Valterlucio B. Campelo

Unicidade e autoridade moral – Thor mexeu na ferida

07/09/2026 5 views 5 min de leitura

Uma das mais verdadeiras e contundentes críticas ao governo Gladson Cameli, continuado por Mailza Assis, vem do candidato do PSB, o médico Thor Dantas. Segundo ele, o Acre precisa de um governo único porque atualmente o Estado está fracionado em vários aparelhos políticos. Ao governador cabe basicamente o cérebro (fazenda e planejamento) e o sorriso (comunicação). Coração, braços e pernas foram apropriados como feudos por grupos assentados em mandatos federais e estaduais que os movimentam para os mais diversos interesses, maximamente a reeleição.

O resultado é, de fato, desperdício, compadrio, nepotismos cruzados, ineficiência, descontrole, corrupção, enfim, um arranjo que só pode resultar em paralisia e impossibilidade de um planejamento de médio prazo. Sem contar com o rodízio de dirigentes e cargos comissionados, no mais das vezes ali colocados sem a menor experiência ou qualificação. Thor Dantas está coberto de razão em acusar essa repartição que dissolve a unicidade do governo. 

Como faz para resolver essa situação? O candidato Thor Dantas responde na bucha. Com autoridade moral. Boa resposta. O que ele quer dizer, trocando em miúdos, é que um governante “sem autoridade moral” espalha seu jeito de ser pela administração e ele, sendo como é, honesto, experiente, apegado ao rigor técnico e à competência, formado e pós-formado sob critérios de mérito para operações cirúrgicas e tratamentos de alto risco, faria transbordar o SEU jeito de ser pela governança. 

Mas, peraí. Cadê o candidato de esquerda que estava aqui? Sumiu? Esses parâmetros – eficiência e meritocracia -, são valores defendidos pela direita. A esquerda gosta mesmo é de uma boa companheirada se acudindo sem medo de ser feliz, de sindicalistas e militantes em postos de comando. 

Em sua fala, Thor parece um estranho no ninho. O que nos leva a desconfiar de que o nosso “viking” talvez não tenha forças suficientes para levar adiante o propósito anunciado. Talvez tenha que abrir as portas para as varejeiras de sempre, talvez tenha que dar a mão para os companheiros combalidos pela própria incompetência. Talvez seus valores liberais (eficiência e mérito) não sejam bem acolhidos entre os promotores do socialismo, sempre bêbados de tanto entornarem teses progressistas nas universidades.

Lembrei-me do Jordan Peterson, psicólogo clínico canadense, professor, escritor e comentarista cultural, para quem a esquerda é muito eficaz em identificar sofrimento, mas não em propor soluções sustentáveis. Sim, há fragmentação espúria do governo e escasseia a autoridade moral para recuperar o eixo ético do governo. Mas, além de ver isso, o candidato precisa apontar soluções críveis. Restabelecer a autoridade moral para em seguida negociá-la no escurinho da ALEAC ou da bancada federal não é nenhum avanço, reconheçamos.

Pelas pesquisas, parece certo que as pretensões de Thor Dantas ficarão pelo caminho logo no primeiro turno destas eleições, mesmo assim, como tenho muito tempo de janela política, estou a dar conselhos de graça. Pega quem quer. Lá vão 3, dirigidos a todos os candidatos:

  1. Comprometa-se com a criação de travas profissionais para a maior parte dos cargos, especialmente os de segundo escalão – adjuntos, diretores e coordenadores da administração direta e indireta (há pencas de mestres e doutores na administração ansiosos por uma chance).

  2. Exija dos indicados um plano de trabalho com objetivos e metas claras. A EMBRAPA tem um processo muito interessante a ser observado e adaptado, com critérios baseados em mérito, experiência e proposta de gestão, resultando em um mandato de dois anos para os chefes de unidade.

  3. Faça uma reforma geral no modelo de gestão. Substitua a governança radial, por uma sistêmica. Ao invés de governar trocentas secretarias, empresas, institutos e fundações, governe alguns sistemas. Assim, o governo seria um mega sistema composto por subsistemas, integrados, participativos (via conselhos setoriais) e acompanhados por outro sistema, transversal, de monitoramento e controle. 

Como arremate, lembraria aos candidatos que a inteligência artificial e outros recursos tecnológicos jogaram no arquivo morto o modelo tradicional de governança. Ou se faz uma adaptação rápida, incluindo a estrutura de governo ou ele não funcionará de modo eficiente. Talvez seja pedir demais, porém, a quem pretende dar espaço para uma governança técnica, fica a dica.

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor  PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP

 

Fonte: ac24horas.com

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