O comissário para Parcerias Internacionais da União Europeia, Jozef Síkela, defendeu em entrevista à CNN que o Brasil escolha o bloco europeu como parceiro em minerais críticos, em vez dos Estados Unidos.
Questionado sobre por que o Brasil deveria escolher a União Europeia, e não os Estados Unidos, como parceira nesse setor, Síkela afirmou que o bloco não pretende “impor” condições ao país e defendeu uma relação baseada em “valores comuns”.
“Porque não queremos impor. Somos um parceiro confiável. Partilhamos valores como democracia, multilateralismo e o Estado de Direito. A política do ‘eu primeiro’ traz vantagens apenas a alguns, mas uma parceria benéfica traz vantagens para todos”, disse.
A fala ocorre em meio à disputa entre grandes potências por acesso a minerais considerados estratégicos para a transição energética, indústria de defesa, baterias, semicondutores, carros elétricos e tecnologias de baixo carbono.
O Brasil vêm discutindo com Estados Unidos e União Europeia formas de cooperação no setor.
No caso dos Estados Unidos, a proposta em discussão também faz menções à construção de capacidades de refino em território brasileiro e à possibilidade de financiamento por meio de instituições como a DFC, agência americana de financiamento ao desenvolvimento, e o Exim Bank, banco de crédito à exportação dos Estados Unidos.
Apesar disso, o governo brasileiro ainda não assinou o acordo com os americanos.
Segundo apurou a CNN, há resistências políticas dentro da administração federal.
A União Europeia, por sua vez, tenta se apresentar como uma alternativa de parceria.
A avaliação de interlocutores brasileiros é que as conversas com os europeus estão mais avançadas no campo diplomático e têm maior aderência ao discurso do governo Lula.
O próprio Síkela afirmou à CNN que o bloco negocia com o Brasil a assinatura de um memorando de entendimento no setor de minerais críticos. Segundo ele, o acordo deve incluir menções explícitas à agregação de valor em território brasileiro e pode ser concluído “em breve”.
“Estamos basicamente trabalhando no memorando de entendimento nesta área e espero que consigamos terminá-lo em breve. Não procuramos apenas materiais críticos não processados; procuramos cadeias de abastecimento estáveis e confiáveis”, disse.
O comissário também afirmou que a União Europeia está pronta para investir em projetos de processamento e refino no Brasil.
“Estamos prontos para investir ou coinvestir com empresas brasileiras e instituições financeiras na criação de valor localmente, o que beneficiará tanto as indústrias locais como as europeias”, afirmou.
O governo brasileiro tem defendido que acordos internacionais no setor de minerais críticos não se limitem à exportação de matéria-prima. A orientação é tentar atrair investimentos para etapas como beneficiamento, separação, refino e transformação industrial em território nacional.
A posição foi reforçada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em discurso no G7. Na ocasião, Lula afirmou que países detentores de minerais críticos devem participar das etapas de maior valor agregado da cadeia, por meio de industrialização, transferência de tecnologia e formação de capacidades nacionais.
A corrida global por esses insumos se intensificou diante da concentração de parte relevante da cadeia na China, especialmente nas etapas de processamento e refino. O Brasil, que possui reservas relevantes de minerais como terras raras, nióbio, lítio, níquel, grafite e manganês, passou a ser visto como parceiro estratégico por diferentes potências.
Na prática, o país tenta usar esse interesse internacional para atrair capital, tecnologia e acesso a mercados, preservando margem de negociação com diferentes blocos. A disputa entre União Europeia, Estados Unidos e China aumenta o poder de barganha brasileiro, mas também eleva a pressão por uma estratégia nacional mais clara para o setor.
Um dos projetos acompanhados pelos europeus é o Colossus, da Viridis Mining and Minerals, em Minas Gerais, de terras raras. O empreendimento foi visitado por Síkela durante a passagem pelo Brasil e é visto como exemplo do tipo de projeto que pode combinar produção mineral, processamento local e fornecimento para cadeias industriais estrangeiras.
A Viridis já recebeu cartas de apoio ou intenção, em caráter não vinculante, de agências de crédito à exportação, em uma estrutura que inclui a Bpifrance, banco público de investimento da França. A empresa também assinou carta de intenção com a belga Solvay para fornecimento de carbonato misto de terras raras.
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