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O feminicídio também é um problema econômico? Descubra

10/03/2026 9 views 5 min de leitura

Na semana em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, uma reflexão se torna inevitável, especialmente em um dos estados que mais registra mortes de mulheres no país. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Acre apresentou, em 2025, a maior taxa de feminicídios do Brasil.

Em um país marcado por altos índices de violência letal contra homens e mulheres, uma pergunta costuma surgir no debate público: por que existe uma legislação específica para feminicídio, se homens também são vítimas de homicídio?

A explicação está no padrão desse tipo de crime. Muitos homicídios de homens estão relacionados a disputas criminosas ou conflitos urbanos. Já o feminicídio possui características diferentes: frequentemente acontece dentro de relações pessoais e domésticas, sendo cometido por parceiros ou ex-parceiros. Trata-se, portanto, de uma violência associada a relações de controle, dominação e conflitos nas relações afetivas.

Por esse motivo, o feminicídio passou a ser reconhecido na legislação brasileira como uma categoria específica. O objetivo não é atribuir maior valor a uma vida em relação à outra, mas reconhecer que determinadas formas de violência seguem padrões sociais próprios e, por isso, exigem políticas públicas direcionadas.

Além das dimensões jurídica e social, existe também um aspecto econômico frequentemente pouco discutido.

Na economia, faz-se a distinção entre custos privados e custos sociais. Custos privados são aqueles assumidos diretamente por quem toma uma decisão. Já os custos sociais incluem os impactos dessa decisão sobre outras pessoas e sobre a sociedade em geral.

Quando uma ação causa prejuízos a terceiros que não participaram dela, os economistas classificam esse efeito como uma externalidade negativa.

Crimes violentos são um exemplo claro desse fenômeno. A decisão individual de cometer um crime produz consequências que ultrapassam os envolvidos diretos.

No caso do feminicídio, os impactos econômicos se espalham por diferentes instituições e ao longo do tempo.

Os primeiros custos aparecem no sistema de segurança pública e de justiça. Um único crime exige investigação policial, perícia técnica, atuação de promotores, defensores públicos e magistrados. Todo esse processo demanda profissionais qualificados, estrutura institucional e recursos públicos.

Se houver condenação, os gastos continuam no sistema prisional. Manter uma pessoa privada de liberdade envolve despesas constantes com segurança, alimentação, saúde e administração penitenciária, que podem se prolongar por muitos anos.

Sob a perspectiva econômica, esses são recursos que poderiam estar sendo direcionados para outras áreas, como educação, infraestrutura ou saúde. Na economia pública, isso é conhecido como custo de oportunidade.

Mas os efeitos não se limitam ao sistema de justiça.

Muitas vítimas de feminicídio estão em idade economicamente ativa. Quando uma vida é interrompida, perde-se também trabalho, renda, experiência profissional e participação produtiva na economia. A produção deixa de acontecer, a renda deixa de circular e o consumo diminui nas comunidades onde essas mulheres viviam.

Os impactos também atingem as famílias. Em muitos casos, filhos ficam órfãos e passam a depender de parentes ou de políticas públicas de assistência. Essas crianças frequentemente necessitam de acompanhamento psicológico, apoio educacional e suporte social por anos.

Isso mobiliza profissionais das áreas de saúde, assistência social e educação, ampliando ainda mais os custos públicos associados à violência.

Há ainda efeitos intergeracionais difíceis de medir. Traumas familiares, instabilidade econômica e rupturas afetivas podem afetar o desenvolvimento dessas crianças, produzindo consequências que se estendem por décadas.

Considerando todos esses fatores, o feminicídio deixa de ser apenas uma tragédia individual. Ele também representa um fenômeno com impactos econômicos significativos.

Do ponto de vista econômico, trata-se de um evento que gera externalidades negativas, eleva custos sociais, mobiliza recursos públicos escassos e reduz o potencial produtivo da sociedade.

Isso mostra que a violência doméstica não é apenas um problema moral ou jurídico. Ela também representa uma perda econômica concreta.

Por essa razão, políticas de prevenção são importantes não apenas do ponto de vista social, mas também econômico.

Fortalecer canais de denúncia, ampliar redes de proteção e investir em educação para prevenir a violência tende a ser muito menos custoso do que lidar com as consequências institucionais e sociais de um crime consumado.

Em outras palavras, prevenir a violência reduz custos futuros, evita externalidades negativas e preserva o capital humano da sociedade.

Ainda assim, qualquer análise econômica tem seus limites. Nenhum cálculo é capaz de medir plenamente aquilo que se perde quando uma vida é interrompida. O valor de uma vida humana permanece, por definição, incalculável.

Se você ou alguém que conhece está em situação de violência, procure ajuda. O Ligue 180 funciona 24 horas por dia, oferecendo orientação, registro de denúncias e encaminhamento para serviços de proteção. Em casos de emergência, a Polícia Militar pode ser acionada pelo 190.

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