Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte
Por Marcelo Mesquita, 11/09/2026
O hino rubro-negro é categórico logo nas primeiras estrofes, sem deixar margem pra dúvida:
Uma vez Flamengo, Sempre Flamengo. Flamengo sempre eu hei de ser. É meu maior prazer vê-lo brilhar Seja na terra, seja no mar, Vencer, vencer, vencer!
De 2019 pra cá — desde aquela campanha épica, pujante, sob o comando de Jorge Jesus —, o Rubro-Negro bem que podia pedir licença ao poeta pra colar um adendo pequeno, quase discreto: “seja na terra, seja no mar… seja na altitude!”
Os mais afoitos, os mais inflamados — no ritmo do Pilhado, ali no microfone da Jovem Pan gritando como só ele sabe gritar — já vão logo dizendo que foi atropelo, foi massacre lá nos 2.500 metros. Calma, meus amigos, marca um dez. O Flamengo venceu com autoridade? Sem sombra de dúvida. Mas teve, acima de tudo, o mérito absoluto de saber sofrer, de saber se defender no primeiro tempo, economizando cada mililitro de oxigênio num ambiente hostil que estressa qualquer corpo não aclimatado. Teve o mérito de ostentar elenco digno de time grande da Europa — parceiro, isso não é força de expressão, é fato.
E foi exatamente nessa tecla que Leonardo Jardim deve ter batido no vestiário, no intervalo. Porque na etapa inicial, o time que sabia se defender simplesmente não conseguia atacar. Não encaixou um contra-ataque sequer, não deu um chute a gol em quarenta e cinco minutos de primeira etapa — e pra piorar, flertou perigosamente com a tragédia: dois sustos, um deles claríssimo, bola beijando a trave do Rossi, chute do centroavante do Del Valle, livre de marcação entre os zagueiros. Ali, cria, o Flamengo teve mais sorte do que juízo. Se descesse pro vestiário perdendo de um a zero, seria senha perfeita pros equatorianos tomarem de vez as rédeas do jogo.
Por outro lado, faltou ao adversário eficiência pra transformar posse de bola esmagadora — quase setenta por cento no primeiro tempo, pegou a visão? — em gol de verdade no placar. Uma bola na trave é pouco, muito pouco, pra quem joga em casa, empurrado por torcida e com altitude a favor. Azar do Del Valle, que teve a régua e não soube medir.
Na segunda etapa, Jardim olhou pro banco reluzente, cheio de craque, sacou quem tinha perna pra brotar com pique no ar rarefeito e soltou a cavalaria — na garantia de que, se um jogador desse vinte minutos de entrega total, teria peça de reposição na manga. Foi a senha. O Flamengo desfilou o próprio futebol sem pedir desculpa a ninguém. Não demorou: Jorginho — jogador lúcido, camisa dez raiz vestindo número oito, maestro que rege sem precisar de batuta — achou Samuel Lino, esse aí, confesso, nunca critiquei! O passe veio na medida certinha pro imortal Bruno Henrique que, aos trinta e cinco anos, corre feito garoto, no estilo Papa-Léguas — só a turma quarentona e pra cima vai saber exatamente do que estou falando. Bola na rede. Esquece.
Como já mandei o papo reto no texto passado, o Flamengo já se credenciou pra faturar o Brasileirão. O pontos corridos premia regularidade, e nesse quesito o Rubro-Negro segue nadando de braçada — com o perdão do trocadilho barato, mas nada mais justo pra quem carrega origem de Clube de Regatas no próprio nome. O Palmeiras, grande rival das últimas temporadas, hoje está uma prateleira abaixo, engessado em futebol burocrático, sem inspiração nenhuma pra colocar susto em ninguém.
Já na Liberta, mesmo que o mata-mata sempre guarde armadilha até a última rodada, o peso do manto e o momento atual colocam o Flamengo direto na rota de mais uma taça.
Palpite de quem vive e respira futebol, sem papo de casa de aposta nenhuma, só puro sentimento de arquibancada traduzido em análise? O Flamengo levanta Brasileirão e Libertadores. Ao Palmeiras, resta a Copa do Brasil — e mesmo essa, que já corram atrás com o pique que ainda têm, porque perrengue, nesse ritmo, é o que não vai faltar.
Gerar Post/Story