
Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte
Por Marcelo Mesquita, 22/10/2026
Meus amigos, hoje eu vou fazer jus à graduação em Educação Física que estou cursando aos cinquenta e cinco anos, minha segunda graduação (e aqui abro parênteses: nunca é tarde para fazer o que se ama; fecho parênteses). Vou fazer jus também ao curso “Tática Sem Tatiquez”, do Falso 9. E registro, para que ninguém me acuse de nada: não estou fazendo propaganda, estou registrando espontaneamente que o curso é bom. Bom de verdade, daqueles que fazem o sujeito parar de dizer “faltou vontade” e começar a dizer “faltou controle do jogo”. Pega a visão: o futebol tem camadas, como uma cebola. E, como toda cebola, quando você corta, chora.
Vamos descascar. Tem a camada técnica, que é o passe, o domínio, a finalização. Tem a tática, que organiza espaço e tempo: pressão, compactação, cobertura. Tem a física, que sustenta tudo isso por noventa minutos ou mais. Tem a emocional, que regula a ansiedade e a reação ao erro. Tem a cognitiva, que é ler o jogo antes de ele acontecer. Tem a coletiva, a confiança entre as linhas. Tem a fisiológica, o sono, a carga, a lesão. Tem a contextual, que é torcida, viagem, calendário, apito. E tem a institucional, o doutor, o analista, o dirigente que prepara o atleta para a guerra. Nove camadas, meus caros. E no meio de todas, sentada de pernas cruzadas, rindo da nossa cara, a décima camada, a mais carioca: o imprevisto.
E por que o futebol surpreende tanto mais do que o basquete e o vôlei? Papo reto, sem tatiquez: porque produz pouquíssimos eventos decisivos. No basquete, são centenas de posses e dezenas de cestas, e o acaso se dilui no meio da fartura. No futebol, um gol vale uma eliminatória. Os estudos que eu fui buscar, com mais de trezentas mil partidas, mostram que no futebol inglês o time teoricamente inferior vence 45,2% das vezes, contra 36,5% na NBA e 36,4% na NFL. Nada de mística, é estrutura: pouco gol, pouca chance, empate possível, e uma bola desviada, um frango, uma expulsão passam a pesar uma tonelada. Não é que o time fraco seja melhor. É que o jogo abre uma janelinha para o acaso entrar, e o acaso, convenhamos, nunca perde convite.
E o carioca sentiu isso na carne esta semana. Começo pelo Vasco, que me cortou o coração.
O Vasco foi à Bombonera, território onde sul-americano de peito estufado costuma voltar sem a voz, e ganhou do Boca por um a zero com um jogador a menos. Cala a Bombonera, disse a imprensa lá de fora. Voltou ao Maracanã favoritaço, aço, aço, mais de sessenta e cinco mil pessoas nas arquibancadas, vantagem no bolso, e sucumbiu de forma deprimente: três a um, três a dois no agregado, eliminado. Di Lollo abriu aos três minutos. Merentiel ampliou aos trinta e três. O Puma Rodríguez descontou aos vinte do segundo tempo e empatou o agregado, e aos quarenta e dois Leandro Paredes selou a classificação argentina, depois de uma falha (falha? Estou sendo generoso, foi frango mesmo) do Léo Jardim num chute de fora, desses que parecem controláveis até o instante em que deixam de ser.
Onde o Vasco errou? No princípio mais básico de quem joga com vantagem: administrar o começo. Sofreu o gol cedo, perdeu o controle mental e teve que se expor. A pressão do Maracanã lotado, que devia ser combustível, virou ansiedade coletiva, e a vantagem mínima virou armadilha. Na camada cognitiva, o time não leu o momento: empatou o agregado e, em vez de pressionar, recuou. Já o Boca, que sabe o que é mata-mata, sofreu o empate, manteve a estrutura e esperou o erro. Paciência de quem conhece o assunto, a camada coletiva em ação. Vitória fora de casa acende a vaidade antes de acender o cérebro. Quando o Vasco entendeu que não bastava entrar em campo, já era.
Passemos ao Fluminense, que é a história oposta e a mais cruel.
O tricolor jogou melhor os dois jogos, repito para os distraídos: os dois. Perdeu a ida por dois a um, falhando infantilmente no primeiro gol, e foi ao Nubank Parque buscar o que era seu. Venceu por um a zero, gol do Hércules aos oitenta e dois minutos, empatou o agregado em dois a dois. Cumpriu a tarefa tática, aguentou a pressão do Palmeiras em casa, achou o gol tardio, e isso é resistência física e mental. E aí veio a loteria dos pênaltis: o Fluminense converteu três de cinco, o Palmeiras converteu cinco de cinco, e o placar da cobrança foi cinco a três. Eliminado. O futebol não paga por merecimento, paga por gol, e a tabela não tem coluna para “jogou melhor”. Foi a camada emocional que se manifestou na hora do ponto de cal: regular o coração sob pressão extrema é uma habilidade que não se compra na esquina.
E o Palmeiras? Aqui o respeito é obrigatório, porque passou. Mas tem que ser dito: teve mais sorte que juízo. O professor Abel tem time para atacar o Fluminense em sua própria casa, elenco, repertório, peça de reposição que muito grande não tem. E isso não aconteceu ontem. Perdeu o jogo, administrou a vantagem da ida e confiou na tradição de decisões. Deu certo, como quem atravessa a rua com o sinal fechado e chega do outro lado: resultado bom, método ruim. Quem confunde as duas coisas, mais cedo ou mais tarde, não atravessa.
E agora, para fechar os finalistas da Libertadores, hoje tem Flamengo e Estudiantes. Como bom flamenguista, já estou aqui, desde cedinho, tomando café e comendo chocolate além do permitido para um homem de cinquenta e cinco anos. O cardiologista que me perdoe, e o Falso 9, que me ensinou a ler jogo, não me ensinou a ler o próprio coração. A cebola está na mesa, e eu estou de faca na mão e lenço no bolso.
E que ninguém me venha falar de política. Mesmo na semana derradeira da eleição, qualquer discussão política fica em segundo plano. A urna pode esperar. A bola, não.
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