Uma organização envolvida em ações de caráter social no Acre é alvo de denúncias relacionadas à coleta de documentos pessoais de pessoas cadastradas para receber doações de verduras. Segundo relatos encaminhados ao ac24horas nesta quinta-feira (24), participantes de um grupo de WhatsApp passaram a ser orientados a enviar fotografias do RG e do título de eleitor, enquanto o mesmo espaço passou a divulgar material de campanha da candidata a deputada federal Djê Cavalcante, do PDT, que atua na diretoria da organização.
A organização citada nas denúncias é a Organização Nacional de Valorização da Vida, Educação e Saúde (ONVVES/AC). O grupo de WhatsApp foi criado originalmente com o nome “Doação de verduras” e posteriormente passou a se chamar “Núcleo ONVVES / ANGICO”.
As capturas de tela obtidas pelo ac24horas mostram uma mensagem enviada por um perfil identificado como “ONVVES” orientando os participantes a encaminhar fotografias do RG junto com o título de eleitor. “Pessoal, boa tarde. @todos Mandem as fotos do RG com o título em uma única foto”, diz a mensagem. O número de telefone que aparece enviando a mensagem é o mesmo em posse da presidente e atual tesoureira da ONVVES, Priscila Karolayne dos Santos, durante a apuração dessa reportagem.
Logo abaixo, uma mensagem da pastora Sandra Silva reforça: “Isso pessoal, basta uma foto junto do RG e título”. A exigência provocou questionamentos entre integrantes do grupo. Uma participante afirmou que anteriormente sua irmã precisava apenas fornecer o nome para receber as verduras. Em outra mensagem, aparece a reclamação: “Agora já tá pedindo RG e título”.
Denunciante diz que ouviu que coleta tinha finalidade política
Jamila Araújo, que integrava o grupo e foi removida após questionar a necessidade do título de eleitor para recebimento das doações, disse ao ac24horas que a distribuição de verduras já ocorria no bairro antes da formação do atual grupo e, inicialmente, o cadastro exigia apenas informações básicas. “Esse grupo foi feito agora, só que lá no bairro já tinha feito uma doação, só que a mulher que doava escolhia pra quem doava”, relatou.

Jamila afirma que, quando uma nova lista foi elaborada, os dados solicitados eram nome, CPF, data de nascimento e telefone. “No dia da lista eu fui, a minha amiga foi, era só pra dar o nome, CPF, data de nascimento, número de telefone”, contou.
Segundo a denunciante, posteriormente foi realizada uma reunião para tratar da distribuição das verduras. Ela afirma que uma candidata participou do encontro. “A semana retrasada, chamaram pra reunião pra falar das verduras. Quando a gente chega lá, tá a [candidata a] deputada”, afirmou.
Depois da reunião, de acordo com Jamila, os participantes teriam sido orientados a comparecer a outro local para realizar a inscrição. Ela disse acreditar que o endereço seria um comitê da candidata. Foi nesse momento, segundo o relato, que a amiga de Jamila teria sido questionada sobre o título de eleitor. “A minha amiga chegou lá e a mulher pediu: ‘Me dá seu título, é pro cadastro’. Ela falou: ‘Não, isso é política, né, moça?’”, relatou. “Ela falou: ‘Sim, é porque a gente tem que ver quem é que tá com a DG, pra somar os votos’”, contou.
A fala é atribuída pela denunciante ao que teria sido dito durante o cadastramento. A reportagem não encontrou, nos materiais analisados, comprovação independente de que Djê Cavalcante tenha determinado a coleta dos documentos.
Pastora confirma pedido de documentos, mas nega relação com eleição
Procurada pelo ac24horas, a pastora Sandra Silva, apontada pela ONG como a pessoa que deveria recolher os documentos, confirmou que participa da iniciativa de distribuição de verduras e afirmou que os documentos são solicitados para a realização de cadastros. “É assim, a gente tem uma ONG que dá verdura pra comunidade. Pra gente colocar no sistema ou no computador a gente precisa do RG da pessoa, mas a gente não tá obrigando ninguém a mandar título e documento”, afirmou.
Questionada especificamente sobre a necessidade do título de eleitor, Sandra inicialmente citou documentos pessoais e afirmou que a exigência não seria obrigatória. Ao ser perguntada diretamente se o sistema exigia o título de eleitor, respondeu que não.
Questionada então sobre por que o documento havia sido pedido, ela voltou a afirmar que se tratava de documentação pessoal. Durante a entrevista, Sandra também negou que a iniciativa estivesse sendo utilizada em relação ao período eleitoral. “Sim, nego profundamente, nego mesmo. Isso é mentira”, respondeu.
Sandra explicou ainda que as pessoas que foram retiradas do grupo teriam sido excluídas por críticas à iniciativa, e não por se recusarem especificamente a enviar o título.
Presidente da ONG diz que título é usado para confirmar data de nascimento
A presidente e atual tesoureira da ONVVES, Priscila Karolayne dos Santos, também foi procurada pelo ac24horas. Ela negou que o grupo estivesse sendo utilizado para obtenção de títulos de eleitor relacionados à campanha.
Segundo Priscila, a organização realiza entregas vinculadas ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e precisa prestar contas das pessoas que recebem os produtos.
Ela afirmou que parte dos beneficiários havia fornecido inicialmente apenas nome e telefone e que, posteriormente, foi necessário completar os cadastros. “Na hora de prestar conta, essas famílias que não foi inicialmente mandado o cadastro lá para a secretaria, a gente tem que cadastrar. Então, o sistema pede vários dados”, explicou.
Priscila afirmou que a solicitação de documentos ocorreu porque as famílias que entraram posteriormente precisavam ser cadastradas individualmente para comprovar o recebimento das doações. “Não é que a gente está fazendo aleatoriamente ou pegando documentos”, disse.
Questionada especificamente sobre o título de eleitor, entretanto, Priscila apresentou outra justificativa. “Porque, no caso, tem pessoas que não têm os outros documentos. Aí a gente pede, no caso, só para confirmar a data de nascimento”, afirmou.
A reportagem questionou que o título de eleitor não possui fotografia e que a mensagem enviada ao grupo falava especificamente em “RG e título de eleitor”, e não RG ou título de eleitor. Também foi questionada a necessidade do documento para o PAA.
Priscila então explicou que, além do programa, a ONG possui um cadastro próprio. “Fora esse programa do PAA, a gente também tem o nosso cadastro, o cadastro da entidade”, disse. Questionada se, nesse cadastro próprio, o título de eleitor era solicitado, respondeu que sim. Segundo Priscila, a exigência faria parte das regras internas da entidade. “É porque são regras da entidade”, afirmou, acrescentando que a organização também realiza atendimentos médicos, jurídicos, assistência social, acompanhamento psicológico e nutricional, além de cursos.
ONG nega relação política com candidata
Priscila também foi questionada sobre a reunião mencionada por Jamila, na qual uma candidata teria participado de um encontro apresentado inicialmente como atividade relacionada ao cadastro das famílias. “Se foi feito isso, eu não estou sabendo”, respondeu.
Segundo ela, a ONG possui diversos núcleos e, caso tenha ocorrido uma conversa política, “a ONG não está participando desse tipo de conversa”.
Sobre a exclusão de pessoas que questionaram a exigência do título, Priscila afirmou que os participantes deveriam ter procurado diretamente a pessoa responsável pelo cadastro ou a diretoria da entidade.
Ela também confirmou que Djê Cavalcante integra a diretoria da organização, mas afirmou que a candidata não estaria mais à frente desses assuntos. “Ela faz parte da diretoria, mas nesses assuntos ela não está mais à frente”, disse.
Questionada sobre eventual apoio político da ONG à candidata, Priscila negou.
“Não, pois é, porque a gente também, agora que a gente fechou o grupo, antes ele estava aberto. (…) Mas a gente não apoia, nada disso”, afirmou. Segundo ela, o grupo teria sido fechado justamente porque manifestações políticas estavam ocorrendo entre os participantes.
Em outro momento da entrevista, Priscila confirmou que a entidade já teria beneficiado mais de 20 mil famílias. Perguntada se isso significaria que a ONG possuiria títulos de eleitor de mais de 20 mil pessoas, ela negou. “Não, não temos de todos porque a gente está atualizando e muita gente não tem”, afirmou, acrescentando que a organização também auxilia pessoas na obtenção de documentos.
Candidata diz desconhecer pedido de título e afirma estar afastada da ONG
O ac24horas também procurou Djê Cavalcante para questioná-la sobre a denúncia. A candidata afirmou que acredita não estar envolvida nas reuniões ou nos pedidos de documentação mencionados na denúncia. “Acredito que nenhum desses áudios ou reuniões eu esteja participando”, afirmou.
Segundo Djê, a instituição possui diversos serviços e não se limita à distribuição de alimentos. Ela disse ainda que, naquele momento, estava afastada das atividades e não acompanhava diretamente a entrega que ocorria naquela região.
Questionada sobre sua relação com Sandra Silva, a candidata afirmou não ter relação pessoal com a pastora e explicou que a organização trabalha com diversos pastores e lideranças comunitárias. “É uma instituição, é uma ONG, que é independente de quem seja liderança ou pessoas que são cadastradas e utilizam o serviço da instituição”, declarou.
Sobre a denúncia de utilização da distribuição de alimentos para obtenção de apoio eleitoral, a candidata afirmou que desconhece a prática e se posicionou contra esse tipo de conduta. “Eu sempre fui uma pessoa de repúdio e estou muito crítica. Quando você é uma pessoa que faz autocríticas a candidatos ou políticos que agem dessa forma, para mim é misturar a necessidade da pessoa com política e, para mim, isso não se mistura. Eu jamais faria isso”, declarou.
ONG recebeu R$ 2,5 milhões em transferências
A reportagem também identificou oito transferências destinadas por deputados estaduais à ONVVES/AC que, somadas, chegam a R$ 2.535.000,30.

Questionada sobre os recursos, Djê afirmou que a prestação de informações caberia à presidente da instituição, já que não participava diretamente dessa área.
Priscila, por sua vez, afirmou que os dados de transparência da organização estão disponíveis no site e que as prestações de contas são encaminhadas à secretaria responsável.
Em outro momento da entrevista, Priscila confirmou que a entidade já teria beneficiado mais de 20 mil famílias. Questionada se isso significaria que a ONG possuiria títulos de eleitor de mais de 20 mil pessoas, ela negou. “Não, não temos de todos porque a gente está atualizando e muita gente não tem”, afirmou, acrescentando que a organização também auxilia pessoas na obtenção de documentos.
Fonte: ac24horas.com
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