Um pouso de emergência em um rio no interior do Acre mobilizou equipes de resgate no último sábado, 17, após uma falha repentina de motor em pleno voo. O comandante da aeronave, Douglas Campos, relatou os momentos de tensão vividos a bordo e a rapidez necessária para tomar a decisão que evitou uma tragédia com passageiros e tripulação.
Pane súbita no motor após a decolagem
De acordo com o aviador, todas as verificações prévias de segurança apontavam condições normais de voo. O alerta de perigo surgiu logo no início do trajeto, momento em que o avião vencia a camada de nebulosidade para estabilizar a altitude de cruzeiro.
“Bom, antes da decolagem, a gente confere todos os parâmetros, faz todos os cheques, tudo dentro do parâmetro. Fiz a decolagem, quando eu fui estabilizar para o voo, logo após ter rompido a camada das nuvens, eu notei uma sujeira no para-brisa que era o óleo. Logo então eu chequei os parâmetros da pressão do óleo e eu vi que ele estava reduzindo”, contou.
Apesar da estimativa inicial de que o motor continuaria operando por cerca de cinco minutos — tempo que utilizaria para alcançar uma área com descampados —, a perda de potência ocorreu de forma muito mais rápida, impossibilitando qualquer tentativa de retorno à pista de origem.
“Então eu resolvi continuar, chegar pelo menos até o meio do caminho onde o rio Xandres desaba no rio Purus. Ali eu sei que tem mais campo aberto, mas também não deu para chegar lá. Aí não deu cinco minutos, com um minuto e meio o motor parou de funcionar e eu já tive que começar o procedimento proposto de emergência”, relatou.
Manobra às cegas e controle da cabine
Com a parada total do propulsor e a visibilidade prejudicada pelas nuvens, Douglas precisou recorrer à sua experiência prévia na rota, que operava com frequência há quase um ano. O foco principal dividiu-se entre manter a sustentação da aeronave e evitar o pânico a bordo.
“Não fiquei com medo, eu fiquei muito concentrado em manter o avião voando e preocupado em manter aquele ambiente dentro do avião calmo para não desesperar os passageiros e colocar pânico ali na cabine”, disse.
A localização exata do leito d’água só pôde ser confirmada quando a aeronave rompeu o teto de nuvens em direção ao solo:
“Eu conheço a rota, eu conheço o avião que eu tenho, que eu estava operando. Então, assim, eu só procurei mesmo o rio ali. Eu sabia o rumo do rio, só que como estava acima da nuvem, eu não sabia onde exatamente estava o rio”, afirmou.
A escolha pelo leito do rio
Ao atravessar a barreira visual, o curso d’água surgiu imediatamente na trajetória do avião, consolidando o local como a única saída viável para a aterrissagem forçada.
“Fui seguindo o rio e quando a gente furou a nuvem, quando quebrou a camada para baixo, foi de frente para o rio ali, então eu sem pensar duas vezes eu coloquei o avião ali mesmo”, contou.
O piloto foi enfático sobre a manobra: “Era a única opção ali naquele momento.”
Alívio e recuperação física
Douglas destacou que a conjunção de preparo técnico com o fator imprevisto foi decisiva para o desfecho favorável da ocorrência.
“É o que eu falo, assim, eu fui um instrumento de Deus ali, utilizado por Deus, porque, é lógico, teve todo o meu treinamento, não posso falar que foi em vão, mas naquela situação, como tudo ocorreu naquele cenário, daquela forma que aconteceu, a gente sair de frente daquela forma ali, eu fui um instrumento mesmo ali, pra estar tomando conta ali daquela situação. Graças a Deus, veio tudo certo no fim das contas”, afirmou.
O impacto do pouso na água deixou algumas lesões físicas no aviador: “Uma dor muito grande aqui nas minhas costas e no peito, mas é mais muscular e do nervo. Só impedindo o movimento do meu ombro. Dói um pouquinho quando vai respirar fundo”, relatou.
Apesar dos danos materiais e do susto, o sentimento dominante após o resgate é o de sobrevivência coletiva: “Agora a ficha está caindo, eu estou muito contente, fico triste pela perda que teve, por tudo que aconteceu, mas agora está vindo mais o sentimento de gratidão por estar todo mundo bem a salvo aqui agora. Nesse momento é esse o sentimento que eu tenho mesmo.”
Gerar Post/Story