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Estudo relaciona existência de creche com empregos formal para mulheres

17/08/2026 32 views 6 min de leitura

Pesquisa com 540 mães de Rio Branco mostra que elas têm elevada em mais de 22 pontos percentuais a chance de conseguir emprego, caso existam creches na comunidade

Uma pesquisa conduzida em Rio Branco, no Acre, acaba de ser publicada no Journal of Intelligent Decision Making and Information Science e traz um dado difícil de ignorar: ter um filho matriculado em creche aumenta em 22,43 pontos percentuais a probabilidade de uma mulher estar empregada. O estudo, assinado pelos professores Rubicleis G. Silva, da Universidade Federal do Acre (UFAC), e Elaine A. Fernandes, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), entrevistou 540 mulheres entre 15 e 49 anos e aplicou um modelo logit combinado com técnicas de machine learning para chegar a esses números.

O trabalho nasce de uma pergunta simples, mas pouco respondida no Brasil: a falta de vagas em creches públicas é, de fato, um obstáculo real para as mães que querem ou precisam trabalhar? A resposta, pelos dados coletados em unidades de pronto atendimento, postos de saúde, no Hospital da Criança e em praças e parques da cidade, aponta que sim, e de forma estatisticamente significativa.

Um retrato da desigualdade em números

Antes de chegar aos determinantes do emprego, os autores montaram um panorama da situação em Rio Branco. Em 2024, o desemprego entre mulheres com filhos na cidade chegou a 19,05%, contra 8,87% entre as que não têm filhos, uma diferença de mais de 10 pontos percentuais, a maior da série histórica analisada desde 2019. O fosso é maior do que a média nacional e também maior do que a média do estado do Acre como um todo.

A pesquisa também mostra que, entre as mulheres desempregadas entrevistadas, a proporção com filhos na creche e sem filhos na creche é praticamente igual, cerca de metade e metade. Já entre as empregadas, o cenário muda bastante: 76,53% delas têm filhos matriculados em creche. Não dá para provar causalidade só com esse cruzamento, mas o padrão é consistente com a hipótese central do estudo.

O que pesa a favor e o que pesa contra

O modelo estatístico isolou um conjunto de variáveis que ajudam a explicar por que algumas mulheres conseguem emprego e outras não, mesmo com perfis parecidos. Segundo os cálculos de efeito marginal, os fatores que mais aumentam a chance de emprego são, pela ordem: ter filho na creche (22,43 pontos), ser solteira (15,64 pontos), fazer curso de qualificação profissional (15,13 pontos) e ser responsável pelo domicílio (cerca de 15 pontos). Anos de experiência profissional também ajudam, mas com retornos decrescentes: o ganho é forte até por volta dos 18 anos de experiência, depois começa a cair.

Do outro lado, receber o Bolsa Família aparece associado a uma queda de 31,38 pontos percentuais na probabilidade de emprego. Os autores são cuidadosos ao interpretar esse resultado: não se trata de dizer que o benefício desestimula o trabalho, mas sim que ele tende a alcançar uma população que já enfrenta barreiras estruturais mais duras para entrar no mercado formal. O estudo cita ainda pesquisas anteriores sobre transferência de renda no Brasil que encontraram efeitos parecidos.

Os extremos da vulnerabilidade

Um dos pontos mais interessantes do artigo é a construção de dois perfis opostos a partir do modelo. No perfil de maior vulnerabilidade, uma mulher com 8,5 anos de experiência, casada, sem cuidar do próprio domicílio, sem filho na creche, sem curso profissionalizante e recebendo ajuda emergencial tem apenas 17,65% de chance de estar empregada. Já uma mulher com a mesma experiência, mas solteira, responsável pelo domicílio, com filho na creche, com qualificação profissional e sem depender de ajuda emergencial, chega a 94,74% de probabilidade de emprego. A diferença entre os dois cenários mostra o peso acumulado dessas variáveis quando estão todas alinhadas contra ou a favor da mulher.

Por que usar machine learning junto com o modelo econométrico

Uma escolha metodológica que chama atenção no artigo é a combinação do modelo logit tradicional, usado há décadas em economia, com uma etapa de validação por machine learning. Os pesquisadores dividiram a base em 70% para treino (378 entrevistas) e 30% para teste (162 entrevistas), o que permitiu não apenas estimar coeficientes com interpretação econômica direta, mas também testar se o modelo se sustenta diante de dados que ele nunca viu antes. O resultado foi uma acurácia de 73,75%, com intervalo de confiança entre 66,22% e 80,38%, e um coeficiente Kappa de 0,4532, considerado moderado pelos padrões da área. Para os autores, essa etapa reduz o risco de um problema comum em modelos ajustados a toda a amostra de uma vez: parecerem bons no papel e falharem ao serem aplicados a casos reais fora da base original.

O que o estudo recomenda para políticas públicas

A conclusão dos autores é direta: ampliar o número de creches públicas, especialmente em regiões de Rio Branco com maior concentração de mulheres em situação de vulnerabilidade social, deveria ser tratado como política de emprego, não só como política de educação infantil. O artigo também chama atenção para um detalhe prático que costuma ser esquecido: de nada adianta ter vaga se o horário de funcionamento da creche não bate com o horário de trabalho formal. Os pesquisadores defendem que a grade de horários das unidades precisa ser pensada em conjunto com a rotina do mercado de trabalho, e não isoladamente.

Cursos de qualificação profissional voltados a mulheres desempregadas ou subempregadas aparecem como a segunda recomendação mais forte, já que o efeito da capacitação se mostrou relevante mesmo entre as beneficiárias do Bolsa Família, população em que a barreira de acesso a esse tipo de curso tende a ser maior.

Como próximo passo, os autores sugerem que futuras pesquisas avaliem não só a quantidade de vagas em creches, mas a qualidade do atendimento oferecido, e que o mesmo desenho metodológico, cruzando econometria com aprendizado de máquina, seja replicado em outros estados e municípios para checar se os padrões encontrados em Rio Branco se repetem em outras regiões do país.

Fonte: ac24horas.com

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