Após quase dois anos de investigação sobre as denúncias envolvendo a morte de Joycilene Sousa de Araújo, conhecida como Joyce, a Polícia Civil do Acre (PCAC) concluiu um inquérito de mais de 3 mil páginas e indiciou Thiago Augusto Borges por quatro crimes. A apuração, no entanto, não encontrou elementos para estabelecer nexo de causalidade entre as condutas investigadas e a morte da mulher.
Thiago foi indiciado por perseguição, violência psicológica, estelionato e extorsão, todos no contexto de violência doméstica e familiar contra a mulher. A investigação foi conduzida pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), em Rio Branco.
Joyce morreu em 17 de novembro de 2024, aos 41 anos, após sofrer uma parada cardíaca em decorrência de uma tentativa de suicídio. Desde então, a família vinha cobrando esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte e defendendo que o caso fosse investigado como feminicídio.
Segundo a delegada Juliana De Angelis, responsável pela investigação, foram necessárias diligências minuciosas e complexas até a conclusão do procedimento.
“Depois de diversas diligências realizadas de forma minuciosa, diligências complexas também, que resultaram em um inquérito de mais de 3 mil páginas, foi finalizado o indiciamento do autor nos crimes de perseguição, que é o 147-A do Código Penal, a violência psicológica, o 147-B, o estelionato e a extorsão, e todos esses crimes no âmbito doméstico e familiar contra a mulher”, explicou.
Feminicídio descartado
Apesar dos quatro indiciamentos, a delegada explicou que a investigação não conseguiu estabelecer uma relação de causa entre as condutas atribuídas ao investigado e os crimes de feminicídio ou instigação ao suicídio.
“Dentro das investigações, não foi possível linkar o nexo de causalidade com os tipos penais de feminicídio e instigação de suicídio”, afirmou Juliana.
O delegado-geral da Polícia Civil, Pedro Paulo Buzolin, também explicou que a equipe reuniu elementos para os quatro indiciamentos, mas não conseguiu estabelecer esse vínculo com a morte.
“Elas constataram a prática de quatro crimes, porém não conseguimos realizar o nexo de causalidade entre essas condutas e o suicídio que ocorreu. Então, ele não foi indiciado pelo feminicídio”, disse.
Buzolin destacou ainda a dimensão da investigação conduzida pela Deam. Segundo ele, foram coletados diversos indícios e elementos ao longo do procedimento de mais de 3 mil páginas.
Investigação identificou casos semelhantes com outras mulheres
As diligências também levaram a Polícia Civil a identificar outras condutas atribuídas ao investigado envolvendo diferentes mulheres. Segundo a delegada Juliana, os casos apresentariam características semelhantes às encontradas na investigação de Joyce.
“Foi possível identificar que ele já tinha outras condutas criminosas com outras vítimas, num contexto e modus operandi bastante similar, em que ele exigia vantagem econômica e financeira dessas vítimas, em que ele iniciava um relacionamento e, durante esses encontros, esses relacionamentos, ele exigia essas vantagens”, afirmou.
Ainda conforme a delegada, foi identificada a existência de medida protetiva relacionada a outra vítima em outro estado.
Buzolin também afirmou que havia registros semelhantes em outros estados. “Ele praticava de forma contumaz esse crime, possuía outros estados com condutas muito parecidas com o que praticou aqui no estado do Acre”, declarou.
Investigado foi preso em Minas Gerais por outro caso
Thiago está preso em Minas Gerais, mas, conforme esclareceu a delegada responsável pelo caso, a prisão ocorreu por fatos diferentes daqueles investigados no Acre.
“Sim, ele foi preso em Minas Gerais por outras situações diversas dessa presente investigação”, explicou Juliana.
A conclusão do inquérito ocorre após uma longa mobilização da família de Joyce. A irmã dela, a pesquisadora e mestre em Geografia Jaqueline Souza, relatou anteriormente que Joyce mantinha um relacionamento a distância com Thiago desde fevereiro de 2024 e que a família passou a perceber mudanças no comportamento dela, incluindo irritação, impaciência e isolamento.
Os familiares também denunciavam possíveis episódios de violência patrimonial. Segundo Jaqueline, Joyce teria começado a fazer transferências bancárias ao então companheiro menos de duas semanas após o início do relacionamento. A família estimou em aproximadamente R$ 200 mil o prejuízo envolvendo transferências, empréstimos e um veículo adquirido em nome de Joyce.
Em setembro deste ano, Jaqueline também divulgou uma carta manuscrita deixada pela irmã, apresentada pela família como uma mensagem dirigida ao então companheiro.
Com a conclusão da investigação, o procedimento segue os trâmites legais. O indiciamento representa o entendimento da Polícia Civil a partir dos elementos reunidos no inquérito e não equivale a uma condenação.
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