Conjunto Brasil Mundial ginástica rítmica
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O Ouro Que Ninguém Financiou e Todo Mundo Vai Aplaudir Depois

16/08/2026 7 views 4 min de leitura
Conjunto Brasil Mundial ginástica rítmica
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Crônica de um carioca apaixonado por esporte

Por Marcelo Mesquita, 16/08/2026

Eu poderia, hoje, falar da passada de carro que o Flamengo deu num jogo-treino contra o Mirassol. Alguém, por favor, anotou a placa? A placa do caminhão que atropelou o Mirassol precisa constar em boletim de ocorrência. Poderia falar, também, da virada espetacular do Fluminense sobre o Palmeiras, ali no Maracanã, e lembrar, com aquela ironia que o momento pede, que o Palmeiras, justamente o Palmeiras que disputa taça de igual para igual com o Flamengo, não joga coisa nenhuma faz tempo — só ninguém teve a coragem de avisar isso ao próprio Palmeiras. Poderia, ainda, comentar o capitão do Vasco, Thiago Mendes, que deixou Neymar no vácuo, sem cumprimento, sem aceno, sem nem aquela cortesia mínima que se reserva até para adversário que a gente despreza. Material não falta, meus caros. Mas hoje, confesso, nenhum desses assuntos merece o centro do palco. Porque hoje o Brasil tem herói de verdade para celebrar, e herói de verdade, convenhamos, aparece pouco o bastante para merecer todo o espaço que tomarmos com ele.

O Brasil conquistou, neste domingo, em Frankfurt, suas duas primeiras medalhas de ouro na história do Mundial de ginástica rítmica. E aqui eu insisto — como insisto sempre que a ocasião pede justiça, não apenas manchete — em citar uma a uma, porque nome de heroína não deveria caber em bloco genérico de “seleção brasileira”, deveria caber em memória de país inteiro. O conjunto, sob o comando cirúrgico da técnica Camila Ferezin, subiu ao topo do pódio duas vezes no mesmo domingo: primeiro na série de cinco bolas, depois na série mista — feito duplo que nenhuma seleção brasileira de ginástica rítmica jamais havia sequer sonhado em tocar com a ponta dos dedos.

Na rotina com as bolas, ao som de “Feeling Good”, Maria Eduarda Arakaki, Sofia Pereira, Maria Paula Caminha, Mariane Gonçalves e Julia Kurunczi encantaram o mundo — e uso a palavra “encantaram” sem exagero de cronista apaixonado, porque a nota que tiraram, 29.450, foi a maior de toda a temporada mundial na modalidade. Na série mista, embaladas por “Abracadabra”, Maria Eduarda Arakaki, Maria Paula Caminha, Mariana Gonçalves, Sofia Pereira e Nicole Pircio repetiram a proeza com precisão quase indecente, superando potências históricas como Espanha e Bulgária, que sempre trataram esse pódio como propriedade privada.

Mas seria pobre, seria mesquinho, ficar apenas no brilho do metal. Porque esse ouro não é vitória técnica apenas — é milagre de resistência, é ouro que nasceu apesar do Brasil, não por causa dele. Enquanto o futebol movimenta cifra que nenhuma calculadora de contador consegue acompanhar, e ocupa o centro de toda atenção nacional inclusive nesta própria coluna, nossas ginastas seguem lutando contra a invisibilidade que a maioria dos esportes olímpicos brasileiros carrega como fardo crônico, quase hereditário. Enquanto outros países tratam esporte olímpico como política de Estado, com dinheiro perene e estrutura de primeiro mundo, nossas meninas — e a treinadora Camila Ferezin ao lado delas — precisaram vencer o descaso antes mesmo de vencer a Bulgária. Camila assumiu o conjunto quando éramos apenas a vigésima sexta força do planeta na modalidade. Vigésima sexta, ouviram bem. E construiu esse título tijolo por tijolo, ano após ano, na base do amor pela modalidade que ninguém patrocina como deveria.

Esse ouro, então, pesa mais do que qualquer estatística de balança consegue medir. É grito de resistência entalhado em fita e em bola, é prova viva de que talento brasileiro, mesmo implorando por recurso que nunca chega no tempo certo, ainda é capaz de parar o mundo inteiro num domingo de agosto. Que essas medalhas não sirvam apenas de orgulho passageiro, aplaudido por uma semana e esquecido na seguinte — que sirvam, isso sim, de lembrete urgente, incômodo, para que o Brasil aprenda, de uma vez por todas e sem letra miúda, a valorizar seus heróis antes que eles precisem, sozinhos, sem apoio, sem estrutura, conquistar sozinhos aquilo que deveria ser conquista de nação inteira.

O Brasil é campeão mundial. E, como disse a própria Ferezin, ninguém vai conseguir tirar isso da história — nem mesmo o país que insistiu, por tanto tempo, em não ajudar a escrevê-la.

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