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O debate político na ilha chamada Acre

26/08/2026 1 views 6 min de leitura

O debate da TV Rio Branco ontem foi uma excelente oportunidade para o eleitor conhecer as ideias dos candidatos — ou tomar consciência da falta de ideias de alguns deles. Temas importantes, perguntas bem feitas e respostas nem sempre suficientes. Sem os ataques pessoais ou as mentiras que costumam povoar os debates na TV.

Colocar os candidatos lado a lado e explorar suas capacidades para avaliação do público é uma boa forma de promover a democracia e valorizar a decisão do eleitor. Muito melhor que deixar as pessoas tendo que escolher no escuro, enxergando apenas o volume das campanhas e as meias verdades costumeiras dos programas eleitorais. O debate foi especialmente interessante porque os candidatos se detiveram em seus programas de governo, que estão registrados e podem ser cobrados no futuro.

No debate, sobressaíram-se a questão do desenvolvimento econômico e os problemas enfrentados pela população na área da saúde. A ênfase dada pelos candidatos nos assuntos que afligem as pessoas no mundo real e a tentativa de apresentar propostas com base no que disseram nos documentos protocolados na Justiça Eleitoral apontam um avanço importante desta eleição em relação ao passado. Sinal de que a nossa democracia, mesmo com todos os percalços, está avançando.

Outra questão verificada foi o caráter insular do nosso debate político. É como se o Acre fosse uma ilha, uma terra descolada do continente chamado Brasil. Discutimos nossos problemas como se eles pudessem ser resolvidos apenas a partir daqui, ignorando, muitas vezes, as circunstâncias econômicas, políticas e institucionais do país do qual fazemos parte. Isso mostra o perfil ainda frágil da nossa classe política e a dificuldade que a imprensa local tem de conectar a realidade do estado ao ambiente mais geral da economia, do quadro institucional e da política nacionais. O resultado é, muitas vezes, um debate raso e pouco capaz de apresentar soluções efetivas para os desafios locais.

Tomemos o caso do investimento público. Sem fartos recursos federais, não teremos estradas de qualidade, novos hospitais, ampliação do aparato de segurança pública e muito menos o dinheiro necessário para fazer a economia crescer. E, no entanto, uma parcela expressiva dos políticos acreanos, a começar por três dos cinco candidatos ao governo, perfilam-se na direita brasileira, onde ganhou força uma agenda de contenção dos gastos e de redução do investimento público em nome de rígidas metas fiscais. Há aí uma contradição que deveria ser mais bem discutida no Acre: como reivindicar mais recursos e investimentos da União sem discutir o papel do Estado e do investimento público no desenvolvimento?

Dos candidatos, seguramente aquele que ninguém consegue mais ouvir é Tião Bocalom. Faz vinte anos que o Velho Boca fala as mesmas coisas. O mundo já mudou tanto que, quando ele começou a falar o que ninguém aguenta mais ouvir, nem o Orkut existia. Bocalom parece que não percebe que o seu discurso ficou para trás. Fala em produção primária enquanto as economias hoje reivindicam reindustrialização baseada em tecnologia e inovação constante, além de novos serviços digitais. Não se trata de abandonar a produção primária, obviamente, mas de pensar em como agregar valor, incorporar tecnologia e transformar nossas vantagens naturais em uma economia mais sofisticada e dinâmica.

A candidata Mailza Assis, governadora em exercício, tem muita dificuldade em apontar caminhos. Deixa a impressão de que está repetindo o que seus assessores orientam, sem mostrar convicção e força de convencimento. Mailza tem sido preservada nas sabatinas pelos jornalistas e, no debate de ontem, até mesmo pelos demais candidatos. Salvo as tentativas, ainda tímidas, do senador Alan Rick de levantar o debate sobre violência contra a mulher — numa clara tentativa de botar o marido de Mailza na roda — e sobre corrupção.

Esperava-se mais do senador. Alan, como homem de mídia, poderia ter sido o centro do debate. Até porque, até aqui, todas as pesquisas sérias o têm apontado como favorito. Mas faltou ao senador do Republicanos a serenidade que um momento como aquele requer. Seu comportamento deixou a impressão de que estava incomodado, como se a campanha não lhe estivesse fazendo bem.

Quem realmente brilhou no debate do Narciso Mendes foi o candidato da Frente Ampla, o Dr. Thor Dantas. Não que tenha passeado sobre os demais candidatos. Mas, num confronto direto com jornalistas, em que os temas foram problemas do povo, propostas de governo e o futuro do Acre, Thor mostrou estar alguns degraus acima dos demais candidatos. Falou de saúde, gestão pública e desenvolvimento econômico com segurança, profundidade e coerência, levantando dificuldades e desafios e apontando caminhos.

E talvez seja justamente essa a principal lição do debate: quando os candidatos são colocados lado a lado e obrigados a falar sobre problemas concretos, fica mais difícil esconder a falta de preparo, a ausência de ideias ou a dependência do discurso pronto. O eleitor passa a ter a oportunidade de comparar não apenas o que cada um promete, mas a capacidade que demonstra para compreender a realidade e formular soluções.

Esperemos os próximos debates. Melhor que as sabatinas individuais, eles permitem ao eleitor olhar para os candidatos em condição de igualdade. Nas sabatinas, pelo que se tem visto, os jornalistas mostram-se excessivamente condescendentes com os candidatos, bem longe do que se espera de quem deveria explorar os concorrentes em nome do povo.

Que os próximos debates façam o Acre deixar um pouco de ser uma ilha. Que os candidatos sejam obrigados a olhar para o Brasil do qual fazemos parte, para a economia que nos condiciona, para as instituições que nos governam e, principalmente, para os problemas reais, apontando soluções compatíveis com a realidade nacional. Afinal, mais importante que saber quem fala melhor é descobrir quem está realmente preparado para governar.

Fonte: ac24horas.com

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