Caro leitor, você acredita ser possível entender o que pensa o acreano e que visão ele tem sobre a vida e o futuro a partir dos votos que as pessoas deram na eleição de domingo? Se acredita, vou lhe decepcionar: não há praticamente nenhuma correlação. Por várias e complexas razões. Ao longo do texto, buscaremos explicar algumas delas.
A primeira delas é a que a eleição acreana é completamente desbalanceada pelas diferenças de poder econômico. Algumas candidaturas contaram com estruturas absurdamente grandes na comparação com a maioria. Tanto nas disputas para governador e senador quanto nas de deputado federal e estadual. Campanhas cheias de dinheiro e “volume” têm maior impacto no imaginário do eleitor e, principalmente, maior capacidade de operar na montagem das famosas redes de negociação de votos.
E o hábito da compra de votos está tão arraigado na dinâmica da tomada de decisão do eleitorado que ninguém acredita ser possível conquistar mandato sem uma boa reserva financeira para os “esquemas do dia”.
Outro hábito arraigado na cultura política do eleitor acreano é o do comportamento de manada. Como sociedade em formação e com baixa cultura de leitura, as pessoas tendem a evitar discordâncias e conflitos e a seguir “a maioria”, daí a importância, para os candidatos, de botar gente para balançar bandeiras nas esquinas e de realizar encontros volumosos. O eleitor, além da busca pelo comportamento de conformidade (“muitos pensam como eu”), quer segurança de que não está “perdendo o seu voto”.
Outro fator que esvazia o caráter democrático da decisão do eleitor e altera o sentido político do resultado da eleição é a ausência de discussão sobre os temas em jogo. Veja, quando vai decidir pelo voto, você acha que o eleitor acreano avalia a qualidade da saúde, da educação e dos demais serviços públicos, ou o investimento produtivo para fazer crescer a economia e gerar empregos, ou, mais complexo ainda, a capacidade do escolhido em lhe representar diante dos embates próprios da política? Seguramente não. Quando muito, o que conta são as relações de proximidade e acesso e a possibilidade de ganho pessoal imediato.
Ah, você cobra evidências do que estou falando. Ok. Então, pergunte a uma amostra deeleitores do deputado eleito Fábio Rueda quem ele é, qual a sua história e o que ele representa. Ou, analise se a representação feminina na Assembleia Legislativa foi tão ruim assim a ponto de impor às mulheres a perda do direito de contar com representação própria na ALEAC. Ou mesmo, daqui a uma semana, pergunte a um eleitor aleatóriocomo foi composta a chapa de seis nomes em que votou no domingo.
Então, o que podemos afirmar é que o poder do dinheiro com a compra de votos e a ilusão de campanhas com elevada adesão; a tendência de parte do eleitorado acreano ao voto de manada, sem maiores considerações sobre interesses em disputa e, por fim, a ausência de debates sobre os temas reais da gestão pública, substituída muitas vezes pela busca de ganhos pessoais imediatos, esvaziam a eleição como um termômetro real do que pensa e deseja nossa sociedade. A consequência é a fragilização da política e o esvaziamento do poder das instituições de representação que tanto precisam dessa vinculação com o povo como base de sua legitimidade.
Mas essa não é uma questão atual. Na verdade, ela vem de um processo histórico de distanciamento das massas populares em relação ao que é a democracia e para que serve o voto, distanciamento que partidos, elites políticas e instituições pouco fizeram para superar. Para muitos, votar para eleger representantes não aparece como uma conquista histórica ou mesmo uma atitude de civismo e cidadania. Esses são conceitos abstratos e distantes demais. E não exatamente por falta de escolaridade.
O problema é que instituições de representação popular com baixa legitimidade põem em xeque o valor da própria democracia e, com isso, expõem o poder público que deveria cuidar dos interesses e necessidades coletivas ao risco de servir a grupos interessados apenas em cuidar de si mesmos. Reverter esse quadro exige educação política, regras mais rígidas de financiamento e fiscalização, e um debate público que leve em consideração as condições reais de vida das pessoas e o risco de escolhas ruins na hora do voto.
Fonte: ac24horas.com
Gerar Post/Story