Copa do Mundo

Que Inveja Que Eu Tenho da Argentina, e Você?

17/07/2026 3 views 6 min de leitura
Maradona e Messi
Maradona e Messi

Crônica carioca, escrita com a franqueza de quem já cansou de fingir que não é inveja.

Por Marcelo Mesquita, 17/07/2026

Vou confessar uma coisa que a grande maioria dos brasileiros prefere engolir a seco, com aquele orgulho besta de quem acha que admitir defeito é traição à pátria: eu tenho inveja da Argentina. Inveja limpa, inveja de quem reconhece mérito alheio sem se diminuir por isso — a única espécie de inveja que um homem decente tem o direito de sentir.

E digo mais, sem medo de ser mal interpretado: se aquele time, aquela Scaloneta suada, entrelaçada, que sofreu, apanhou, virou e chorou junto, vestisse a camisa amarela, eu me orgulharia como não me orgulho há muito tempo. Porque o que a Argentina jogou contra a Inglaterra não foi só futebol. Foi liturgia.

Tuchel, o alemão frio que comanda a seleção inglesa, teve em campo dois belíssimos jogadores — Bellingham e Kane — que qualquer seleção do mundo lutaria para ter. E fez o quê com eles? Escondeu. Recuou. Trocou atacante por zagueiro estando na frente, como quem tranca a porta de casa vendo a própria festa lá fora.

Cem minutos de jogo, e a dupla mais cara da Inglaterra produziu uma única finalização bloqueada. Isso não é futebol tímido. É futebol envergonhado de si mesmo — e futebol envergonhado, minha gente, perde sempre, porque adversário nenhum tem pena de covarde. Como diria o ex-técnico Vanderlei Luxemburgo: “O medo de perder tira a vontade de ganhar”.

Do outro lado, um argentino de trinta e nove anos, magrinho, 67 kg, 1,70 m, resolveu não apenas com os pés — resolveu com sua genialidade absurda. Deu duas assistências.

E veja a beleza estatística dessa rima que a vida, de vez em quando, escreve sozinha: em 1986, nas quartas de final, Maradona fez dois gols antológicos, eternos contra a Inglaterra — um com a mão que Deus emprestou, outro com os pés que o diabo ensinou a driblar. Em 2026, quarenta anos depois quase à risca, novamente diante da Inglaterra, Messi, em vez de marcar, construiu os dois gols da vitória. Maradona resolveu sozinho porque a Argentina de 1986 ainda acreditava no messias solitário, ferido, injustiçado, quase clandestino. Messi armou para os companheiros porque a Argentina de 2026 já não precisa mais de messias. Ela virou processo. E processo se compartilha.

Quando a Argentina entrou em campo vestindo o uniforme azul-marinho, a lembrança de 1986 era inevitável. Vestia memória. Vestia também a lembrança das Malvinas, uma ferida nacional que jamais desapareceu e que aquele Mundial ajudou a transformar em símbolo de orgulho esportivo diante do mesmo adversário. Isso não é marketing de camisa retrô para vender em loja oficial. É um país inteiro dizendo, antes da bola rolar: nós sabemos quem somos, e vamos jogar sendo exatamente isso.

Agora eu pergunto, com a delicadeza de quem enfia o dedo na ferida sem anestesia: quando foi a última vez que o Brasil vestiu memória em campo, e não apenas patrocínio?

Porque nós já tivemos isso, ora se tivemos.

O Brasil de 1958 jogava com a alegria de um país que ainda não sabia que era pobre demais para ter vergonha de si mesmo — e ganhou o mundo com Pelé, aos dezessete anos, sorrindo em campo como quem brincava na rua.

O Brasil de 1970, o mais bonito que os olhos humanos já registraram numa televisão em preto e branco, jogava com a leveza de quem sabia, sem precisar dizer, que estava fazendo arte, não apenas buscando resultado.

E o Brasil de 1982 — ah, o de 1982, aquele time que nem foi campeão e que o país ama até hoje mais do que ama muito campeão — jogava por amor à camisa a ponto de preferir perder bonito a vencer feio. Sócrates, Zico, Falcão, Éder, Júnior: um time que era negócio, sim, porque futebol sempre foi negócio, mas que ainda tinha alma suficiente para não deixar o negócio matar a poesia.

O que aconteceu, então?

Aconteceu que o brasileiro trocou o amor pela camisa pelo amor à conta bancária e fingiu que uma coisa não atrapalha a outra. Trocou a várzea pelo condomínio de luxo, trocou a bola de meia pelo empresário que negocia percentual de imagem antes mesmo de o garoto aprender a fazer embaixadinhas, trocou o técnico que permanece anos construindo uma ideia pelo treinador que dura dezoito meses até a próxima crise.

E o pior: trocou a identidade coletiva pela vaidade individual, acreditando que um craque isolado ainda resolve aquilo que apenas um projeto resolve.

A Argentina de hoje tem jogadores ricos, milionários, contratados pelos maiores clubes da Europa. Ninguém aqui está romantizando pobreza como virtude. Isso seria ingenuidade.

O ponto não é dinheiro.

O ponto é que o contracheque, lá, não apagou a identidade.

Messi ganha o que ganha e, ainda assim, joga como quem deve alguma coisa ao país que o formou. Reconhece, com uma humildade que muitos brasileiros confundem com fraqueza, que carrega dentro de si a herança de Maradona. Não joga para derrotar o passado; joga para honrá-lo.

Já a maioria dos jogadores brasileiros, muitas vezes, trata a Seleção como escala entre contratos, como vitrine de patrocinadores, como estação intermediária rumo ao próximo salário maior.

E o dirigente brasileiro, cúmplice antigo dessa lógica, convocou quase uma centena de jogadores em poucos anos, trocou sucessivamente de treinadores e nunca pareceu disposto a responder à pergunta essencial: o problema eram os técnicos ou a ausência completa de um projeto?

Fica, então, a provocação que este colunista faz sem pudor algum, porque, aqui, pudor seria cumplicidade.

Dirigente brasileiro, jogador brasileiro: vocês têm dinheiro de sobra. Mas onde está a identidade? Onde está o time que sabe, antes mesmo de entrar em campo, quem é?

A Argentina não tem mais talento que o Brasil. Tem, isso sim, menos vergonha de amar o próprio passado e mais coragem de transformar esse amor em método, em cultura e em futebol.

Enquanto o Brasil tratar a camisa amarela como ativo financeiro e a Argentina tratar sua história como patrimônio vivo, o resultado continuará sendo exatamente este: eles disputando mais uma decisão importante, e nós discutindo apenas quem será o próximo culpado.

Não tenho inveja da Argentina porque ela vence. Tenho inveja porque ela sabe exatamente quem é. O Brasil continua procurando um culpado. A Argentina encontrou uma identidade. E, no futebol como na vida, quase sempre vence quem encontra a si mesmo antes de encontrar o adversário.

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