Flamengo e Corinthians Farmam Aura
Brasileirão

Flamengo e Corinthians: Um Placar, a Mesma Aura

10/08/2026 12 views 5 min de leitura
Flamengo e Corinthians Farmam Aura
Fla e Corinthians Farmam Aura

Quando o Futebol Vence Apesar dos Cartolas

Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte

Por Marcelo Mesquita, 10/08/2026

Flamengo e Corinthians “farmaram aura” neste fim de semana — e olha que, até outro dia, eu, homem de mais de cinquenta anos, não tinha a menor obrigação de saber o que isso significava. Nenhum cinquentão devia. A palavra pegou os acima de trinta de surpresa; imagina nós, que ainda achávamos que “aura” era coisa de místico de feira, não de estádio lotado num domingo qualquer. Pois bem, os dois times farmaram, e farmaram com uma coincidência que até Nelson Rodrigues, lá do outro mundo, apreciaria pela simetria: dois a zero, os dois, no mesmo fim de semana, cada um à sua maneira de sofrer para chegar lá.

Comecemos pelo Flamengo, que voltou à disputa do Brasileiro com dois golaços que mereciam moldura, não resenha. O primeiro, de Erick Pulgar, foi daqueles que o bom narrador carioca, José Carlos Araújo, descreve gritando três vezes a mesma palavra golão, golão, golão, como quem precisa repetir para acreditar no que os próprios olhos viram: batida de longe, no ângulo, na bochecha da rede, o tipo de gol que cala estádio adversário e enche de orgulho até o torcedor mais desconfiado. O segundo veio de Bruno Henrique, e aqui, meus amigos, a crônica exige pausa e reverência, porque futebol também é isso — memória do que o corpo já sofreu para continuar entregando o que entrega. BH27, há alguns meses, rompeu ligamento de um jeito brutal, voltou, e segue jogando não apenas com talento, mas com aquele excedente de entrega que nenhuma estatística consegue medir. O Fla está para erguer busto para ele e Arrascaeta, que seja — não pelo que fez em 2019, mas pela teimosia elegante de continuar sendo relevante depois da lesão que aposentaria atleta de menor coragem. Dez dias de treino, dois vexames recentes na bagagem, e ainda assim o time devolveu à torcida um pedaço da dignidade perdida. Copo meio cheio, sim — e olhando já para o próximo capítulo, Flamengo e Cruzeiro na Libertadores, na próxima quarta-feira, em Minas Gerais, jogo de ida, dois técnicos portugueses de gabarito se enfrentando, que o futebol, dessa vez, saia ganhando de verdade, sem noite de vexame nenhuma.

Do outro lado da simetria, o Corinthians — que precisava, mais do que nunca, dar uma vitória para dar moral. Dois a zero fora de casa, gol de Pedro Raul, sem brilho técnico digno de manchete, mas com o mérito que só quem já viveu semana ruim sabe reconhecer: jogar fora, três dias depois de eliminação que doeu, com elenco curto ficando ainda mais curto, contrato de Memphis Depay ainda não fechado, Yuri Alberto, jogador importante, fora do time, e ainda assim buscar o resultado que evitava o time entrar numa crise. Porque a alternativa a vencer não era apenas perder um jogo — era acumular instabilidade em cima de queda recente na Copa do Brasil, era abrir margem para a oscilação de meio de tabela roubar de vez o que ainda restava de ambição na temporada. A vitória veio, o Corinthians subiu para a sétima posição, e mesmo sabendo que o título está distante — disputa de dois nomes de sempre, Flamengo e Palmeiras, brigando entre si como quem já reservou lugar cativo — o corintiano pode, enfim, voltar a olhar para cima da tabela, não mais para baixo, não mais contando pontinho de distância da zona que ninguém quer visitar. Jogar em Bragança Paulista nunca foi favor a ninguém — quatro derrotas nas últimas cinco visitas lá —, e ainda assim o time achou dentro de si o que precisava achar.

E é aqui, no fim, que a crônica se permite deixar de lado a arquibancada e olhar para os bastidores, porque há uma injustiça silenciosa acontecendo bem debaixo dos nossos olhos: os jogadores, esses, seguem se doando — Bruno Henrique com o joelho reconstruído, elenco corintiano curto correndo atrás do próprio cansaço —, enquanto lá em cima, nos gabinetes, a novela segue seu roteiro de sempre. O Corinthians em particular atravessa situação política das mais horrorosas, crise pública que rouba manchete do próprio time, e mesmo assim os atletas entram em campo e entregam o que dá para entregar, como se soubessem, por instinto, que o escudo no peito pesa mais do que a bagunça lá de cima.

Fica então o pedido, sem ironia nenhuma dessa vez, feito com a seriedade que a ocasião pede: que os times continuem se empenhando, mesmo com cartola atrapalhando — porque o futebol agradece, e as duas maiores torcidas deste país, cada uma a seu modo, agradecem também. Que os cartolas, um dia, aprendam a farmar aura do único jeito decente que existe: deixando o time jogar em paz.

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