Kaiser na época de "jogador" com Renato e Gaúcho
Esporte

A Verdadeira Lei de Gérson É a Lei de Kaiser: O Brasil Que Finge Jogar Também Finge Administrar

03/08/2026 4 views 5 min de leitura
Kaiser na época de "jogador" com Renato e Gaúcho
Kaiser na época de “jogador” com Renato e Gaúcho

Crônica de um carioca apaixonado por futebol

Por Marcelo Mesquita, 03/08/2026

Há duas lendas do futebol brasileiro que, postas lado a lado, formam o retrato mais completo e mais engraçado da alma nacional — e digo engraçado com a devida reverência, porque rir da própria desgraça, aqui, também é forma de sobrevivência. De um lado, Carlos Kaiser, o homem que passou vinte anos fingindo ser jogador de futebol sem nunca ter jogado futebol de verdade. Do outro, Gérson, canhotinha de ouro, tricampeão mundial, que jogou futebol de verdade como poucos, e que teve a vida inteira resumida, contra a própria vontade, numa frase de comercial de cigarro que nem escreveu. Um fingiu talento que não tinha. O outro carregou, sem pedir, um caráter que nunca teve. E o Brasil, generoso como sempre foi com suas próprias contradições, aplaudiu os dois — um com risada de quem descobre a travessura, o outro com a resignação de quem sabe que fama, aqui, é loteria sem volta.

Kaiser é o caso mais puro do que estou chamando, sem meias palavras, de jogador-personagem: aquele que não gosta de futebol, não vê futebol, e ama apenas aquilo que o futebol proporciona — o cachê, a concentração badalada, a mulher fácil, a proximidade dos ídolos de verdade. Ele mesmo confessa, sem vergonha nenhuma, que descia dois andares do hotel para a festa enquanto o time inteiro fingia dormir. Não é vício isolado de uma época sem internet. É protótipo. Porque o Brasil, lamentavelmente, está cheio de herdeiros diretos desse protótipo — só que hoje eles não precisam mais inventar contusão de “foco dentário” para escapar do trabalho duro. Basta ligar a câmera.

Porque eis a atualização mais cruel do modelo Kaiser: o jogador contemporâneo, sem habilidade suficiente ou já no fim de carreira, descobriu que não precisa mais enganar dirigente nenhum — precisa apenas enganar o algoritmo, que é infinitamente mais generoso e muito menos exigente que qualquer preparador físico. Treino de embaixadinha em câmera lenta, bastidor de academia, ensaio fotográfico em família: tudo isso rende mais engajamento do que noventa minutos suados de verdade. Kaiser precisava de vinte anos de esforço social, de amizade cultivada com paciência de malandro profissional, para sustentar a mentira. O herdeiro dele, hoje, só precisa de wi-fi.

E é aqui, meus caros, que a ironia atinge sua forma mais perfeita, quase geométrica: enquanto Kaiser fingia ser jogador sem nunca jogar, Gérson jogava — e como jogava! — e ainda assim foi condenado a carregar, para sempre, o rótulo do oportunismo que nunca praticou. Não há justiça nisso, nem deveria haver, porque o destino brasileiro nunca prometeu justiça, prometeu apenas ironia em abundância. O impostor virou documentário premiado em festival internacional, celebrado como gênio da malandragem. O craque genuíno virou sinônimo nacional de tudo que ele jamais fez. Se existisse um purgatório para símbolos populares mal distribuídos, o Brasil seria o único país do mundo com fila dupla.

Mas a pergunta que realmente importa, a essa altura, não é mais sobre os dois homens que já contaram sua história. É sobre quantos Kaiseres continuam soltos por aí, só que sem a modéstia de escolher o gramado como palco. Porque, convenhamos: se existiu, por vinte anos, um homem capaz de colecionar contrato de risco, luvas de assinatura e salário de clube grande sem nunca disputar uma partida completa — usando apenas simpatia, boa lábia e a ausência de fiscalização —, é urgente perguntar se essa mesma fórmula não migrou, com sucesso ainda maior, para dentro dos gabinetes.

Porque olhem bem para a CBF que administra o futebol brasileiro, para as federações estaduais que definem suas metas numa sala com ar-condicionado sem o técnico presente, para presidentes de clube que trocam de comandante com a mesma facilidade com que Kaiser trocava de time — sempre puxado por um amigo influente, sempre com “contrato de risco” garantido, sempre recebendo as luvas antes de qualquer resultado aparecer. Não seria o caso de perguntar, com a ironia que a ocasião exige e a tristeza que ela também merece: não teríamos, espalhados pelos corredores do nosso futebol, alguns Kaiseres de gravata, que também não gostam de futebol, não entendem de futebol, e só amam mesmo aquilo que o cargo, a mesa e o crachá dourado da entidade proporcionam?

Porque, se Kaiser enganou o sistema fingindo ser atleta que nunca foi, talvez o Brasil, décadas depois, tenha aprendido a lição ao contrário: passou a colocar no comando do próprio futebol homens que fingem administrar aquilo que, na prática, também nunca entenderam de verdade. E o pior — o mais irônico de tudo — é que, dessa vez, ninguém vai fazer documentário premiado sobre isso. Vão apenas marcar outra reunião de metas prometendo, com a mesma cara de pau de sempre, que desta vez vai ser diferente.

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