Anistia Internacional denunciará Milei à ONU por ataque a jornalistas
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Anistia vai denunciar Milei à ONU por ataques a jornalistas

28/10/2026 1 views 5 min de leitura

O avanço das hostilidades do presidente da Argentina contra comunicadores motivou uma reação formal da Anistia Internacional. A organização não governamental anunciou que levará denúncias sobre o comportamento de Javier Milei à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), apontando a deterioração severa do livre exercício da profissão no país vizinho.

Ofensas públicas e caso judicial arquivado

A reação da entidade humanitária foi desencadeada por declarações recentes do chefe de Estado argentino, que atacou publicamente profissionais de imprensa autores de apurações sobre seu governo. Milei reagiu de forma exaltada após o Judiciário arquivar o inquérito batizado de “criptogate”, de fevereiro de 2025, no qual o presidente e sua irmã, Karina Milei, figuravam como suspeitos de supostas irregularidades vinculadas ao lançamento da moeda digital $Libra, divulgada por ele nas redes.

Embora a decisão do juiz federal Marcelo Martínez De Giorgi tenha apontado inexistência de crime, o líder argentino usou eventos públicos e as redes sociais para desferir ataques diretos a Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrígues, Natalia Volosin e Luis Novaresio. Milei chamou os repórteres de “Empacotados, corruptos, mercenários da mentira e fabricantes seriais de operações” e completou afirmando que “os que têm que queimar na fogueira são os filhos da p*”.

Em sua conta no X, o mandatário também alegou ter enfrentado uma “tremenda operação política e midiática cujo único objetivo era prejudicar a presidência para fins políticos de conspiração golpista”, rotulando os comunicadores de “subornados e mercenários da mentira”.

Risco democrático e efeito silenciador

Para a Anistia Internacional, o uso reiterado de termos violentos por parte do Executivo não representa meras discordâncias sobre coberturas, mas configura uma “escalada grave e inadmissível na hostilidade presidencial contra a imprensa”, visto que as falas “Não se limita a questionar uma cobertura jornalística, mas individualizam e estigmatizam jornalistas”.

A diretora-executiva da entidade na Argentina, Mariela Belski, advertiu sobre as consequências das intimidações públicas promovidas por autoridades de alto escalão. Segundo ela, “O cargo que ocupa exige uma responsabilidade reforçada: deve garantir que a imprensa possa investigar e informar com liberdade e segurança. O assédio por parte do poder deteriora as condições do debate democrático e afeta o direito de toda a sociedade de estar informada”.

Conforme sustentou a ONG, “Investigar a atuação daqueles que governam é uma função essencial do jornalismo e garantia para o controle democrático do poder”, pontuando que o assédio oficial favorece a autocensura e empobrece o fluxo de dados essenciais à população.

Recorde de agressões e articulação internacional

Dados do Fórum de Jornalismo Argentino corroboram o quadro crítico: em 2025, foram contabilizados 278 episódios de violência e intimidação contra profissionais de mídia, um salto de 55% em comparação com o ano anterior e o número mais expressivo registrado desde 2008. Deste total, Javier Milei despontou como o agressor em 119 ocorrências diretas.

A Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa confirmou, por meio de sua secretária Carla Gaudensi, que participará da representação internacional ao lado da Anistia. A Federação Internacional dos Jornalistas (FIP) também condenou os ataques por meio de sua presidente, Zuliana Lainez. Ela alertou que “Constrói-se um clima de intimidação que põe em risco a integridade dos trabalhadores da imprensa, favorece a autocensura e busca desestimular o exercício de uma função essencial para qualquer sociedade democrática.”

Lainez explicou que tais atitudes “Se inserem em um cenário de crescente deterioração das condições para o exercício do jornalismo na Argentina, marcado por agressões físicas durante coberturas, assédio judicial, restrições ao acesso à informação e ataques sistemáticos por parte de diversos funcionários do próprio governo”.

Repercussão sindical e caso de correspondente brasileiro

O Sindicato de Imprensa de Buenos Aires também condenou a postura do mandatário, afirmando que a gestão “voltou a ultrapassar um limite gravíssimo”. Em nota, a entidade declarou: “A incitação a ‘queimar na fogueira’ um grupo de jornalistas deve provocar uma reação imediata de todo o espectro político e midiático para frear os ataques contra nossa profissão. Não haverá espaço para lamentações se a violência promovida pelo presidente acabar se transformando em fatos concretos”.

O clima hostil ultrapassou as fronteiras locais e atingiu recentemente o jornalista brasileiro Rogério Tomaz Jr., que foi barrado ao desembarcar no Aeroparque, em Buenos Aires. O profissional, crítico das políticas econômicas da Casa Rosada e autor de pesquisas sobre a gestão argentina, teve sua residência permanente revogada pelo setor migratório local e recebeu veto de entrada no território por cinco anos.

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