pênalti a favor não marcado, e virou para três a um. É a assinatura de um time que não se entrega. Domingo, em São Januário, o Vasco precisa vencer o Palmeiras para ir à final da Copa do Brasil, esse torneio onde tantas vezes bateu na trave. Que dê à sua torcida a alegria que ela merece. E que, se perder, perca de pé.

Quanto a mim, vou continuar torcendo pelo Flamengo, olhando a tabela e guardando o secador numa gaveta. Aprendi, na marra, que secar o rival é como assoprar a vela de aniversário do vizinho: a festa continua, e o bolo fica melhor ainda.

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