O debate político no Acre frequentemente se nutre da ilusão da novidade. A cada ciclo
eleitoral, discursos inflamados prometem ruptura, renovação e o início de uma nova era
administrativa. No entanto, ao analisar o tabuleiro do Poder Executivo estadual e as
figuras que almejam ou ocupam o seu topo, a história revela um dado irônico: os
principais expoentes da atual política acreana compartilham as mesmas raízes
institucionais e ideológicas que hoje tanto criticam.
Embora se apresentem hoje como a antítese do petismo, Tião Bocalom, Alan Rick,
Gladson Cameli e Sérgio Petecão compartilham um DNA político comum: todos foram
gestados ou viabilizados pela própria Frente Popular do Acre. A promessa de ruptura
contrasta com a pragmática história das alianças locais.
A trajetória do quarteto expõe a teia de continuidades da política acreana. Bocalom, atual
símbolo do conservadorismo no estado, foi secretário de Agricultura na gestão do exgovernador Jorge Viana. Alan Rick chegou à Câmara dos Deputados pela primeira vez
sob o guarda-chuva eleitoral da FPA. Gladson Cameli construiu sua ascensão ao
parlamento federal alinhado ao palácio governamental, com direito a engajamento
público na campanha de Dilma Rousseff. Por fim, Sérgio Petecão pavimentou sua
transição de deputado a senador no âmago das coligações que sustentavam a hegemonia
petista.
Esta constatação ultrapassa o mero pragmatismo histórico: é a prova de que as duas
décadas de hegemonia da Frente Popular não moldaram apenas a infraestrutura e os
indicadores sociais do Acre — forjaram a própria classe política que hoje governa o
estado.
No Acre, a dita “velha” e a “nova política” bebem da mesma fonte. O discurso da mudança
ruiu perante a pragmática do poder, e a volatilidade das alianças regionais expõe como
convicções ideológicas continuam sendo secundárias diante da conveniência eleitoral. Os
líderes que hoje se consolidam como forças dominantes da direita e do centro-direita
locais são, em essência, frutos do ecossistema político estruturado nas gestões petistas de
Jorge Viana, Binho Marques e Tião Viana.
Resta ao eleitor acreano enxergar além da polarização teatral. Quando os atores apenas
mudam de figurino sem alterar suas origens, as prometidas transformações no Palácio Rio
Branco não passam de meros rearranjos das oligarquias de sempre. A verdadeira
renovação não virá de quem apenas trocou de palanque, mas de quem for capaz de
apresentar um projeto de estado finalmente livre das amarras do passado.
Fábio Andrade
História, Filosofia e Ciências Sociais com habitação em Ciência Política.
Pós-graduado em Gestação da Segurança Pública e Direitos Humanos.
Mestre em Relação Internacionais. Graduando em Psicologia.
Fonte: ac24horas.com
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