
Crônica de uma Vitória Anunciada
Por Marcelo Mesquita, 20/08/2026
Não sei bem como começar a coluna de hoje. Podia ser com um eufórico “eu já sabia!”, podia ser com aquele “eu nunca critiquei!” de quem guarda recibo de fé antiga, ou então com o clássico que dispensa apresentação: “Aqui é Flamengo, p…!” — seguido do palavrão de desabafo que os tempos modernos, generosos, finalmente nos permitem escrever sem censura de editor tradicional. Mas vou te mandar o papo reto, como bom carioca, sem meias palavras: Deu no que tinha que dar.
Todo mundo conhece minha paixão rubro-negra, sei que vão desconfiar do que escrevo agora, e peço licença para fingir análise fria, distante, imparcial. Mentira — foi baile. Foi um daqueles vexames elegantes que o adversário leva sorrindo, porque nem tem alternativa. Brincadeiras à parte, como eu já tinha antecipado aqui ontem, o Flamengo reencontrou o próprio DNA, e reencontrar DNA, no futebol, é coisa séria — não se finge, não se maquia, ou o time tem ou não tem, e ontem o time tinha de sobra.
A vida de colunista tem dessas coisas bonitas: você anda pela rua e o povo te para pra puxar resenha, como se a coluna fosse continuação de bate-papo de boteco (ou de “pé-sujo”, como chamamos esse tipo de bar aqui no Rio de Janeiro). Ontem mesmo, chegando à faculdade, Seu Francisco — figura carismática que vende doce na porta, nordestino que enche a boca de orgulho toda vez que fala da própria origem — me pegou na fila do lanche com aquela cara de quem já vinha guardando a pergunta desde cedo. Ele levantou a tese clássica de arquibancada: que o elenco estaria fazendo corpo mole pra derrubar treinador, que o Fla devia estar muito mais na frente no Brasileirão. Respondi com a diplomacia que o momento pedia, porque não sou ingênuo a ponto de achar que panela de vestiário não existe no futebol — existe, sim, sempre existiu —, mas garanti a ele que não era o caso. Campeonato longo é assim mesmo: até elenco milionário oscila, o próprio Palmeiras que o diga. Lembrei que, depois de sequência ruim, o elenco cobrou por dentro, ajustou a rota, e o time voltou a se aproximar daquele modelo que consagrou a equipe: pressão alta, posse de bola, protagonismo. O autêntico DNA rubro-negro, batendo palma de novo. Fechei a conversa garantindo ao Seu Francisco: hoje o Flamengo vence. Ele sorriu, descrente educado, e eu fui pra aula com a certeza de quem sabia o que vinha por aí.
À noite, o primeiro tempo no Maracanã não só confirmou o palpite como saiu baratíssimo pro adversário — quase setenta por cento de posse de bola, mais de catorze finalizações contra uma miserável do Cruzeiro, e o um a zero no placar antes do intervalo nem chegou perto de traduzir o tamanho do domínio. Foi surra disfarçada de resultado modesto.
Na volta pro segundo tempo, o time deu uma engasgada, dez minutinhos de apagão, fruto também da leitura tática esperta do treinador adversário — e abro aqui parêntese pra falar do meu sobrinho Pablo, engenheiro, flamenguista roxo, apaixonado por tática de um jeito que só engenheiro consegue ser. Ele me disse no início do segundo tempo — e com razão — como a chegada de um treinador estrangeiro qualificado oxigenou de vez o futebol brasileiro, principalmente na capacidade de ler o jogo no intervalo e mexer o suficiente pra virar o cenário. Concordo com ele, sem meio-termo. Não defendo reserva de mercado pra treinador brasileiro — isso seria provincianismo travestido de patriotismo —, mas exijo critério: que venha estrangeiro bom, não estrangeiro mediano só porque tem sotaque diferente.
Fechado o parêntese, a reação do Cruzeiro durou o que tinha que durar — pouco. A categoria individual do elenco rubro-negro falou mais alto, e aqui, pega a visão, precisa gastar linha com o nome de Pedro. O rapaz transformou a grande área em quadra de futsal, tabelou com Arrascaeta entre linhas de marcação como quem brinca de roda, distribuiu drible que deixou zagueiro andando sem rumo, e ainda construiu a jogada do segundo gol, outro golaço, agora de Samuel Lino, que enterrou de vez qualquer esperança de reação cruzeirense.
Diferente daqueles jogos truncados e sonolentos de mata-mata que a gente já se acostumou a engolir sem reclamar, ontem foi espetáculo — dinâmico, vertical, sem enrolação. Uma das melhores exibições desta Libertadores inteira, sem exagero de torcedor apaixonado. Ganhou o torcedor, ganhou o futebol brasileiro, ganhou o futebol arte, sem catimba e sem violência, só bola no chão e categoria em cima dela.
E preciso, para fechar com a alma cheia que a noite pede, exaltar a Nação. Renato, meu amigo de longa data, tricolor secador, que mora ao lado do estádio me confidenciou que a torcida não parou de cantar um segundo sequer, contagiante do primeiro ao último minuto. Mais de setenta mil pagantes fizeram o Maraca tremer como nos velhos tempos, quando o estádio ainda comportava cento e vinte mil almas gritando junto: “Tu és time de tradição. Raça, amor e paixão. Oh, meu mengo!”
Quando você junta décimo segundo jogador, elenco que compra a briga de verdade, e treinador que deixa a vaidade lá na porta do vestiário pra jogar exatamente aquilo que a equipe sabe fazer de olho fechado, o resultado só pode ser esse. Dificilmente esse time fica de fora da decisão — e quem duvidar, que pergunte pro Seu Francisco.
Nos vemos na final da Libertadores!
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