Coluna da Casa

Março, mulheres e trabalho: a força que move a sociedade

09/03/2026 4 views 5 min de leitura

O mês de março é tradicionalmente marcado pela reflexão sobre a luta das mulheres por direitos, igualdade e reconhecimento social. Ao longo da história, essa luta não se deu para sobrepor-se aos homens, mas para garantir liberdade, autonomia e participação justa no desenvolvimento da sociedade. Trata-se de um movimento histórico que busca corrigir desigualdades e ampliar oportunidades.

A força dessa luta também está relacionada à conquista da voz e do espaço público. Como lembra a ativista e prêmio Nobel da Paz Malala Yousafzai, “nós percebemos a importância de nossas vozes apenas quando somos silenciadas.” A frase revela uma verdade histórica: por muito tempo, as mulheres tiveram suas contribuições invisibilizadas, mas nunca deixaram de participar ativamente da construção das sociedades.

A presença das mulheres na história não é recente. A historiadora Michelle Perrot lembra que as mulheres sempre trabalharam e que sua força esteve presente na base da organização das sociedades. Seguindo essa perspectiva, diversos estudos mostram que, desde os primórdios da humanidade, as mulheres sustentam a vida, constroem comunidades e movem a história. Mesmo invisibilizadas por longos períodos, sua atuação esteve presente na economia, na cultura e na formação das novas gerações.

A historiadora Gerda Lerner, referência nos estudos sobre a história das mulheres, também destaca essa presença ao afirmar que as mulheres estiveram em todos os
momentos da construção da humanidade, seja na produção, no cuidado ou na organização da vida social. Ainda assim, a superação das desigualdades de gênero avança lentamente ao longo do tempo, o que se torna ainda mais contraditório quando se considera que as mulheres representam a maioria da população em muitos contextos sociais.

No mercado de trabalho, essa realidade se manifesta de diferentes formas. O trabalho doméstico, por exemplo, continua sendo um dos setores com maior presença feminina e maior índice de informalidade. No Brasil, cerca de 92% dos trabalhadores domésticos são mulheres, e mais de 70% desse trabalho ocorre sem carteira assinada. Dados da PNAD Contínua do IBGE mostram que aproximadamente 40% das mulheres ocupadas no país atuam na informalidade. Muitas vezes, essa condição surge como alternativa para conciliar trabalho, maternidade e responsabilidades familiares.

Ao mesmo tempo, a presença feminina no trabalho informal também revela a capacidade de adaptação e resistência das mulheres. Em muitas situações, a informalidade se transforma em estratégia de sobrevivência econômica e sustento, considerando que muitas dessas mulheres também são mães solo. Nesse contexto, o crescimento do empreendedorismo feminino se destaca como um fenômeno importante da economia brasileira. Milhões de mulheres lideram negócios, movimentam a economia e sustentam as necessidades de filhos e netos, consolidando-se como protagonistas no mercado de trabalho e no desenvolvimento social.

Hoje, as mulheres representam cerca de 43% da força de trabalho no Brasil. Mesmo possuindo, em média, maior nível de escolaridade que os homens, ainda enfrentam desigualdades salariais. A presença feminina cresce especialmente nos setores de serviços, educação, saúde e empreendedorismo, áreas fundamentais para o funcionamento da sociedade contemporânea.

O avanço da participação feminina também começa a refletir mudanças importantes no setor público.

De acordo com o Relatório Nacional de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, elaborado pelo Ministério das Mulheres e pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o estado do Acre alcançou o 3º lugar no ranking nacional de equilíbrio de gênero na remuneração da administração pública estadual. Esse resultado demonstra que políticas voltadas à transparência salarial, ao reconhecimento profissional e à ampliação de oportunidades têm contribuído para reduzir desigualdades históricas. Ao figurar entre os estados com maior equilíbrio remuneratório entre homens e mulheres no setor público, o Acre apresenta um exemplo de avanço na construção de uma gestão mais justa, moderna e comprometida com a igualdade de direitos.

Na Região Norte, onde a informalidade ultrapassa metade da população ocupada, as mulheres desempenham papel central na economia cotidiana. No Acre, muitas delas sustentam famílias, lideram pequenos negócios e mantêm atividades produtivas no comércio, na agricultura familiar e nos serviços. Esses dados revelam não apenas os desafios estruturais do mercado de trabalho regional, mas também a força econômica e social das mulheres amazônicas.

Outro dado significativo é o crescimento da presença feminina entre os Microempreendedores Individuais (MEI). As mulheres representam hoje quase metade dos MEIs no Brasil, com forte atuação em pequenos negócios, comércio e economia criativa. Esse movimento reforça o protagonismo feminino na geração de renda e no fortalecimento das economias locais.

Portanto, ao refletir sobre o mês de março, mais do que celebrar conquistas, é necessário reconhecer o papel histórico das mulheres na construção da sociedade. Desde os primeiros tempos da humanidade até os desafios contemporâneos do mercado de trabalho, as mulheres continuam demonstrando capacidade, resistência e liderança. Valorizar essa trajetória significa ampliar oportunidades, fortalecer políticas públicas e construir uma sociedade mais justa, onde igualdade de direitos e reconhecimento caminhem lado a lado com o desenvolvimento social.

Francinete Barros é servidora pública, gestora de Recursos Humanos, pós-graduada em Saúde e Segurança do Trabalho e especialista em Gestão por Competências, acolhimento hospitalar e políticas públicas de humanização. Foi diretora de Políticas Públicas para Mulheres e atualmente atua como assessora especial da Vice-governadora do Estado do Acre.

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