O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é bem mais que uma simples prova para quem tem a educação como única chance de mudar de vida. É a razão pela qual inúmeros jovens adotam uma rotina até exaustiva de estudos a fim de transformar a realidade em que vivem e abrir caminho para o progresso, levando consigo famílias inteiras e sonhos coletivos.
O Acre possui inúmeros exemplos de como o aprendizado pode levar mais longe. Kaíque Albuquerque, de 19 anos, e Wellen Cardoso, de 20, vivenciaram há pouco tempo o poder de transformação através da dedicação aos estudos. Ambos foram alunos de escolas da rede pública e passaram para medicina na Universidade Federal do Acre (Ufac).
Diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Kaíque Albuquerque foi aprovado em três universidades de medicina no país. “O Enem representa uma porta que se abriu e que mudou a minha vida, a vida da minha família e ainda continuará mudando por meio do acesso à universidade. Representa também a concretização de um sonho, de saber que é possível passar em medicina numa universidade federal”, contou ao ac24horas.
Ele revela jamais ter imaginado a proporção que uma aprovação no Enem pudesse causar na vida de um jovem. “Tinha a consciência de que, caso eu passasse, a aprovação iria mudar o rumo da minha vida para melhor, mas ao mesmo tempo não acreditava que isso seria realmente possível. Entretanto, é sim possível! Por mais que você faça a prova com muitas incertezas, faça o seu melhor e espere o resultado, que ele pode lhe surpreender”.
Wellen Cardoso foi aluna de escola na zona rural do Estado, no município de Porto Acre, e foi aprovada em medicina e direito na Ufac. “O Enem representa uma oportunidade. É uma prova com capacidade de mudar a vida de uma pessoa. Por meio do Enem, pessoas como eu, que nao têm como pagar uma faculdade, podem ter a oportunidade de ingressar em uma universidade pública e, a partir de uma formação profissional, ter acesso a diversas outras oportunidades”.
A jovem destaca que sempre soube da capacidade que o Enem tem de transformar vidas. “Justamente por isso decidi dedicar tanto tempo para me preparar para essa prova. Eu tinha medo de não ser aprovada, mas sabia que o Enem era minha maior oportunidade de alcançar os meus objetivos e mudar de vida”.
“Primeiro médico na família”
Kaíque e Wellen acreditam que o Enem impacta positivamente na vida dos estudantes. A aprovação em universidade federal foi uma alegria sem fim e pode ser o recomeço para muita gente. “Minha família viu, após a aprovação, que meu futuro seria diferente. Eles teriam o primeiro médico na família! Sinto também que para eles a aprovação em medicina não era possível, até eles descobrirem que sim”, comenta Kaíque.
Na casa de Wellen, todos ficaram extremamente felizes com sua entrada na universidade. “Por meio da minha aprovação, sinto que consegui motivar outras pessoas a se dedicarem a realizar seus objetivos e mostrar que realmente existe uma possibilidade disso acontecer, porque eu mesma, durante muito tempo, cheguei a duvidar de que isso seria realmente possível”.
Para Kaíque, o Enem garante acesso ao ensino superior para quem veio de baixo, sem muitas condições de estudo. “Essa prova é de grande importância para modular o trajeto da sua vida. Então, jovem acreano, não deixe de acreditar em você, na sua capacidade, como também não desacredite no valor dessa prova”.
Wellen reforça a ideia e diz que o Enem é, sim, uma prova difícil, mas também é uma das maiores oportunidades para mudar a vida de alguém. “A gente cresce ouvindo que os estudos mudam vidas e o Enem faz parte disso. Por meio dessa prova a gente consegue ingressar no ensino superior. Não devemos subestimar o poder que a educação tem de transformar a realidade de alguém. Não é apenas uma prova, é uma oportunidade de acessar espaços que, muitas vezes, parecem distantes da nossa realidade. A realidade de hoje não pode determinar onde você pode chegar”.
Progresso social
Para jovens como Kaíque e Wellen, o Enem é a principal chance de mudar os rumos de uma família inteira. “Não vim de uma família com excelentes condições a ponto de estudar em uma escola particular, mas o Enem é a oportunidade de colocar uma pessoa de escola pública no mesmo nível de acesso ao conhecimento que um indivíduo que veio de escola particular”, enfatiza o estudante.
Desde o primeiro ano do ensino médio, Wellen sabia de seus objetivos, e também de que muitos deles seriam, de fato, difíceis de alcançar. “Muitos sonhos envolvem dinheiro. Exemplo disso é a própria graduação, que eu não teria como pagar uma faculdade particular, então sempre soube que deixaria de realizar um grande sonho e objetivo, caso nao conseguisse ser aprovada no Enem. Essa prova fez eu continuar a sonhar com o que eu realmente queria”.
Agarrado na fé e no poder divino de Deus, Kaíque pretende seguir os passos na universidade e, profissionalmente, se tornar um cirurgião cardiovascular. “Quero aproveitar a oportunidade do acesso ao conhecimento que recebi e, principalmente, ser um médico que atenda o paciente com humanidade e respeito”.
Chegar ao curso de medicina na Ufac representa muito mais do que conquistar uma vaga. É a concretização de um objetivo para Wellen. “Academicamente, pretendo continuar me qualificando, buscar oportunidades de pesquisa e extensão e, futuramente, fazer uma residência médica. Profissionalmente, quero ser uma médica comprometida não apenas com o exercício da profissão, mas também com a realidade da população acreana, contribuindo para melhorar o acesso à saúde e qualidade de vida das pessoas”.
Preparação
Para conseguir uma vaga no curso de medicina, Kaíque, que hoje está no segundo período, afirma que a preparação adequada é aquela que já foi feita durante todo o ano ou anos de estudos, fazendo muitas questões e simulados. “Não adianta estudar faltando um dia para a prova. O mais importante é chegar descansado e bem no exame para colocar tudo o que você aprendeu naquela prova. Tire um ou dois dias antes da prova para descansar e relaxar a mente, isso faz muita diferença”.
Wellen Cardoso está no 4º período do curso de medicina, e acredita que a preparação para o Enem precisa começar com planejamento e constância. “Não é necessário estudar muitas horas por dia, mas aproveitar bem o tempo disponível, estabelecer uma rotina possível de manter, conhecer a estrutura da prova e resolver questões de edições anteriores. Também considero fundamental dar atenção à redação, porque ela exige prática e aprimoramento. Mas, acima de tudo, é importante que o estudante conheça sua própria realidade e não se compare com quem dispõe de condições de preparação diferentes. Nem todos têm acesso a cursinhos ou materiais particulares, então é essencial aproveitar os recursos gratuitos disponíveis e manter a disciplina”.
Como estudante de escola pública do Acre, Kaíque se diz grato ao que aprendeu, mas que é necessário um pouco mais para passar em um curso concorrido como medicina. “É totalmente desigual a qualidade do ensino prestado na escola pública em comparação com escola particular. A chance e a condição fornecida para o estudante da rede privada passar é infinitamente maior. Precisei pagar cursinhos por fora. Os professores tentam nos ajudar como podem, mas acredito que o ensino médio deve ser voltado para auxiliar ao máximo o estudante a alcançar esse acesso, com foco em simulados do Enem, listas de questões como atividades, aplicar o conteúdo que cai de fato no ENEM e também substituir atividades que não ajudam tanto o estudante na sua aprovação. Portanto, voltar o ensino médio público para que os estudantes sejam aprovados no Enem pode facilitar muito a trajetória dos alunos.
Por fim, Wellen ressalta que a educação faz parte da democratização do acesso ao ensino e permite que milhares de pessoas tenham acesso a educação. “Porém, acredito que o ensino ainda tem muito a melhorar. A educação não é gasto, é investimento, e eu sinto que o estado deveria investir mais nela e nas pessoas que dependem dela. Acredito que a educação pública no Acre ainda precisa avançar bastante para oferecer condições verdadeiramente iguais de preparação aos estudantes. O Enem é uma prova nacional, mas os estudantes não partem do mesmo lugar. Existem diferenças no acesso a professores, materiais didáticos, internet, cursinhos preparatórios e até nas condições que cada aluno tem para se dedicar aos estudos. Por isso, é preciso garantir que todos tenham condições de se preparar”.
A acadêmica aponta investimentos na infraestrutura das escolas, valorização dos professores, ampliação de projetos de reforço e preparação para o Enem, além de maior acesso a recursos tecnológicos e materiais gratuitos como parte do foco do ensino médio para um sucesso maior de aprovações. “Também é importante olhar para os estudantes do interior e das comunidades mais afastadas, que enfrentam dificuldades adicionais. A educação pública precisa não apenas oferecer uma vaga na escola, mas garantir que o estudante tenha condições reais de chegar à universidade”.
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