
Crônica de um carioca apaixonado por futebol arte
Por Marcelo Mesquita, 09/08/2026
Confesso, sem vergonha nenhuma da confissão, que hoje a coluna resiste a nascer. As lágrimas chegam antes das palavras, o que é sempre mau sinal para quem precisa escrever e bom sinal para quem precisa sentir. No meio do barulho de estádio, da estatística fria, do gol que vira manchete antes de virar memória, sinto o impulso — quase indecente de tão simples — de parar tudo e perguntar: será que algum desses grandes atletas que aplaudimos chegou lá sozinho? Ou será que, atrás de cada taça erguida, há sempre um homem que ninguém filmou, aplaudindo baixinho, do lugar mais discreto da arquibancada da própria vida?
Quando meu filho Daniel nasceu, fui atrás de resposta como quem procura mapa em terra desconhecida. Peguei os livros, a fé, a boa vontade — e nenhuma certeza. Apaixonei-me por Içami Tiba, por aquela ideia simples e quase impossível de que “Quem Ama, Educa”, título do seu livro mais famoso. Tentei aplicar. Tropecei, várias vezes, nas próprias pernas curtas de pai iniciante. Queria ser pai e queria, ao mesmo tempo, ser amigo — dois cargos que brigam entre si mais do que qualquer torcida rival, e que eu, como todo pai honesto, aprendi a exercer com mais amor do que técnica. Falhei, sim. Mas garanto: teria sido naufrágio maior se eu nem tivesse tentado nadar.
Essa procura, hoje percebo, nasceu de um vazio antigo. Não tive pai presente. Ele reapareceu só quando eu já era homem feito, e a vida, com aquele humor cruel que só ela sabe ter, inverteu os papéis: fui eu quem precisou virar pai dele — pai psicológico, pai espiritual, pai até o último suspiro. E foi ali, nesse estranho espelho ao contrário, que aprendi na própria pele o que a Bíblia e a Psicologia já sabiam antes de mim: paternidade não é sustento, é presença. Provérbios já avisava — instrua a criança no caminho em que se deve andar — porque presença de pai não é dinheiro depositado, é segurança emocional construída, tijolo por tijolo, todo santo dia, sem hora extra e sem folga.
E é curioso — ou talvez não seja curiosidade nenhuma, seja apenas a vida repetindo a mesma lição em roupagens diferentes — como o esporte, esse palco de glória individual, esconde atrás de cada medalha um par de mãos calejadas que a câmera nunca focaliza.
Pelé, o atleta do século, nunca deixou de chamar o próprio pai de professor maior, de raiz de tudo que ele um dia se tornou. Cristiano Ronaldo, hoje colecionador de recordes que a estatística mal consegue acompanhar, ainda se emociona feito menino ao lembrar que gostaria de ter o pai vivo para testemunhar o topo do mundo. Endrick carrega, sem nem sempre saber nomear, a garra de Douglas, o pai que escreveu metas num caderno para provar ao mundo o que ainda não tinha provas, e que trabalhou limpando o que fosse preciso limpar no Palmeiras para que o sonho do filho não sujasse as próprias mãos primeiro. Mateus Vital, perdendo a mãe cedo demais, encontrou no olhar do pai o único chão que não desabou.
A herança atravessa modalidade, atravessa esporte, atravessa até o apelido: Mãozinha Pereira, que jogou na NBA, carrega no próprio nome a homenagem ao pai, Mãozão, pivô que vestiu a camisa do Botafogo, ensinando arremesso com a paciência de quem sabe que ensinar também é uma forma de amar em silêncio. Ayrton Senna teve o destino desenhado ainda menino, quando o pai construiu, com as próprias mãos, um kart movido a motor de cortador de grama — parece brincadeira de quintal, e era, mas foi dentro dessa brincadeira que nasceu um dos maiores pilotos que o mundo já viu.
Jorge, pai de Messi, atravessou oceano ao lado do filho de treze anos, e fez a travessia mais difícil de todas: a de deixar de ser só protetor de infância para virar gestor de uma carreira que se tornaria, décadas depois, a mais vitoriosa da história do esporte — sem nunca deixar, no meio da gestão, de continuar sendo pai. E há, também, a paternidade que se escolhe, não a que se herda por sangue: Charles, padrasto de Gabriel Medina, foi pai, técnico, amigo e cozinheiro ao mesmo tempo, deu ao menino a primeira prancha e foi o primeiro, muito antes do mundo inteiro, a enxergar campeão onde outros só viam criança brincando na água.
Seja no pódio, sob holofote, seja na rotina sem plateia de tantas famílias que a televisão e as redes sociais nunca vão mostrar, a presença de um pai deixa marca que nenhum tempo apaga. A todos eles — os que acertaram, os que tentaram tropeçando, os que superaram as próprias limitações só para conseguir amar um pouco melhor — fica aqui, sem ironia nenhuma, sem picardia, só verdade nua: o meu respeito, a minha reverência, a minha oração.
Feliz Dia dos Pais. Que cada mão calejada, cada caderno de metas escrito à mão, cada arremesso, cada kart improvisado com motor de cortador de grama, continue vencendo, silenciosamente, campeonatos que nenhuma taça jamais vai conseguir representar.
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