Um cenário de grande destruição tomou conta de diversas cidades francesas após intensas manifestações contra o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos. O balanço do fim de semana inclui a morte de um manifestante por parada cardíaca na capital, mais de 2 mil pessoas detidas e cerca de 600 policiais feridos em confrontos generalizados.
Prejuízos no varejo e prédios depredados
A fúria de grupos radicais deixou marcas profundas no comércio e em edifícios governamentais. Segundo o ministro do Interior, Laurent Nunez, centenas de estabelecimentos comerciais sofreram danos substanciais de norte a sul do país, atingindo localidades como Lille, Marselha, Estrasburgo e Bordeaux — onde manifestantes mascarados chegaram a invadir a residência do prefeito.
Grandes redes também sentiram o impacto financeiro. O presidente-executivo do Carrefour, Alexandre Bompard, declarou à emissora BFMTV que 50 unidades da rede foram danificadas, das quais 20 acabaram saqueadas, gerando perdas estimadas em dezenas de milhões de euros. Em Bordeaux, o prefeito Thomas Cazenave relatou até 100 lojas invadidas, enquanto o chefe municipal de Marselha, Benoit Payan, prometeu auxílio emergencial para os lojistas.
Diante do quadro de devastação, o ministro da Economia, Roland Lescure, garantiu suporte financeiro aos comerciantes prejudicados e prometeu rigor contra os responsáveis: “Quem destruir coisas vai pagar, reparar os danos e ser responsabilizado por sua intenção de semear o caos”.
Fogo destrói prefeitura histórica em Limoges
Um dos episódios mais graves ocorreu em Limoges, no sudoeste francês. A sede municipal, um prédio histórico de 143 anos, foi alvo de um incêndio criminoso que gerou comparações com a tragédia da Catedral de Notre-Dame em 2019.
O prefeito da cidade, Guillaume Guerin, protestou veementemente e ameaçou deixar o cargo caso não receba verbas estatais para a reconstrução: “Houve uma intenção clara e premeditada de incendiar a prefeitura, e as pessoas que estavam lá dentro temeram por suas vidas”.
Clima de guerra e pressão sobre Emmanuel Macron
Mesmo após a grande mobilização de sábado — que reuniu mais de 500 mil pessoas —, o domingo seguiu tenso em Paris. As forças de segurança voltaram a dispersar manifestantes com bombas de gás lacrimogêneo na Place de la République, onde bicicletas foram queimadas.
O ambiente de insegurança impactou moradores e turistas. O empresário holandês Tije De Boer, que visitava a capital acompanhado dos filhos, precisou abandonar a hospedagem e desabafou: “Aqui parece uma zona de guerra”.
Repercussão política e cobranças da oposição
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu culpou criminosos e a “extrema esquerda” pelos distúrbios violentos. Em resposta, a oposição aumentou o tom. O líder de extrema direita Jordan Bardella afirmou que a França havia sido “humilhada” e exigiu a renúncia do chefe de Estado.
“Estamos pagando por décadas de negligência, perda de autoridade e pelo desarmamento moral, psicológico e material de nossas forças de segurança interna”, declarou Bardella em uma delegacia parisiense.
O movimento atual teve origem nas reivindicações de professores e estudantes sobre a precariedade do ensino público na periferia, mas rapidamente se transformou em uma revolta ampla contra a inflação e a disparidade social. Com mandato até 2027 e enfrentando baixa popularidade, o presidente Emmanuel Macron agendou um pronunciamento em rede nacional para tentar conter a crise que ameaça desestabilizar o país antes do próximo pleito presidencial.
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