“Um povo sem memória é um povo sem história.”
A frase atribuída à historiadora Emília Viotti da Costa não é apenas uma reflexão acadêmica; é também um alerta político. Quando uma sociedade esquece suas trajetórias, esquece também quem abriu caminhos, quem enfrentou barreiras e quem pagou o preço da transformação.
Na política acreana, essa memória precisa ser constantemente resgatada — especialmente quando se trata da participação das mulheres nos espaços de poder.
Durante décadas, a política foi tratada como um espaço naturalmente masculino. Às mulheres restavam os bastidores: organizar reuniões, preparar o café, mobilizar comunidades, cuidar da estrutura partidária, formalizar processos e, muitas vezes, sustentar campanhas sem ocupar o centro das decisões. O discurso da incapacidade feminina raramente era declarado abertamente, mas sempre esteve presente na forma da desconfiança, da invisibilidade e da escassez de oportunidades.
Ainda assim, as mulheres avançaram.
Cada espaço ocupado por uma mulher na política do Acre não é fruto de concessão, mas resultado de persistência, fé, resiliência, competência e do enfrentamento constante aos desafios impostos.
Por isso, quando a governadora Mailza Assis afirmou recentemente:
“Não defendo mulher na caixinha, nós precisamos nos defender como pessoas.”
Ela não apenas fez uma declaração política. Sintetizou uma mudança de mentalidade que atravessa gerações: a de que a participação feminina na política não deve ser tratada como favor, nem como exceção.
É um direito.
Mas, para compreender esse momento, é preciso olhar para trás. As mulheres que romperam o silêncio da história. A presença feminina na política acreana não começou agora. Ela foi construída por mulheres que ousaram ocupar espaços quando isso parecia praticamente impossível.
Um desses nomes é Laélia Contreiras Agra de Alcântara, médica e primeira mulher negra a ocupar o cargo de senadora pelo Acre.
Laélia chegou ao estado em 1949, quando o Acre ainda era território federal e havia apenas seis médicos atuando na região. Sua atuação nas áreas de obstetrícia e pediatria marcou gerações de famílias acreanas. Mais tarde, sua presença na política rompeu não apenas uma barreira de gênero, mas também de raça — algo ainda mais significativo em um país marcado por profundas desigualdades.
Sua chegada ao Senado não foi apenas uma conquista individual. Foi também um símbolo de que mulheres poderiam ocupar os espaços mais altos da política nacional.
Outro marco fundamental é Iolanda Lima Fleming, que entrou definitivamente para a história ao se tornar, em 1986, a primeira mulher a governar o Acre.
Antes disso, já havia feito história ao se tornar a primeira deputada estadual do estado. Ao assumir o governo, Iolanda rompeu uma barreira simbólica que por décadas parecia intransponível. Sua presença no Palácio Rio Branco não representava apenas uma mudança administrativa — representava uma verdadeira ruptura cultural.
Mesmo enfrentando resistências políticas, continuou ativa na vida pública, exercendo cargos e disputando eleições em um período em que a presença feminina ainda era tratada com enorme desconfiança.
Muito antes desses avanços institucionais, outra mulher já havia demonstrado que liderança política não depende necessariamente de reconhecimento formal para existir.
Irene Holanda da Silva, acreana, negra e filha de soldados da borracha, foi servidora pública municipal e se tornou a primeira mulher a exercer, ainda que interinamente, o comando da Prefeitura de Rio Branco.
Nomeada secretária de Administração em 1953, assumia a gestão da capital sempre que o prefeito se ausentava, em um período em que sequer existiam vice-prefeito ou Câmara Municipal funcionando regularmente. Documentos oficiais e decretos assinados por Irene comprovam sua atuação.
Sua trajetória revela algo fundamental: as mulheres sempre estiveram presentes na política — apenas nem sempre foram reconhecidas como protagonistas.
Outro marco importante da presença feminina na política acreana ocorreu em Cruzeiro do Sul, segundo maior município do estado, quando Mazinha Rocha se tornou a primeira mulher eleita prefeita da cidade, em 2016, ampliando o protagonismo feminino também nos espaços de gestão municipal.
Em 2018, o Acre registrou outro feito histórico na política nacional ao eleger quatro mulheres para representar o estado na Câmara dos Deputados: Perpétua Almeida, Jéssica Sales, Vanda Milani e Mara Rocha. O resultado colocou o estado em destaque no cenário político brasileiro, demonstrando que a participação feminina nos espaços de poder não é apenas uma pauta de reivindicação, mas uma realidade construída pela confiança do eleitorado e pela trajetória política dessas lideranças.
A política que as mulheres sustentaram
Seria injusto contar essa história apenas pelos grandes cargos.
A política acreana foi sustentada por centenas de mulheres que ocuparam funções de senadoras, vereadoras, deputadas, secretárias de governo, gestoras públicas e lideranças comunitárias. Muitas delas lideraram políticas públicas fundamentais nas áreas de saúde, educação, assistência social, no campo e, principalmente, nos papéis de mães, esposas e provedoras.
Foram essas mulheres — muitas vezes invisíveis nos registros oficiais — que ajudaram a construir o cotidiano da política e a ampliar o olhar do Estado sobre as necessidades da população.
A presença feminina nunca foi apenas simbólica. Ela sempre foi trabalho, gestão, compromisso público e superação.
2026: um possível ponto de virada
É nesse contexto histórico que o Acre se aproxima de um momento que pode marcar uma nova fase política.
A eleição de 2026 pode inaugurar um novo capítulo na política acreana, com a atual governadora Mailza Assis na disputa pelo governo do estado, tendo como vice a médica e ex-deputada federal Jéssica Sales. A chapa simboliza mais do que uma estratégia eleitoral: representa o amadurecimento de uma trajetória histórica de mulheres que, ao longo das décadas, abriram caminho para ocupar os espaços centrais de decisão no Acre.
Quando as mulheres disputam o poder em condições reais de vitória, o debate político muda de patamar. Deixa de ser sobre se elas podem ou não governar e passa a ser sobre qual projeto de governo é melhor para a sociedade.
Esse é o verdadeiro avanço democrático. Não é sobre espaço. É sobre democracia. A presença feminina na política não deve ser tratada como moda, tendência ou pauta circunstancial. Ela é uma condição para que a democracia seja, de fato, representativa. Quando uma mulher chega ao poder, ela não chega sozinha. Carrega consigo a história de muitas outras que enfrentaram o silêncio, a invisibilidade, o preconceito e a resistência institucional.
Se hoje o Acre pode assistir a uma eleição histórica com mulheres disputando o governo do estado, é porque muitas outras vieram antes — abriram portas, enfrentaram estruturas e provaram, repetidas vezes, que competência política não tem gênero. A história da política acreana não pode ser contada sem elas. E talvez estejamos justamente diante de um momento em que essa história começa, finalmente, a ser escrita com mais igualdade, mais protagonismo e mais justiça.
Francinete Barros é servidora pública, gestora de Recursos Humanos, pós-graduada em Saúde e Segurança do Trabalho e especialista em Gestão por Competências, acolhimento hospitalar e políticas públicas de humanização. Foi diretora de Políticas Públicas para Mulheres, Diretora em Saúde e atualmente atua como assessora especial da Vice-Governadoria do Estado do Acre.
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