
Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte
Por Marcelo Mesquita, 23/10/2026
Meus amigos, vocês sabem que sou flamenguista, e sabem também que a minha visceralidade já virou assunto no prédio. Os vizinhos, que me ouvem cantando hino cristão aos domingos, devem achar, nas noites de jogo, que eu desci ao lugar mais escuro do universo, tamanha a força da minha voz quando grito por cima da televisão. Perplexos, depois percebem o paradoxo: é o mesmo homem, a mesma garganta, a mesma fé. A fé muda de endereço, só isso. No domingo ela mora na igreja. Na quinta-feira à noite, mora no Maracanã.
E a pergunta que me fazem, com um olhar de pena: você conseguiu dormir? Quem pergunta isso a um flamenguista raiz, depois do jogo ridículo que o Flamengo ofereceu ao seu torcedor dentro do Maracanã, não conhece a alma humana. Eu não dormi. Eu velei o corpo. Mas agora, de cabeça fria (a cabeça esfria, o coração não), vamos ao diagnóstico.
O Flamengo vem mal há três jogos de Libertadores. Contra o Estudiantes, nos dois, o time se comportou de maneira horrorosa, e não digo isso por maldade: digo porque é a verdade nua, aquela que o saudoso Nelson Rodrigues chamaria de óbvio ululante. Zero a zero lá, zero a zero cá, nenhum gol em cento e oitenta minutos. Ninguém sai de uma eliminatória dessas dizendo “foi azar”. Azar é quando a bola bate na trave. O que houve foi falta de ideia, e falta de ideia é problema de cabeça, e a cabeça do time é o treinador.
Aqui peço licença para falar com a franqueza de quem torce. Leonardo Jardim é um técnico que sabe conduzir um time nos pontos corridos. Tem método, tem rotina, tem currículo. No Brasileirão, ele se vira. Mas o mata-mata é outro papo. Mata-mata não é planilha, é bote. Quem não sabe dar o bote, morre. E ele, a meu ver, é um técnico mediano, abaixo de Filipe Luís, que foi grande jogador, campeão de tudo, e que conhece o peso desta camisa por dentro. Jardim chega ao Flamengo, perde a Copa do Brasil, perde a Libertadores. Dois tiros, duas ausências. Quando o erro vira hábito, deixa de ser acidente e vira assinatura.
E qual foi o erro? Ele deu ao Estudiantes uma importância que o Estudiantes, convenhamos, não merece. Tratou o adversário como time de primeira grandeza, como gente que disputa a ponta do campeonato alemão. Não é. Falo do time de agora, não da história, que é gloriosa e merece reverência. Mas aquele Estudiantes é um time de uma nota só: jogadores altos, bola na cabeça, ferrolho no meio, cruzamento pelas laterais e esperança no resto. É um time limitado, e eu não preciso inventar nada para dizer isso: basta ver como ele jogou. Respeito a camisa, respeito a torcida, que fez uma festa linda, respeito o goleiro, que pegou três pênaltis. Mas o Estudiantes eliminou o Flamengo, e é aqui que mora a vergonha: eliminar um time grande é fácil quando o time grande se deixa eliminar.
E o Flamengo se deixou. Veja o número: trinta bolas lançadas na área, trinta, segundo a transmissão, contra nove do adversário. O Estudiantes, o time do cruzamento, o tal time de jogadores altos, cruzou nove vezes, porque ficou esperando. E o Flamengo, com o Maracanã inteiro empurrando e com um jogador a mais desde os cinco minutos do segundo tempo, cruzou trinta. Para quem? Para o Pedro, sozinho, contra três zagueiros de um metro e noventa. Cruzar para Paquetá, para Jorginho, para quem joga no pé, seria um desperdício de talento. Mas foi o que se fez.
O Estudiantes armou o ferrolho no meio, empurrou o Flamengo para as laterais, e das laterais veio a bola alta que os zagueiros deles estão cansados de cortar. Foi a armadilha mais velha do futebol, e o Flamengo caiu como calouro. O Palmeiras tem o jeito dele de jogar, e o torcedor reclama dele, mas é o jeito do Palmeiras. O Flamengo tem o jeito dele: pressão alta, troca de passes, jogadores caríssimos que sabem o que fazer com a bola. E dessa vez só o Flamengo não jogou o jogo do Flamengo. Não pressionou na saída, não usou os lados com velocidade, não deu movimento ao meio-campo, não tirou o marcador da zona de conforto. Jorginho e Paquetá, que valem ouro, passaram a noite sem a bola chegar redonda aos seus pés.
E com um a mais em campo, a vantagem se transformou em dilema. O lateral do lado oposto não entrava, por medo do contra-ataque, e eu pergunto: que contra-ataque tem o Estudiantes? O técnico pôs o adversário num patamar que ele não ocupa, e o time jogou com o medo do técnico. É a pior forma de medo: a herdada.
Depois vieram os pênaltis. Jorginho, Paquetá e Bruno Henrique viram suas cobranças pararem nas mãos do Muslera. Ninguém tira o mérito do goleiro, mas pênalti é a conta que o jogo apresenta a quem não resolveu em noventa minutos mais prorrogação. O Flamengo, com superioridade numérica e posse de bola, deixou para a loteria o que devia ter resolvido na inteligência.
Eliminação todo time sofre. Eu mesmo já chorei muito por este clube e vou chorar mais. O que dói é a maneira. Perder jogando o seu jogo é um destino. Perder jogando o jogo do outro é um suicídio de salão. O Palmeiras agora decide com o Estudiantes, e dizem que nenhuma torcida comemorou mais a nossa queda do que a do Palmeiras, a rival de sempre, que vê o Flamengo fora e o caminho aberto. Que o Palmeiras respeite o Estudiantes, como deve. Mas que não espere o Estudiantes encontrar a mesma postura de ontem do outro lado do campo.
Eu vou dormir. Ou melhor, vou tentar. Mas uma coisa eu garanto, meus amigos: no próximo mata-mata, eu quero ver o Flamengo jogando o jogo do Flamengo. Se for para perder, que seja de cabeça erguida, com bola no chão e coragem no peito. Porque o que eu não perdoo, e o Nelson também não perdoaria, é perder de joelhos.
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