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O futuro não cabe no discurso de ódio

31/07/2026 1 views 5 min de leitura

Não é de hoje que sabemos das dificuldades do Acre para melhorar. Por melhorar, podemos entender promover condições de vida digna para o povo, gerar boas oportunidades de negócios na economia e proteger a natureza — a garantidora do futuro.

Desde os primórdios de nossa história recente, conviver com as dificuldades impostas pela floresta e pelas distâncias foi desafiador.

A isso some-se o modelo econômico, baseado na superexploração do seringueiro pelo patrão seringalista. Patrão que, por sua vez, padecia nas mãos das casas aviadoras de Manaus e Belém — as verdadeiras donas do dinheiro. Some-se, ainda, a absoluta predominância da presença masculina, quando as mulheres eram tidas como prêmio ou simples mercadoria. E as doenças, o analfabetismo, a mortandade infantil, a violência e o preconceito no trato com os povos que aqui viviam.

De tudo isso nasceu, como que devagarinho, um estado, uma estrutura jurídico-política destinada a submeter, pelo monopólio da força, as pessoas, as propriedades e as relações econômicas e sociais. E os problemas começam justamente aí. Porque o que começa torto dificilmente toma jeito.

A estrutura pública no Acre nasceu da vontade de quem estava longe, bem distante, lá no Rio de Janeiro, então capital federal. Sem que, mesmo com o passar do tempo, fosse sendo reduzida a distância entre quem decidia lá e quem convivia com a dura realidade deste nascente pedaço de Brasil. Mesmo o esforço e, depois, a vitória dos que lutaram pela autonomia, para que deixasse de ser território federal governado pela União e passasse a dispor de governo próprio, resultaram em correção de rumos.

O fato é que nascemos pendurados na estrutura e nos recursos da União e, passadas mais de seis décadas, seguimos na mesma toada. De uma realidade como essa dificilmente surgiria algo melhor que um sistema baseado no patrimonialismo, no assistencialismo e na corrupção. Os estímulos em sentido contrário não existiam. E o alimento do sistema é a política. Seja ela autoritária e violenta, como na ditadura, seja democrática e baseada no voto, como agora. Porque o voto, para além de conquistado, pode ser comprado. E é assim, de eleição baseada na marretagem do voto em eleição arrancada à custa do uso da máquina, que o atraso se perpetua. Somos hoje quase tão atrasados quanto nos primórdios de nossa formação.

O que fazer? É uma boa pergunta. Talvez um dia alguém — tomado de uma santa humildade e de um brilhante conhecimento — nos aponte o caminho. Deve ser mais fácil e provável do que esperar construí-lo a partir do esforço coletivo de nossas comunidades. Aqui é como se praticamente não tivéssemos mais jeito. Afinal, graças ao entusiasmo de nossos jovens com o neoliberalismo, não dispomos mais de “coletivos”, muito menos de “comunidades”. Isso desapareceu na exata proporção de nossa conversão para o individualismo da teologia que prega um Deus interessado apenas no “eu” e que não reconhece o “nós”.

Arrisco um palpite: se, na política — ou melhor, na eleição —, como que por força da vontade psíquica da maioria, os políticos fossem obrigados a voltar a debater as coisas do Acre, em vez de apelar para técnicas de manipulação de massas, com discursos de ódio e bugigangas moralistas; se os temas fossem coisas como melhorar a performance da nossa economia, gerar empregos e oportunidades para quem mais precisa; se fosse discutir como superar a crise do sistema de saúde, dar qualidade à educação e reconquistar os territórios hoje sob controle das facções; talvez, do debate público, na arena da política, os caminhos começassem a aparecer. Ao menos estaríamos novamente olhando para a frente e falando de futuro.

Sabemos que, sem sonhos e sem falar do que está por vir, não vamos a lugar nenhum. Isso é óbvio, não é? O estranho é que, para muita gente, não é. São os que vivem a condenar o passado dos outros. Os prisioneiros das mentiras que criaram para conquistar o favor do povo. E que não entregaram resultados, não retribuíram a confiança das pessoas e nada fizeram para superar o domínio das facções, além de precarizar a saúde e tornar a educação do Acre novamente motivo de vergonha. Para esses, a única fórmula disponível para a manutenção dos mandatos e do domínio do poder é estimular o ódio e a divisão das pessoas.

É fato. A política pode conter em si o caminho da salvação ou ser o instrumento da perdição definitiva. Depende de como você, que vota, encara a oportunidade de decidir o futuro. E isso é mais importante e definitivo do que esperar que os políticos lutem por algo mais que o controle do poder.

A eleição é, portanto, tempo de assumir responsabilidades. Tempo de pensar no que pode ser feito para tornar o Acre um lugar melhor, exorcizando velhos traumas, superando deficiências históricas e construindo o futuro. Não por nós. Nem valeria a pena. Mas pelas crianças — sejam as nossas ou todas elas. Porque não temos o direito de estragar a vida que elas ainda irão viver, já que não fomos capazes de cuidar decentemente do presente.

Fonte: ac24horas.com

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