
Por Marcelo Mesquita, 05/07/2026 — Copa do Mundo 2026
“Quem não faz, leva” — já dizia o ditado popular. O Brasil está fora da Copa do Mundo. A eliminação dói, como sempre dói. Mas, desta vez, ela talvez tenha deixado uma lição mais importante do que qualquer vitória poderia ensinar.
Não foi uma tragédia inesperada. Foi o desfecho previsível de um ciclo marcado por improvisação, instabilidade e pouco tempo de trabalho.
A caça aos culpados começou imediatamente. Bruno Guimarães perdeu um pênalti. Vinícius Júnior desperdiçou oportunidades. Nas redes sociais, bastaram poucos minutos para transformar heróis em vilões. Esse é o caminho mais fácil. E quase sempre o mais errado.
Pênaltis já foram desperdiçados por Michel Platini, Zico, Roberto Baggio e tantos outros gigantes da história. O erro faz parte do futebol.
A pergunta relevante é outra: Por que o Brasil continua chegando às Copas menos preparado do que seus principais adversários e perdendo para seleções européias da segunda prateleira? A resposta dificilmente cabe em um único fator.
Durante anos, discutimos apenas talento
Enquanto isso, o restante do mundo passou a discutir talento mais fisiologia, biomecânica, nutrição esportiva, psicologia, análise de desempenho, ciência de dados, prevenção de lesões, monitoramento de carga e inteligência tática.
Hoje o futebol é multidisciplinar.
O talento continua sendo indispensável, mas ele deixou de ser suficiente.
Até mesmo o pênalti perdido merece uma reflexão sob essa ótica.
É bastante provável que o goleiro da Noruega tenha estudado previamente Bruno Guimarães. Hoje existem departamentos inteiros dedicados apenas à análise de comportamento dos adversários. Softwares identificam tendências de cobrança, direção preferencial, velocidade da corrida, posição do pé de apoio, linguagem corporal e padrões repetitivos.
O goleiro já entra em campo com informação. O atacante também deveria entrar. O futebol moderno também é ciência.
Não existe mais espaço para improvisação permanente
O ciclo da Seleção ajuda a entender esse cenário. Trocas constantes de comando na CBF com mudanças de presidentes. Mudanças de técnicos: Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior. Somente depois, Carlo Ancelotti. Quando o italiano chegou, encontrou um carro andando a alta velocidade e precisou trocar os pneus durante a viagem.
Ainda assim vieram novos problemas: ausências importantes (Estevão, Rodrygo e Wesley), a expectativa frustrada em torno de Neymar, lesões. Tudo isso reduziu ainda mais o tempo de construção coletiva. Nenhuma seleção do mundo se torna campeã apenas reunindo grandes jogadores. Ela precisa virar um time. E isso exige tempo.
Talvez a maior reflexão esteja na formação dos atletas
Durante décadas repetimos que bastava nascer um novo Pelé, um novo Garrincha ou um novo Ronaldinho. Mas o mundo mudou.
Hoje basta observar a trajetória de Erling Haaland.
Muitos resumem seu sucesso dizendo que ele é uma “aberração genética”.
É uma explicação confortável e incompleta, como escrevi no artigo anterior (Haaland: aberração géntica…)
Haaland representa uma geração que alia genética privilegiada a comportamento profissional exemplar.
Sono.
Nutrição.
Biomecânica.
Recuperação.
Controle de carga.
Treinamento específico.
Tudo isso potencializa aquilo que a genética oferece.
Não substitui o talento.
Multiplica-o.
O mesmo vale para Lionel Messi.
Ao longo da carreira, ajustou alimentação, reduziu lesões e prolongou sua longevidade esportiva.
Vale para Cristiano Ronaldo.
Vale para Vinícius Júnior.
Quando chegou ao Real Madrid, era extraordinário no drible, mas deficiente na finalização.
Foi lapidado.
Treinou exaustivamente.
Hoje decide partidas.
O talento permaneceu.
O trabalho transformou o talento em eficiência.
O Brasil continua produzindo jogadores brilhantes
Talvez continue sendo um dos maiores celeiros de talento do planeta.
Mas ainda insiste em acreditar que o talento resolverá sozinho aquilo que o restante do mundo resolveu com planejamento.
Não precisamos abandonar nossa identidade.
Não precisamos deixar de driblar.
Não precisamos abrir mão da criatividade.
Precisamos acrescentar conhecimento.
A França faz isso.
A Espanha faz isso.
A Inglaterra faz isso.
O Brasil também pode fazer.
Talento e ciência não são adversários.
São parceiros.
O drible continua sendo arte.
Mas a preparação que permite ao jogador driblar aos 35 anos é ciência.
A criatividade continua encantando.
Mas a organização tática permite que essa criatividade apareça.
O improviso continua decidindo jogos.
Mas é o planejamento que coloca o time em condições de improvisar.
Talvez a eliminação desta Copa tenha sido dolorosa justamente porque escancarou uma verdade que adiamos enfrentar há muito tempo.
O Brasil não precisa escolher entre o futebol de Pelé e o laboratório.
Entre Garrincha e a biomecânica.
Entre Zico e a ciência de dados.
O futuro pertence a quem conseguir unir essas duas tradições.
O hexa dificilmente nascerá apenas de um novo gênio.
Ele nascerá quando o talento brasileiro caminhar lado a lado com conhecimento, método e planejamento.
Porque o futebol moderno já provou uma verdade simples:
talento vence jogos; talento aliado à ciência constrói gerações vencedoras.
Painel do Futebol — Marcelo Mesquita trabalho com Comunicação no Tribunal Regional do Trabalho, no RJ.
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