Televisão

Arrogância ou poder em Quem Ama Cuida? Atriz explora ambiguidade de Silvana

03/07/2026 4 views 7 min de leitura

O público de Quem Ama Cuida ainda não decidiu como reagir à autoconfiança –ou a soberba– de Silvana. Interpretada por Belize Pombal, a personagem carrega uma altivez que não passa despercebida e já divide opiniões nas redes sociais. Longe de se intimidar com o estranhamento dos telespectadores, a atriz celebra o burburinho em torno de sua atuação e encara tanto a recepção calorosa quanto as críticas como reflexo de um trabalho que cumpre seu papel de provocar e dialogar com quem assiste.

Em conversa com o Notícias da TV nos bastidores de Quem Ama Cuida, a atriz afirmou que o retorno dos espectadores tem sido imediato, gerando debates que chegaram até o ciclo familiar da artista. Isso evidencia, assim, o impacto da construção por vezes incômoda de Silvana.

“Fico superfeliz. Eu acho que isso é desafiador, é arriscado. Sempre tem quem goste e quem não goste. Eu acho que isso faz parte do trabalho. A gente faz para compartilhar com as pessoas. Então, o público tem o direito de gostar ou não. Isso também constrói a história, é um diálogo. Seja na TV ou no teatro, a gente constrói a história coletivamente –e esse coletivo inclui quem assiste”, defendeu a artista.

Belize vem de uma sequência muito próspera na televisão. Antes de Silvana, ela viveu Consuelo em Vale Tudo (2025), além de Quitéria em Renascer (2024) –e foi muito elogiada pelo público e pela crítica especializada nas duas ocasiões. Silvana, por sua vez, não tem sido exatamente uma unanimidade: parte da audiência opina sobre um suposto tom acima do esperado.

Tem gente gostando, tem gente falando de tudo, mas ainda é muito começo de conversa. Eu também tô conversando com a Silvana pouco a pouco, cada vez mais. Tem gente que ama, tem gente que odeia. É normal também.

“Mas eu acho que para essa personagem, que eu comecei a investigar muito ainda no começo, deve-se delinear também essa mulher que é segura. Eu acho que a Silvana é uma mulher muito convicta. Independentemente de nós concordarmos ou não com o caráter dela. E que nasceu também já numa posição socioeconômica avantajada, robusta e tal”, analisou Belize.

A profundidade de Belize em cena é fruto de um mergulho que começou muito antes do primeiro “ação” dito nos Estúdios Globo. A preparação minuciosa envolveu um estudo prévio e uma colaboração estreita com os autores da trama para dar o tom exato exigido pela narrativa de Walcyr Carrasco e Claudia Souto e pela visão artística da diretora Amora Mautner –estando esse tom exagerado ou não.

“Tem sido muito interessante artisticamente passar por personagens diferentes e contar histórias diferentes, é uma das coisas mais interessantes para mim nessa profissão. Uma das [coisas], não é a única. Então, isso me satisfaz bastante. Tem gente me achando muito arrogante. Até minha mãe falou ontem”, reconheceu ela.

A atriz explicou que se dedica a olhar para a personagem e a buscar caminhos para investigá-la constantemente, desde que soube da possibilidade de entrar na novela das nove e até o presente. Para Belize, trata-se, na verdade, de um trabalho sem fim, que vai até o último dia de gravação, exigindo investigação e tentativas de encontrar as melhores formas possíveis de contar essa história.

“Primeiro de tudo, a base é o texto. E aí tem a direção que conduz também a forma como a gente faz e que vai delineando e apontando caminhos e dando, para além de contorno, segurança também. Para a gente navegar e experimentar. Tem a caracterização, que é fundamental, porque quando a gente se depara com o que foi pesquisado para compor essa personagem visualmente, a gente também descobre muito sobre ela”, contextualizou.

“O figurino da Silvana me encanta muito. Fala muito sobre essa mulher. Sem contar todos os outros profissionais envolvidos, de várias áreas. Tudo conta. A casa dela tem história. Então, quem fez todo o cenário da Silvana pesquisou os quadros, não são aleatórios. São figuras importantíssimas para a história da comunidade negra, por exemplo. E aí tudo isso vai desenhando a personagem coletivamente. Tem sido assim”, detalhou.

Dar vida a alguém com uma bagagem social tão distinta exigiu da atriz resgatar memórias e vivências de sua trajetória, contrastando suas origens com os ambientes que passou a frequentar ao longo dos anos. Essa distância entre intérprete e obra funciona, para ela, como um estímulo extra para a composição da dondoca da ficção.

“Eu acho que tem uma questão de classe. Eu passei por lugares diversos na minha vida, mas de fato eu nasci e cresci na periferia. E a partir da universidade, ou até antes dela, eu já fui tendo contato com pessoas que pertenciam a classes sociais diferentes, que tinham um poder aquisitivo maior”, contou ela.

“Porém, apesar de ter entrado em contato com pessoas que pertenciam a classes sociais e econômicas diferentes, diversas mesmo, eu não encontrei muitas Silvanas, não. Eu tenho certeza de que elas existem. Encontrei nuances em algumas mulheres, e não só mulheres, em homens que eu conheci, mas exatamente assim, não. Eu acho que nós duas somos bem diferentes também, e isso também me interessa. Isso me desafia mais, eu costumo gostar de me desafiar”, revelou Belize.

Embora o comportamento questionável de Silvana chame a atenção e flerte com o antagonismo, Belize evita rotular a ricaça como uma vilã tradicional, preferindo compreender as nuances e as falhas humanas que a compõem, deixando o posto principal de vilania para outra personagem da história.

“Eu acho que a Silvana tem traços de vilania, mas a vilã oficial dessa novela é a Pilar [Isabel Teixeira]. A vilãzona da novela. Acho que a Silvana tem falhas de caráter. Não é uma pessoa que tem atitudes admiráveis na maior parte do tempo, mas eu não sei se eu a nomearia como vilã exatamente. E, enfim, vamos descobrir”, analisou ela.

“Eu gosto muito que as histórias sejam vivas. Eu não tenho uma fixação por uma história específica, um personagem clássico específico, por fazer uma vilã ou uma mocinha. O meu interesse mesmo é por contar histórias que sejam interessantes, que conversem com as pessoas e, sobretudo, que mexam com as pessoas, que promovam esse exercício reflexivo e afetivo ao mesmo tempo. Eu acho que isso reafirma nossa humanidade e, nesse sentido, o nosso trabalho também importa”, defendeu a artista.

Sem ignorar a construção física para sustentar a imponência que o papel exige, a atriz ainda enfrentou uma rigorosa rotina de treinos e mudanças de postura corporal, o que acabou gerando outras especulações equivocadas por parte dos internautas sobre sua aparência.

“Eu comecei a trabalhar lá no ano passado uma questão de abertura de peito. Então, fui lá fazer exercícios específicos para trazer esse corpo dessa mulher e sustentar. Porque a gente tem uma coisa de ficar meio assim [sem postura], então, uma coisa é pensar em abrir o peito por um minuto, mas para fazer isso o tempo inteiro precisa mudar o corpo, é reposicionar musculatura. Consequentemente, ela tem me dado trabalho em casa”, contou.

A atriz confessou que, ao publicar uma foto nas redes sociais, se deparou com comentários especulando que ela estava em um processo de emagrecimento pela personagem. Belize destacou que jamais “prometeu magreza” ao aceitar o papel –nem foi uma exigência da equipe da novela das nove da Globo.

“Acho que tenho ido por esse caminho, vendo umas coisas de etiqueta, curso de etiqueta. Eu acho que inevitavelmente acaba acontecendo [um emagrecimento], porque, como eu fui trabalhar corpo mesmo, você acaba reduzindo um pouco [as medidas]. E aí fui fazer coisas de beleza que eu gosto, também. Umas massagens… Aproveitei (risos)”, resumiu.

Fonte: ac24horas.com

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