Com apenas sete meses de mandato, o presidente chileno José Antonio Kast enfrenta um quadro econômico adverso marcado por desaquecimento produtivo, avanço da desocupação e perda acelerada de apoio popular. A política de contenção de despesas e desregulamentação, inspirada em modelos aplicados por Javier Milei e Donald Trump, coincide com uma desaceleração contínua da atividade e protestos frequentes nas ruas.
Queda na atividade econômica e disparada do desemprego
Os números oficiais do terceiro trimestre de 2026 revelam que o Produto Interno Bruto (PIB) do país encolheu 0,3%, aprofundando o recuo de 0,2% registrado entre abril e junho. Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego avançou 1 ponto percentual em doze meses, atingindo a marca de 9,6%.
O enfraquecimento geral levou o Fundo Monetário Internacional (FMI) a rebaixar drasticamente sua projeção anual para o Chile: a expectativa de alta de 1,8% anunciada em julho foi reduzida em outubro para apenas 0,6%. O índice coloca o país com o segundo pior desempenho previsto na América do Sul, superando apenas a Bolívia, cuja estimativa aponta para contração de 3%.
Para tentar conter a deterioração dos indicadores, o Executivo anunciou um programa de investimentos estatais de 1,3 bilhão de pesos chilenos. A iniciativa prevê subsídios à contratação, ampliação de obras de infraestrutura e linhas de crédito para empresas.
Dificuldades na produção de cobre agravam o cenário
A retração não decorre apenas da conjuntura interna. A disparada dos combustíveis no mercado global, impulsionada por conflitos no Oriente Médio, encareceu a gasolina e o diesel no país, já que o governo optou por não intervir nas tarifas para preservar as metas fiscais, alimentando a inflação.
Paralelamente, o motor das exportações nacionais enfrenta gargalos severos. O setor de mineração de cobre, responsável por responder entre 40% e 50% de tudo o que o Chile envia ao exterior, viu sua produção recuar 8% entre janeiro e agosto deste ano em comparação com igual período de 2025, segundo dados da Câmara Mineira do Chile.
O economista e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Fernando Henrique Lemos Rodrigues destaca as fragilidades do setor extrativo:
“O esgotamento de algumas minas e os problemas de tecnologia para extração do minério, somados a eventos climáticos extremos que impediram o escoamento da produção e a movimentos operários por aumentos salariais, têm criado entraves à economia do cobre”, avalia o professor da UFRRJ.
Rodrigues acrescenta que o aperto monetário e fiscal prejudica a sustentação produtiva:
“Ele está freando a expansão dos gastos. Só isso já dá um impacto brutal sobre a economia chilena, porque ela está diante de uma conjuntura bastante precária no seu principal setor, que é do cobre”, disse.
Ajuste fiscal e cortes concentrados em áreas sociais
Empossado em março após vencer as eleições com um discurso alinhado ao legado de Augusto Pinochet, Kast estabeleceu como meta reduzir em 3% os gastos estatais, acompanhada de alívio tributário ao setor corporativo. Até o momento, os relatórios oficiais indicam cortes de 2 trilhões de pesos, equivalentes a 0,6% do PIB.
Um levantamento setorial com base em decretos de 17 ministérios apontou que o congelamento orçamentário superou US$ 1,4 bilhão. As áreas mais penalizadas foram:
- Saúde: redução de 413 bilhões de pesos chilenos;
- Habitação: baixa de 200 bilhões de pesos;
- Educação: corte de 197 bilhões de pesos;
- Trabalho: retração de 141 bilhões de pesos;
- Previdência: diminuição de 706 milhões de pesos.
Conforme aponta Fernando Rodrigues, a desoneração de empresas associada à diminuição de aportes estatais não tem gerado o retorno prometido em expansão de capacidade produtiva.
“O rico faz o que nesse momento de extrema incerteza que é a crise? Ele pega esse dinheiro da redução dos impostos e retira do circuito econômico, normalmente direcionando a aplicações financeiras. É isso que ele faz”, explicou.
Pressão sobre o orçamento de 2027 e reação social
A tensão tende a aumentar com a peça orçamentária do próximo ciclo. Para 2027, o planejamento governamental prevê expansão de somente 1,5% do PIB nas despesas, patamar inferior às expectativas anteriores. Dados da Fundação Horizonte Cidadão, ligada à ex-presidente Michelle Bachelet, advertem que a medida compromete a manutenção de 48 programas voltados às famílias vulneráveis, totalizando 325 bilhões de pesos sob risco.
“Estes resultados contrastam com a promessa de campanha do presidente José Antonio Kast de que reduziria os gastos fiscais sem cortar benefícios sociais”, registrou o Centro de Investigação Jornalística (CIPER) do Chile.
A perda de verbas na área educacional tem levado multidões de estudantes às ruas, gerando atos reprimidos pelas forças de segurança. Sob forte desgaste e protestos crescentes, a desaprovação de Kast já ultrapassa os 60% no início de sua administração.
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