Houve um tempo, meus amigos, em que jornalista esportivo aprendia na faculdade a engolir o próprio coração — a vestir a camisa da imparcialidade como quem veste terno emprestado, apertado, incômodo, mas necessário para não ser mal interpretado pela torcida adversária. Havia colega que nem em dia de folga ousava sair de casa com a camisa do time amado, com medo do olhar torto de quem cruzasse com ele na padaria. Mauro Cezar Pereira foi um desses — por anos e anos escondeu, com elegância de quem sabe guardar segredo, que era flamenguista como eu. Mas os tempos mudaram, o YouTube chegou como uma anistia geral, e eu, que já passei dos cinquenta anos e conquistei o direito sagrado de não ligar mais para o que pensam de mim, dou-me hoje o luxo antigo e novo ao mesmo tempo: vou contar o que espero do jogo, mas que fique bem claro, sem pudor nenhum — estarei torcendo pelo meu time de coração, o Flamengo.
E que jogo, meus amigos, que jogo. É o jogo do ano, ouviram bem, do ano inteiro, para um Flamengo que ainda briga em duas frentes — Brasileirão e Libertadores — depois de ter sido eliminado da Copa do Brasil pelo Vitória, uma dor que ainda ecoa mas que a vida de torcedor apaixonado ensina a engolir sem desistir do apetite pelo resto da temporada. Amanhã, quarta-feira, às vinte e uma e trinta, no Mineirão, o Flamengo enfrenta o Cruzeiro na ida das oitavas da Libertadores — e como bem dizia o eterno Apolinho, um dos comentaristas mais brilhantes que a Rádio Globo e a Tupi já tiveram o prazer de emprestar ao Brasil, isso aqui é briga de cachorro grande, vai sair faísca.
E tempero, meus caros, não falta nenhum. Leonardo Jardim, que largou o Cruzeiro prometendo descanso e foi liberado por Pedrinho sem multa nenhuma no bolso, volta ao Mineirão sabendo que a torcida vai cobrar dele o troco com juros — mais de sessenta mil cruzeirenses devem lotar as arquibancadas, ingresso esgotado, clima de decisão antecipada. Paquetá, esse sim, carrega revanche pessoal: eliminado ali mesmo há oito anos pela Libertadores, volta ao Mineirão com ferida ainda aberta e sonho ainda de pé, pronto para fechar as duas coisas de uma vez só. E há Gerson — ah, Gerson —, ex-curinga da Gávea, hoje vestindo o azul do adversário depois de uma saída que doeu no torcedor flamenguista mais do que qualquer eliminação, empurrada por influência atabalhoada de pai que também era empresário e que confundiu, na hora errada, zelo paterno com gestão de carreira.
Os dois elencos são caríssimos, os dois vêm de vitória na última rodada do Brasileirão, e o Cruzeiro, sob o comando do português Arthur Jorge — que já ergueu taça de Brasileiro e de Libertadores pelo Botafogo, currículo que não se discute — chega embalado, depois de golear o Mirassol por três a um em pleno Mineirão, com gols de João Marcelo, Kaio Jorge e do estreante Wesley. É time que gosta de ter a bola, que pressiona a saída de jogo do adversário com organização de quem estudou a lição direito.
O Flamengo, esse, vai precisar da experiência que só o tempo de casa constrói — Arrascaeta, Bruno Henrique, Jorginho, Paquetá — para esfriar o ímpeto da Raposa nos primeiros quinze minutos, tão perigosos quanto decisivos, e só depois tentar impor o próprio ritmo. O time terá quatro desfalques confirmados — Alex Sandro, Everton Cebolinha e Vitão fora, e Luiz Araújo, recuperado da lesão no joelho esquerdo, ainda em transição, sem condição física ideal segundo a própria comissão técnica avalia.
Enfim, meus amigos, ingredientes não faltam para esse jogão que muita gente já classifica como final antecipada. Estou ansioso, já separei a pipoca, já escolhi a poltrona certa da sala. Meu palpite, para quem quiser guardar e me cobrar depois: o Fla sai com um empate do Mineirão e decide a vaga no Rio, em casa, com a torcida no pescoço fazendo a diferença que sempre faz. Mas o que eu realmente espero, acima de qualquer resultado, é bom futebol — porque apesar de toda a paixão rubro-negra que carrego sem vergonha nenhuma aos cinquenta e tantos anos, o que eu amo mesmo, antes de qualquer escudo, é o futebol-arte. Que a elegância antiga do Gerson seja respondida com o trato fino que Arrascaeta dá à bola. Que as arrancadas históricas de Bruno Henrique encontrem pela frente os arranques de Kaio Jorge, ombro a ombro, sem covardia de nenhum dos dois lados. Porque, no fim das contas, o que eu quero mesmo, antes de vitória, antes de vingança, antes de qualquer velha mágoa de transferência malfeita, é ver duas equipes brigando de igual para igual pelo direito de continuar sonhando alto.
Que vença o melhor futebol. E que, no fundo do meu coração de torcedor confesso, esse melhor futebol vista o manto rubro-negro.
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