Após quase dez anos transformando vidas por meio da música, o Conservatório de Música do Juruá encerrou suas atividades nesta semana, deixando dezenas de crianças, adolescentes e famílias em luto. O projeto, que se consolidou como um dos mais importantes espaços de formação musical gratuita do interior do Acre, não conseguiu renovar os incentivos e patrocínios necessários para continuar funcionando.
A notícia pegou os pais de surpresa e gerou forte comoção entre alunos e familiares. Muitos jovens viam no conservatório não apenas um lugar de aprendizado musical, mas um verdadeiro refúgio de disciplina, autoestima e oportunidades em meio às vulnerabilidades sociais do Vale do Juruá.
Cristiane Farias, mãe de um dos alunos, não conteve a emoção ao falar sobre o impacto do projeto na vida do filho:
“A gente recebeu essa notícia com um impacto muito grande, porque nós sabemos o quanto a música é importante na vida das crianças e dos adolescentes. A música transforma, muda o comportamento, traz confiança e responsabilidade. Meu filho mudou desde que começou no conservatório, não só musicalmente, mas como pessoa. Ele ficou mais confiante, mais responsável. O conservatório foi de suma importância para cada criança e adolescente. Cruzeiro do Sul está perdendo um grande projeto”, desabafou.
Cristiane ainda destacou o papel dos professores e a gratuidade das aulas:
“Lá as crianças não iam só estudar música. Elas aprendiam a respeitar, a ter disciplina, a ganhar autoestima. Meu filho fazia coral e guitarra, tudo de graça. Tínhamos aula de teclado, violão, piano… Aqui em Cruzeiro do Sul não tem mais nada parecido. Estamos perdendo muito. Quero agradecer aos professores Gustavo, Felipe e Zad, que se doaram e cuidaram dos nossos filhos como se fossem deles”, completou.
Idealizado pelo promotor de Justiça Iverson Bueno, do Ministério Público do Estado do Acre (MPAC), o Conservatório nasceu em 2016 e foi inaugurado oficialmente em outubro de 2017. O projeto surgiu de uma parceria entre o MPAC, o Poder Judiciário, o 61º Batalhão de Infantaria de Selva (BIS), a Sociedade Eunice Weaver e outras instituições. O espaço funcionava em uma área ampla e arborizada cedida por permuta com a Diocese de Cruzeiro do Sul, que estava abandonada.
Ao longo de sua trajetória, o Conservatório atendeu mais de mil alunos, priorizando crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. Muitos deles conquistaram visibilidade nacional: alguns chegaram a participar do The Voice Brasil e outros formaram grupos musicais de destaque, como a banda Garotos do Sótão. O trabalho recebeu moções de aplausos da Câmara Municipal de Cruzeiro do Sul, comendas culturais e homenagens do Tribunal de Justiça do Acre.
Com o encerramento do contrato e a realocação de parte dos professores para o 61º BIS, o projeto chega ao fim. O imóvel será devolvido à Diocese, e a cidade fica sem qualquer conservatório ou escola de música estruturada e gratuita. Atualmente, as opções de formação musical em Cruzeiro do Sul se limitam a poucas aulas particulares de violão e guitarra.
Ana Paula Carvalho, mãe de dois alunos, lamentou o fim do projeto:
“A música resgatou tantas histórias, revelou talentos e mudou trajetórias. Infelizmente, sem apoio contínuo, projetos sociais assim enfrentam barreiras intransponíveis. Foi mais que aulas: era um lar, um lugar de sonhos.”
O encerramento do Conservatório de Música do Juruá representa uma perda significativa para a cultura do Vale do Juruá. Pais e alunos agora buscam alternativas para que os jovens possam dar continuidade aos estudos musicais, enquanto a comunidade questiona como preencher o vazio deixado por um projeto que, por anos, ofereceu disciplina, inclusão e esperança através da arte.
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