Televisão

Laura Cardoso, Glória Menezes e a família que a televisão dá ao público

18/08/2026 1 views 3 min de leitura

Há algo na relação com a TV que só quem é fã de fato, do veículo e de quem o faz, entende. Quando morre alguém que fez história na televisão, não morre só um grande nome, uma figura pública. Morre um ente querido. Uma pessoa que, mesmo enquadrada numa tela, sempre esteve próxima. Presença constante, mais do que muitos familiares e amigos, na sala de estar. Hoje perdi Laura Cardoso (1927-2026) e Glória Menezes (1934-2026).

“Convivi” com Laura a partir de Mulheres de Areia (1993). Ela interpretava dona Isaura, mãe de Ruth e Raquel (Gloria Pires). Mais afeita à gêmea má do que à gêmea boa, por questões de personalidade e também por preocupação –Raquel gerava muito mais problemas do que Ruth. Logo depois, a atriz viveu Guiomar, em A Viagem (1994), que, influenciada pelo espírito de Alexandre (Guilherme Fontes), fazia ruir o casamento da filha com o genro.

Laura seguiu como Sinhana, a mãe dos Irmãos Coragem (1995). Após outra matriarca, a cigana Soraya, de Explode Coração (1995), ela encarnou tia Ruth, criatura interesseira que movimentava os capítulos de Salsa e Merengue (1996). Papéis distintos, num curto espaço de tempo, que serviram para mostrar o quanto o “convívio” com ela era prazeroso.

Laura Cardoso foi a avó da geração que aprendeu a ver novela com Chocolate com Pimenta (2003). Ela reduziu o ritmo de trabalho após emendar senhoras espevitadas, em Gabriela (2012), Sol Nascente (2016) e O Outro Lado do Paraíso (2017). Manteve-se na ativa em projetos curtos e nas redes sociais, amparada pelo bisneto. Que delícia era acompanhar registros em festas como o Natal… Como se fosse uma publicação de um parente distante que o algoritmo entrega de surpresa.

A relação com Glória foi diferente. Não havia intimidade. Ela e o marido Tarcísio Meira (1935-2021) eram símbolos máximos do status que a TV pode dar. Deuses acima de todos nós. “Conheci” a atriz em 1994, como Laurinha Figueroa, vilã capaz de tirar a própria vida para incriminar a inimiga, em Rainha da Sucata (1990), então reapresentada no Vale a Pena Ver de Novo. Mas, no ano seguinte, ela surgiu em A Próxima Vítima (1995), levando um tiro no meio do peito após uma perseguição no trânsito.

Lembro de comentários nas revistas sobre o gênero: “Como eliminam Glória Menezes de uma novela?”. Assim, ela foi se “humanizando” para o espectador aqui. Em Torre de Babel (1998), acuada pelo filho viciado em drogas. Em Porto dos Milagres (2001), numa participação especial, como cafetina. Em O Beijo do Vampiro (2002), trama das sete, toda esotérica. Em Senhora do Destino (2004), uma aristocrata acometida pela doença de Alzheimer.

Glória já havia dado amostras suficientes de seu talento quando surgiu escalando um telhado para desmascarar Donatela (Claudia Raia), justamente a vítima de A Favorita (2008). A carrasca Flora (Patricia Pillar) ludibriava Irene, personagem da atriz, enquanto a tratava, pelas costas, por “velha safada” e “anta histórica”. Em 2015, a última novela, quase uma presença VIP: Totalmente Demais, como Stelinha.

Foi de trabalho em trabalho, a serviço do ofício, que Laura Cardoso e Glória Menezes se colocaram entre as habitantes de tantas salas, Brasil afora. A cada nova personagem, a construção da intimidade com o público, através de sentimentos diversos. Como acontece nas famílias. Perdi duas parentes queridas. Perdemos todos.

Fonte: ac24horas.com

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